29 de fevereiro de 2008

"Falta consciência histórica à população portuguesa"

Quando é que se interessou pela música?

Foi em miúdo. Na escola, sempre cantei. Lembro--me de ter interpretado uma ópera de Mozart. Na altura, estava longe de saber que iria fazer dessa vida profissão. Mas só mais tarde é que me interessei pelos instrumentos de sopro...

Porquê? Não são instrumentos tão habituais como a guitarra ou o piano...

Sim, é verdade mas eu sempre quis reproduzir a voz. Queria tocar como se estivesse a cantar. Os livros dizem que a flauta de bambu é o instrumento que mais se assemelha com a voz humana. Também sempre me encantou a imagem do pastor a tocar no campo. A faceta bucólica sempre esteve presente.

Cresceu na cidade. De onde vem esse gosto pela ruralidade?

Sou de Campo de Ourique [Lisboa] mas sempre tive gosto pelo campo. A música tem uma grande ligação à natureza. De certa forma, creio que percorri um caminho inverso a muitas pessoas que nascem num meio rural e querem vir para a cidade a todo o custo.

O que é que encontra no campo que a cidade não lhe oferece?

Principalmente, a paz interior. Há um recolhimento muito forte que é difícil de conseguir na cidade. Todos os dias viajo até ao campo para tocar um pouco. É um ambiente calmo, com muito ar puro. O lado contemplativo está sempre presente.

Pratica 'yoga'?

Desenvolvo uma série de actividades ligadas ao yoga mas a mais importante de todas é mesmo tocar (risos). Falando a sério, é muito bom para a saúde até pelo exercício que representa para os pulmões.

Como é que se sente num meio urbano cada vez mais agressivo?

Não gosto de multidões. Prefiro estar no meu canto mas não sou anti-social. Se estiver muita gente num espectáculo meu, óptimo! Gosto da Lisboa antiga, do Cais do Sodré e de Alfama. Sou muito fadista e até toco por carolice todas as segundas-feiras no restaurante Mesa de Frades.

Fado Bailado, disco que editou em 1983, obteve sucesso comercial e reconhecimento. Foi inesperado?

O Fado Bailado nunca foi pensado para grandes multidões. Quando o gravei, fiquei à espera que os puristas do fado me atacassem. Mas afinal não. No fundo, é apenas cantar o fado mas recorrendo a um instrumento de sopro.

De onde vem essa alma fadista que ficou clara nessse disco?

Quando era mais novo, gostava de fado e de flamenco e só mais tarde é que me envolvi com o jazz. Gostava muito da Amália Rodrigues e do Alfredo Marceneiro. Sou um pouco marginal mas não à força. Considero que a minha música é contestária apesar de já ter obtido muito sucesso com ela.

Esteve ligado ao fado e ao jazz. Considera-se um músico ecléctico?

Através de todas as diferentes influências, procuro mostrar um espírito que passa pela música do Oriente, pela Índia, pelo Norte de África e até mesmo por Goa. Tocar outras músicas é tocar-me a mim. Por vezes, sinto que gostava de saber tudo mas sei que é impossível (risos).

Há um interesse pela diáspora portuguesa que lhe é muito caro. É um apaixonado pela história?

É preciso compreender as origens. Creio que falta consciência histórica à população portuguesa para se perceber que, por exemplo, a influência árabe está muito presente na música.

De onde vem o seu interesse pela cultura oriental?

Sou fã de toda a música de raiz. É preciso compreender as origens para andar para a frente. A música oriental tem muito a ver connosco. Canta emoções como o fado. Tem muito a ver com o lamento. Para além disso, é muito chegada à voz.

Mais uma vez o lado espiritual presente...

É preciso compreender essa ligação. A música é a voz de Deus.

Tocou em Jacarta, na Indonésia. Como foi essa experiência?

Foi fantástico. Os problemas não estão no povo. São coisas criadas pela classe política. Não foram as pessoas que assaltaram Timor. É um território com uma tradição musical muito rica. Nesta altura, já nem estou completamente familiarizado com a cultura local. Mais importante, foi o concerto em Bombaim. Nunca me tinha sentido tão nervoso. Foi importante para ultrapassar fraquezas.

Sente que há tesouros por descobrir em tradições menos exploradas?

Claro! A cultura anglo-saxónica é avassaladoramente potente e consegue mesmo enganar as pessoas. Por exemplo, um miúdo pode ter a tentação de dizer que música portuguesa é toda aquela que é cantada em português o que não é verdade. O rock tem uma matriz claramente anglófona e pode ser cantado na língua portuguesa mas não é por isso que passa a pertencer à tradição nacional. Sou capaz de reconhecer uma frase musical por conhecer a nossa raiz.

As novas tecnologias podem ser importantes para a divulgação de outras músicas ?

Sim, mas acabam por não ser. Na teoria, são muito boas mas, mais uma vez, o imperialismo do mundo ocidental manipula a verdade. É o jogo do mais potente, mais uma vez a funcionar. Os mais poderosos dominam completamente a divulgação. Há alturas em que me sinto um estranho com o domínio de uma cultura que me é bastante estranha. Confesso que nunca estive muito ligado à pop.
fonte ~ dn

chapéu preto

28 de fevereiro de 2008

Rão Kyao novo disco este Sábado no Diário de Notícias

Porto Interior é o nome do projecto de Rão Kyao com Yanan, uma talentosa chinesa, residente no Porto, exímia tocadora de Pi'pa.

"Com este encontro pretendemos, através da música, continuar a celebrar a convivência de vários séculos entre Portugal e a China, que Macau historicamente tão bem exemplificou", explica o mestre da flauta Rão Kyao.

Este projecto já passou por várias salas do país e estará disponível em disco a partir de dia 1 de Março, altura em que será vendido em conjunto com o jornal Diário de Notícias.

Alinhamento (alguns temas):

Coloane | Taipa | Macau | Tema Clássico Chinês | Fado Oasis | Machadinha | Oliveirinha da Serra | Variações Sobre Fado Menor | Celebração da Paz

mais info: 21 441 62 00 | www.uguru.net | uguru@uguru.net

José Barros | Mar Eterno

José Barros
Mar Eterno
Ocarina, 2006

Dizia o escritor Virgílio Ferreira, em tom poético-filosófico, que "da minha língua vê-se o mar", como uma alusão ao ponto de união da lusofonia.

Entre encontros e experiências partilhadas, vão-se desfiando histórias ao sabor do tempo, num exercício de memória colectiva, sustentado pela música. Assim é o disco Mar Eterno de José Barros, o errante navegante que neste trabalho discográfico apresenta-se pela primeira vez a solo, como um despir artístico, numa procura sincera das raízes da sua música. De facto, mais que uma homenagem à força inspiradora do mar, trata-se duma ode lusófona de expressão pessoal, evocando influências musicais de distintas geografias, como Angola, Moçambique, Cabo Verde e Galiza, sobre a música tradicional portuguesa. Deste modo, estabelece-se um verdadeiro diálogo intercultural, através da sonoridade profundamente acústica, que resulta na fusão de estilos e de instrumentos: guitarra portuguesa e de doze cordas, o cavaquinho português e cabo-verdiano, a braguesa e as percussões portuguesas e africanas.

Sendo um trabalho de autor, a maioria das composições são de autoria própria de José Barros, que conta igualmente com a colaboração amiga de Osvaldo Dias (Vaiss), produtor do disco e compositor do tema Frutos Tropicais, bem como de Eugénio Tavares, o reputado compositor de mornas, que neste disco assina a belíssima Canção ao Mar. Por outro lado, a travessia marítima também se faz ao som das vozes da fadista Mafalda Arnauth, da cabo-verdiana Nancy Vieira e de José Manuel David e Rui Vaz (Gaiteiros de Lisboa), reforçando o diálogo cultural.

Também é de referir o alto valor literário do disco, que inclui poemas de Fernando Pessoa Mar Português, Natália Correia As flores d’amigo, Amilcar Cabral Regresso, Camilo Pessanha Porque o me-lhor, destacando-se a presença do poema Dizemos Rosalia de Celso Emilo Ferreiro, reinvidicando, assim, a integração da Galiza no mundo cultural lusófono.

Sara Louraço Vidal, 2008

Alinhamento:

  1. quem canta lê
  2. a ilha do fim do mundo
  3. porque o melhor
  4. mar português
  5. regresso
  6. nem sempre o mar revolta (para a tina)
  7. canção ao mar
  8. as flores d'amigo
  9. frutos tropicais
  10. dizemos rosalia (para a uxia)
Gravado, misturado e masterizado no estúdio JBN. Ribeira de Sintra, entre Fevereiro e Setembro de 2005.
Produção - José Barros ; Direcção musical e arranjos - Osvaldo Dias; Gravação, misturas, edição e masterização - João Magalhães, José Barros e Vaiss; Ilustração da capa e grafismo - Ivone Ralha; Fotografias - Rui Moreno

josé barros e navegante
s. joão

16 de fevereiro de 2008

"Não entendo o fado que não seja cantado com alegria"

É "o nosso embaixador do fado". Representante maior que prossegue inovando no que faz. Duramente criticado pelas facções mais conservadoras da sociedade pela sua participação no filme "Fados", do espanhol Carlos Saura (cuja visão muito pouco ortodoxa do fado incomoda muita gente), o "Fado da saudade" que interpreta no filme ganhou o Goya Musical deste ano. Conversa com vista para a história do fado.


JN | Como é, usando as palavras do musicólogo Rui Vieira Nery, ter cem anos de fado - os seus, aos quais soma os da sua mãe, Lucília do Carmo? Como é conviver com uma herança assim?

Carlos do Carmo | Diria que é uma herança responsável, que me tem permitido reflectir bastante sobre este enigma chamado fado. Tenho feito ao longo de todos estes anos o meu pequeno tratado sociológico individual, possível graças ao contacto com as pessoas e tenho compilado os quês e os porquês, e acho isso interessantíssimo porque reflicto vindo de longe - de um tempo em que o que me foi narrado era apenas o esboço do início do profissionalismo do fado, ou seja, a transição da tertúlia amadora para o profissionalismo. E vivendo isto tudo, juntamente com as transformações da sociedade, esse século de fado é para mim um motivo de orgulho - passe a imodéstia.

A sua mãe, Lucília do Carmo, profissionalizou-se em que altura?

Muito cedo, entre os 17 e os 18 anos, por necessidade absoluta de ganhar a vida - vida difícil, tempos difíceis e complexos. Isso nunca me foi escondido pelos meus pais, embora eu nunca tenha sido atacado por essas dificuldades, porque me protegiam, mas eles sentiram-nas realmente.

Como era esse fado já remoto, que também conheceu, durante o antigo regime?

O meu pai foi um homem que ao conhecer a minha mãe alterou radicalmente a sua vida. Ele era livreiro, e apaixonou-se pela miúda, que tinha bastante menos idade do que ele, e tornou-se empresário de fado, mas naturalmente com toda a bagagem que trazia, uma bagagem cultural diferente do ambiente do fado à época. Era um homem dialogante, conhecedor, e muito sensível, que tinha, por exemplo, feito teatro amador quando era jovem. Tinha uma grande preocupação com a dicção, e ensinava a minha mãe a dividir os versos. Eu lembro-me de estar em casa e de ouvi-lo a ensinar a minha mãe a dividir verso a verso. Mas, nessa época, a preocupação central era contar a história. O fado teve uma fase, longa, em que o grupo de versos era extenso, podia demorar-se sete ou oito minutos a contar uma história em fado. O advento do disco é que o traz para os três minutos e obriga a um poder de síntese por parte do poeta, que passa a contar a história em três, no máximo quatro sextilhas. Ou em cinco quadras, seis, no máximo. Essa necessidade de síntese levou a que a história tivesse de ser muito clara, da primeira à última quadra ou quintilha, isto falando do fado tradicional, que é o que assenta nestes parâmetros. Estamos a falar, por exemplo, de cinco quadras que têm uma só música, e se a pessoa fica a repetir aquela música, torna-se monótono, e isso implicava um exercício contínuo de alteração de estilo, e entre esse estilo (que tinha uma função criativa quase jazzística) e o contar da história, tinha de ficar um talento. Eu cresci a ouvir pequenas críticas, coisas que eram ditas em surdina, e que representavam o lado danoso, diria, da censura. Havia uma certa rebeldia, que não se queria ajustar à ideia de que não se podia cantar com alguma liberdade criativa. E o facto de haver o lápis azul, e de cada fado passar por uma censura, provocava desagrado entre os mais velhos, e rumores, coisas ditas à boca pequena...

... que diziam, por exemplo, o quê?

«Não se pode dizer o que se quer», «não se pode dizer o que se pensa». Recordo o velho Alfredo Marceneiro a fazer referência a nomes que eu vim de novo a descobrir agora neste levantamento que está a ser feito para a candidatura do fado a património mundial da Humanidade - nomes que foram quase anulados, ou mesmo silenciados pela ditadura, e que contudo foram importantes na história do fado. Porque tiveram outra visão estética, e levaram-no para outros terrenos, como o das letras, que revelavam preocupações sociais.

Preocupações que não as do fado tradicional...

Uma outra pessoa que me deu uma noção do fado do início do século XX foi o meu velho amigo Frederico de Brito, um homem que compôs para mim as "Canoas do Tejo" e outros fados populares, e que era, como o Marceneiro, um sábio. Era letrista e músico. Há músicas dele muito populares, que as pessoas cantam e nem sonham que são dele. Ele tinha sido chauffeur de praça, e era chamado «o poeta- -chauffeur». Era um homem muito interessante, um autodidacta com muito talento. Uma coisa que me fascinava nesses homens era que cada um tinha um ponto de vista, uma forma de analisar o fado, de o sentir, de o pensar, de o conceber e de o interpretar. E essa diversidade criou a tal idade de ouro - isto parece uma contradição, mas o fado acabou por ter a sua idade de ouro dentro do regime. Porquê? Porque tinha aquele grupo de homens, que cantavam ao despique, que criavam estilos, e ao fazerem-no faziam músicas, e essas músicas (que têm normalmente os nomes deles, ou então os que eles colocavam por qualquer circunstância àquelas melodias) são as do fado tradicional, que todos cantamos.

Quando foi essa idade de ouro do fado?

Estamos a falar dos anos 20, 30 e 40, anos de grande criatividade. Havia uma grande figura que era o Armandinho, o guitarrista, que transpunha aquilo para música. Tudo isto são narrativas do Marceneiro. Surgem depois as mulheres grandes intérpretes, não tão criativas do ponto de vista da composição, mas grandes intérpretes. Falamos de um tempo em que cada fadista se demarcava completamente do outro, cada qual tinha um caminho, um estilo, e o público tinha uma diversidade imensa para escolher. As pessoas elaboravam listas para mim, este é o primeiro, e aqueles o segundo, o terceiro, o quarto... mas ia-se por ali abaixo sempre em grande nível, do primeiro ao último, em homens ou mulheres o nível era sempre elevado. E, no entanto, ouvir um, não era ouvir outro. Cada um tinha o seu estilo, a sua estética, a sua forma de cantar, a sua voz e, claro, o seu repertório. A minha geração recebe isto com o peso da responsabilidade.

Há uma característica no fado que considero curiosa e que é o facto de o fado existir numa espécie de universo auto-referenciado, de que são porventura exemplo os nomes dos fados.

Se o Pedro Rodrigues tinha uma melodia nova, criada por ele, era inevitável chamar-se Pedro Rodrigues (risos). Ou a Marcha do Alfredo, que é uma música do Marceneiro. Há depois outros casos, como o d'O bailado, que é uma música que é mais conhecida através da "Estranha forma de vida". Diz-se a um guitarrista «Olhe, por favor, quero cantar o Alexandrino», e o guitarrista pergunta: «Do Marceneiro ou do Joaquim Campos?» Porquê? Porque eram formas distintas de estilar esse fado alexandrino, esse tipo especial de verso. Creio que esta auto-referência correspondia apenas à necessidade de nomear as coisas.

Concorda ou não que o fado tem uma faceta de coisa fechada, onde apenas se é aceite e se pode singrar se se fizer um determinado percurso, com determinadas provações?

Uma das coisas por que me bato é para que não se guarde essa ideia de que isto é só para iluminados. O fado é cultura popular, mas devemos estar informados sobre ela, até para formarmos o nosso gosto e a nossa opinião. Em cada dez pessoas com quem falo sobre fado, nove dizem-me que não percebem nada de fado, que só sabem ouvir, que gostam ou não, e não saímos disto. A passagem da tradição oral tem estado a ser mal feita, e essa tem sido uma das preocupações que me tem ligado a trabalhos de equipa, para ver se conseguimos que o fado não seja um ilustre segredo de cozinha, que não se passa a ninguém. O fado começa por requerer um dom, algo que a natureza dá às pessoas.

A que corresponde esse dom?

Corresponde a uma forma diferente de cantar. Cantar o fado é vestir uma pele de qualquer coisa que, embora sendo música popular, não é bem uma canção. É outra coisa ainda, que tem outra forma de pulsar, e de dizer o verso, é mais intenso, e a verdade é que estes mistérios permanecem misteriosos até para mim. O fado porquê? Porque eu descubro isso em mim, na minha cabeça, na minha maneira de sentir e de cantar. Eu transformo tudo num fado, e esse lado tem uma magia que corresponde a algo a que chamarei dom. Que ou se tem ou não se tem.

Aquilo a que chama dom será talvez a mistura de uma vocação musical com um sentimento ou, se quiser, um entendimento sentimental desta canção («Fulano de tal canta com muito sentimento»).

Sentimento, sim, mas também alegria. Não entendo o fado que não seja cantado com alegria. O fado corrido é a base para todos os fados que nós queiramos cantar que tenham alegria, uma motivação positiva, qualquer coisa onde caiba a palavra esperança. O fado tem um leque vastíssimo de opções. Podendo até ser dançado. Que não haja um tabu em relação a isso, o fado pode ser dançado e coreografado com toda a naturalidade, e está certo, não é ofensivo, porque se formos à génese do fado percebemos que ele era também dançado. Esta canção tem sofrido metamorfoses que têm a ver com os tempos, e isso é normal, mas há pessoas que ficam muito chocadas se um jovem fadista aparece a fazer um remix.

A sua participação no filme 'Fados', de Carlos Saura, esteve envolta em polémica precisamente devido a algumas visões menos ortodoxas do fado. Há muita gente, porventura mais conservadora, que diz que o fado não é o que é mostrado no filme, que aí aparece desvirtuado. Isso, esse conservadorismo corresponde ou não a uma sensibilidade que nunca deixou de existir no fado?

Os debates são sempre coisas interessantes, úteis, vivas, e eu não me sinto dono da verdade, ou da ideia de que esta transformação do fado me pertence. Tento entender as coisas à luz da realidade da própria vida, e se a vida de hoje é completamente diferente da de há quarenta ou cinquenta anos, concordará que o fado que nós narramos também é diferente. Até porque se não o fizer deixa de fazer sentido, e transforma-se numa coisa cristalizada, parada no tempo. Com todo o respeito que tenho pelas melodias tradicionais, que são evidentemente autênticas pérolas (acabei de gravar um disco com fados tradicionais, músicas do Armandinho, do Alfredo Marceneiro e do Joaquim Campos, músicas com sessenta, setenta, oitenta anos, porém com poemas actuais, escritos por pessoas que nunca o tinham feito para fado), é preciso compreender que um homem como o Saura, que é um cidadão do mundo, com uma visão muito particular da vida, e que tem uma obra, ao fim de três anos a estudar o fado, apresente um filme que não é uma coisa convencional. E depois não vamos pensar que os noventa países que compraram o filme são países de pessoas burras...

Pessoalmente subscrevo sempre que se façam outras coisas com as preexistências, em tudo na vida. Mas há em todas as áreas, e no fado também, um núcleo duro de gente agarrada às tradições da pior forma que é a que nega a evolução. A Internet está cheia de comentários agressivos contra si por causa da maneira como o fado é mostrado no filme de Carlos Saura. Que «ainda por cima é espanhol», lembram alguns, num arremesso primário.

As pessoas têm de parar para pensar, em vez de serem apenas movidas pelo ímpeto que nos acusa de termos mexido na vaca sagrada. Respeito a diversidade das opiniões, mas elas têm de ser fundamentadas, e não apenas afirmar-se contra alguém. O Paco de Lucia deu uma volta extraordinária ao flamenco, internacionalizou-o, e é uma festa ver tudo aquilo que emana da sua criatividade. É preciso fazer sentir a essas pessoas que a vida não pára. Quando há trinta anos gravei o disco "Um homem na cidade" as críticas imediatas que recebi foram violentíssimas, mas curiosamente hoje é unânime que se trata de um dos grandes discos da história do fado. Não podemos passar toda a vida a cantar os mesmos fados, metidos num gueto. Sobre o respeito pela tradição, não me venham dar lições, porque essas pessoas não gostam mais de fado do que eu. Contudo, estou sempre disponível para ouvir um jovem, com tudo o que lhe vai na alma, misturar com naturalidade um fado com um rap. Isso não me choca nada, nem me agride. Qual é o problema de haver um rapper a homenagear o Marceneiro? O Marceneiro era um músico de jazz, um músico aberto, a criatividade dele perdura ao longo dos tempos porque ele era um homem muito talentoso. Quando apareceu o Piazzola, a crítica foi violentíssima, a Argentina arrasou-o. Contudo, é tão mais agradável ouvir Gardel tendo em linha de conta que apareceu o Piazzola! O novo não deslustra o velho.

Em que ponto está o processo de candidatura do fado a Património Mundial da Humanidade?

Está muito bem encaminhado, contou com uma grande entrega por parte de uma equipa de gente jovem envolvida no processo. Provocou a emoção que provoca o fascínio da descoberta. Quando as pessoas começaram a enviar os espólios familiares, as coisas das famílias do Marceneiro, do Carlos Ramos, da Berta Cardoso, etc., o estudo sistematizou-se e nunca mais parou. A curiosidade e o envolvimento de todas estas pessoas levaram ao aprofundamento do trabalho e há gratíssimas surpresas, caso do antropólogo Paulo Lima, que escreveu um livro sobre a história do fado operário no Alentejo. Todo este trabalho recente em torno do fado leva-nos a crer que podemos levá-lo para um patamar interessante de reconhecimento internacional. É um trabalho que nunca está concluído, embora o objectivo da candidatura tenha acelerado o processo.

O que vai trazer ao fado esse reconhecimento?

Quando uma coisa é transformada em património, há um conjunto de regras cujo cumprimento é exigido a quem cuida. À semelhança do que acontece com o Centro Histórico de Guimarães, do qual a população cuida como se de um bebé se tratasse. O orgulho e a vaidade que têm, sendo que cada cidadão é um vigilante, porque interiorizaram que se assim não for aquele património se perde, e a UNESCO não tem problema nenhum em retirar o seu selo, se for caso disso. O Museu do Fado tem hoje uma base de dados imensa, que todos os dias cresce, permitindo que todos possam ter acesso à vasta informação sobre o fado. A somar a isto, digo-lhe que em cem anos tivemos apenas dois grandes contributos na forma de livros, o do Tinop [João Pinto Ribeiro de Carvalho (Tinop), autor de "História do fado"] no início do século XX, e cem anos depois o do Rui Vieira Nery, "Para uma história do fado". Finalmente, procedeu-se a uma ordenação e a uma sistematização da informação disponível sobre o fado.

Tudo isso a que tem vindo a dedicar-se transformou-o num consensual e aclamado embaixador do fado. Como convive com esse epíteto?

As pessoas demonstram-me amiúde a simpatia e o carinho que têm por mim, ando na rua e vivo isso constantemente. Mas será a generosidade das pessoas, porque não me sinto embaixador de coisa nenhuma. Graças ao fado, pude viver uma vida muito bonita, pude viajar praticamente pelo Mundo inteiro, pude conhecer pessoas extraordinárias (foi graças ao fado que tive o privilégio de conhecer a mulher com quem casei há 43 anos), enfim, devo ao fado um sem-número de coisas belas. Sendo filho de uma das grandes protagonistas da história do fado e de um homem que foi um importante empresário de fado, eu tenho responsabilidades, e não as alijo, tomo-as com toda a seriedade e gosto. Trata-se agora de organizar as coisas de maneira a que as gerações vindouras tenham a casa arrumada. Depois, com o seu talento e a sua capacidade, façam o que entenderem, inovem, partam a loiça toda, inventem, arranjem, mas sabem que isto foi assim, que se passou desta forma. E que deixou de ser uma coisa em gueto, fechada, só para alguns iluminados, como se fosse uma coisa transcendente, que é propriedade de uma ou duas centenas de pessoas. Não é.

E de uma ou duas famílias...

Pois, mas não é. O fado é património de todos, e isso está bem patente no facto de os cinco milhões de portugueses que estão fora de Portugal serem potencialmente mais consumidores de fado do que os dez milhões que estão cá dentro. Por uma razão muito simples é que sendo beirões, transmontanos, ilhéus, o que for, há no fado uma raiz que é comum a todos. O fado tem características muito misteriosas...

... e congregadoras

Sim, tem-nas. Desde que não se limite ao fado da desgraçadinha, que não subscrevo, que fique claro. Não tenho nada a ver com isso. Não gosto, não gostava, e penso que não irei gostar. O fado é uma canção ampla, mais aberta do que por vezes se pensa. É como a caça, depende do caçador. O fado tem de ser ensinado, fazer parte dos currículos escolares, porque, afinal, qual é a cantiga que resiste século e meio? A canção napolitana está a esvair-se, a canção provençal idem, e o fado mantém uma extraordinária vitalidade.

Que disco é este que lançou em Novembro?

Chama-se "À noite". Eu queria muito cantar Armandinho e Joaquim Campos, e juntar num disco esses pilares do fado. E ao mesmo tempo combater a ideia de que não há quem escreva letras para fado. Há que bater à porta das pessoas. Quem afirmaria há dois anos que o Nuno Júdice ia escrever belos fados? Ou a Maria do Rosário Pedreira? Ou o José Manuel Mendes? Ou o Fernando Pinto do Amaral? Ou o Júlio Pomar? E queria que este disco fosse sobre a noite. Sou um homem da noite, tenho vivido grande parte da minha vida de noite. Decidimos lançar este disco de uma forma diferente, de uma forma que pretendeu combater a actual crise da indústria discográfica, e fizemo-lo com o jornal "Público" e a revista "Visão", e o disco foi vendido em oito mil postos, que são os quiosques deste país, e na primeira semana vendeu trinta mil cópias. Foi feito fora dos circuitos convencionais. Fizemos também uma outra coisa, para os coleccionadores editámos 500 LP, numerados, só para eles, que estão nas Fnac. E tem corrido muito bem. Talvez nunca tanto como desde "Um homem na cidade", o que tem a sua piada, porque eu tenho 68 anos, não sou propriamente um estreante, tenho 45 anos de actividade. O disco conta uma história que começa com um primeiro verso que diz «tão longas eram as noites» e acaba com um verso que diz «a noite é minha amante». O alinhamento foi muito ponderado, e no momento da gravação houve uma grande entrega, nenhum fado foi gravado mais do que duas, excepcionalmente três vezes, foi uma coisa intensa e única. E está a resultar, as pessoas gostam, e fazem-no saber.
fonte ~ jornal de notícias

por morrer uma andorinha

14 de fevereiro de 2008

Carlos do Carmo | À Noite

Carlos do Carmo
À Noite
Universal Music Portugal, 2007

Na 22ª edição dos prémios Goya, Carlos do Carmo arrecadou a distinção de melhor canção original, com a interpretação do "Fado da Saudade" no filme Fados, uma visão cinematográfica pessoal do realizador espanhol sobre a canção de Lisboa. Tão pessoal, que a polémica foi constante e intensa, entre críticas mais puristas e elogios desmedidos.
Carlos do Carmo também é um artista habituado à polémica, ou não fosse ele um dos fadistas mais destacados e veteranos, logo susceptível a todo o tipo de comentários que a profissão lhe confere. Contudo, o seu génio supera as adversidades, patente na sua vasta discografia duma carreira internacional desde 1964. O facto de lhe ser atribuído este último reconhecimento só demonstra o carácter universalista do seu cantar, cujo timbre envolvente, aliado ao sentimento que o cantor impõe aos versos, resulta em magnetismo puro.
Carlos do Carmo não é um homem do passado, procurando sempre uma renovação constante da sua música, como é exemplo o seu mais recente trabalho "À Noite", que consiste numa homenagem a Lisboa, ao mesmo tempo que assinala o 25º aniversário do formato CD em Portugal, de quem o fadista foi o precursor com a gravação de "Um homem no país".
Para este novo disco, Carmo desafiou sete poetas contemporâneos (sem qualquer experiência de escrita para este tipo de música, há que dizer!) a pôr letra e mensagem a doze melodias emblemáticas de Alfredo Marceneiro ou Joaquim Campos, pretendendo estabelecer, desta forma, uma ponte temporal. É precisamente este saber cruzar tradição com modernidade que o torna numa referência para as novas gerações, sendo verdadeiramente um elo de aproximação e reencontro, com o intuito de consolidar uma arte musical ancestral, mas que se quer actual. Neste sentido, Carlos do Carmo é um guia sábio, ao partilhar o testemunho da sua experiência de vida, como reflexo duma história marcante e dum futuro sério e exigente, tal como o próprio Fado o é.

Sara Louraço Vidal, 2008
Alinhamento:
  1. insonia
  2. pontas soltas
  3. fado do 112
  4. lisboa oxalá
  5. margens da solidão
  6. à noite
  7. a guitarra e o clarim
  8. vem não te atrases
  9. madrugada
  10. vou contigo coração
  11. fado dos meus fados
  12. enredo

O crescer da Mandrágora

Ainda no mês passado escrevia uma resenha do primeiro disco dos Mandrágora, e já chegam boas novas do blog A Trompa sobre a edição do seguinte trabalho discográfico "Escarpa", a ser editado pela Hepta Trad a 9 de Maio deste ano.
A contagem decrescente já começou, ora leiam:
Depois da senda pelas raízes folk, que serviram de inspiração ao 1º disco dos Mandrágora, o novo “Escarpa” segue um caminho mais urbano numa explosão de ideias progressivas com salpicos de Jazz e vórtices de Rock. As músicas são curtas e densas com melodias rápidas na gaita de foles, muita improvisação ao saxofone e um baixo e bateria intensos. O conjunto é enriquecido com originais arranjos de guitarra e pela introdução de instrumentos de arco como o violoncelo a moraharpa e a nyquelarpa. Além da composição instrumental conjunta, “Escarpa” conta com a participação internacional de Simone Bottasso no acordeão diatónico e de Matteo Dorigo na Sanfona, e da participação nacional de Francisco Silva na voz e guitarra e de Helena Madeira na voz.
A raíz que se plantou no início, agora se fez formoso arbusto…“.

11 de fevereiro de 2008

Novo álbum de Camané sairá na primeira semana de Abril pela EMI Music Iberia

Camané, recentemente regressado de uma actuação em Madrid, a 04 de Abril, o seu novo álbum, que está a gravar com produção do músico José Mário Branco, disse á Lusa o fadista.

Em declarações à Lusa, o fadista afirmou que manterá a equipa que o tem acompanhado nos últimos anos, além de José Mário Branco que é seu produtor desde "Uma noite de fados", editado em 1995.

"Somos já velhos cúmplices e amigos. Ele sabe onde eu posso surpreender e vice-versa. Somos uma equipa", afirmou.

Trata-se do primeiro albúm de Camané para a EMI Music Iberia, depois de terminada a parceria EMI Music/ Valentim de Carvalho.

Além do produtor, acompanham-no os músicos José Manuel Neto (guitarra portuguesa), Carlos Manuel Proença (viola) e Carlos Bica (contrabaixo).

Novidade será a participação do guitarrista Ricardo Rocha, que conhece "desde miúdo" e com quem há muito Camané pretendia gravar um fado.

"Reentro hoje em estúdio e na primeira semana de Abril o CD deverá estar no mercado", disse o fadista.

Quanto às escolhas Camané afirmou que seguirá "a linha dos anteriores, uma selecção de poemas que gosto e que me sinto bem a cantar, e quanto às músicas, alguns fados tradicionais e talvez experimentar músicas novas".

Em tom de balanço, Camané afirmou que "muita coisa mudou" desde que gravou o seu primeiro disco da fase adulta, há cerca de 15 anos, e que hoje se sente "menos constrangido" a cantar fado.

"Lutei muito para impôr uma produção para fado, com os meus músicos. Quando comecei a cantar, na altura do primeiro álbum da fase adulta, ninguém comprava espectáculos de fado, nem as câmaras, nem havia circuitos", disse.

"Naquele ano realizei apenas dois espectáculos, até à televisão era difícil ir", recordou.

Hoje considera que "está tudo mais fácil" e que "o fado não está em moda, está é mais visível e tornou-se mais interessante porque o descobriram".

fonte ~ rtp

7 de fevereiro de 2008

Novo regime de trabalho dos artistas entra em vigor

O regime que define as regras dos contratos de trabalho dos profissionais de espectáculos em Portugal entra em vigor com a publicação da legislação, hoje, no Diário da República.

Os profissionais do espectáculo, como actores, realizadores, músicos, bailarinos ou toureiros, não tinham até aqui qualquer estatuto que regulasse a sua actividade.

A maioria dos artistas trabalha actualmente sem contrato de trabalho, a recibos verdes, e sem qualquer protecção em caso de doença ou desemprego.

O novo regime, que foi aprovado na Assembleia da República em Novembro, regulamenta o exercício da profissão, estipula a modalidade de contrato de trabalho - por tempo indeterminado ou a termo resolutivo - e quem está abrangido pela lei.

O documento refere ainda que os artistas não são obrigados a registarem-se nos serviços do Ministério da Cultura, mas quem o fizer terá direito a um título profissional válido por cinco anos.

A lei não estabelece ainda as regras relativas à segurança social, cujo regime será estipulado numa regulamentação específica, uma ausência criticada por todos os partidos da oposição na altura em que a legislação foi aprovada.

Os direitos de propriedade intelectual decorrentes da actividade artística serão regidos pelo Código do Direito de Autor e dos Direitos Conexos.

A legislação estipula que são consideradas artísticas as actividades de actor, artista circense ou de variedades, bailarino, cantor, coreógrafo, encenador, realizador, cenógrafo, figurante, maestro, músico e toureiro.

fonte ~ lusa

5 de fevereiro de 2008

Escolas de Leiria contestam corte de apoios ao ensino inicial da música

Leiria, 04 Fev (Lusa) - Os responsáveis das duas escolas de música de ensino oficial de Leiria criticaram hoje a proposta da tutela em acabar com os apoios à iniciação e ao ensino supletivo, uma medida que deverá entrar em vigor no próximo ano lectivo.

"Estou perfeitamente convencido que isso terá sido um delírio" de algum responsável governativo, afirmou Henrique Pinto, responsável pelo Orfeão de Leiria, comentando a possibilidade de a tutela vir a cortar com os apoios ao ensino de iniciação.

"Não passa pela cabeça que alguém pense reduzir o ensino básico de música a uma mera generalidade como acontece nas actividades extra-curriculares", considerou este responsável.

No âmbito da reforma do ensino artístico especializado, a partir do próximo ano lectivo as escolas públicas de música estão impedidas de dar aulas ao 1º ciclo e terão de funcionar em regime integrado, ou seja, ministrarem formação geral (como em qualquer escola) e especializada (artística).

Outra das propostas do Ministério da Educação tendo em vista a reforma do sector passa pela obrigatoriedade de estas escolas leccionarem apenas em regime integrado, que prevê a realização da formação geral e especializada no mesmo estabelecimento de ensino.

O regime supletivo caracteriza-se por permitir aos alunos frequentar as disciplinas musicais no Conservatório e as do ensino geral numa escola à sua escolha.

Nesta matéria (regime supletivo), Henrique Pinto admite "alguma lógica" no corte dos apoios devido à resposta de o ensino generalista está a dar.

Posição mais crítica tem Paulo Lameiro, director da Escola de Artes, salientando que esta medida irá cortar com os apoios às escolas particulares - como são o caso de Leiria - e levar ao despedimento de muitos professores.

"Tudo o que afecta as escolas públicas, afecta-nos a nós" e as instituições deixarão de ter apoios para ministrar "ensino vocacionado de música" até aos dez anos de idade.

Para Paulo Lameiro, esta medida foi a forma da tutela "arranjar professores para as actividades extra-curriculares" nas escolas mas isso "só vai destruir o único sistema que, mesmo a funcionar mal, formou músicos em Portugal".

"Uma coisa é a educação musical que todo o cidadão tem direito a ela mas outra coisa é um sistema que permite a formação de músicos e isso não pode ser destruído", acrescentou.

fonte ~ rtp

4 de fevereiro de 2008

Prémio Goya para fado de Carlos do Carmo

Chegou a ser apontada como uma das mais polémicas categorias da edição deste ano dos prémios Goya, os Óscares do cinema espanhol. Não por ter um português e um fado entre os nomeados, já que a polémica veio mesmo de outras nomeações a concurso. A vitória sorriu contudo a Fado da Saudade, uma das canções originais integradas no filme Fados, de Carlos Saura, interpretada por Carlos do Carmo. O prémio foi ontem entregue em cerimónia que decorreu no Palácio Municipal de Congresos del Campo de las Naciones, em Madrid.

O Fado da Saudade, interpretado por Carlos do Carmo, venceu a categoria na qual estavam também nomeadas as canções Circus Honey Blues, de Victor Reyes e Rodrigo Cortés (da banda sonora do filme Concursante), Happy, Happy Chueca, de Diossa e Malyzzia, (de Chuecatown), La Vida Secreta de las Pequeñas Cosas, de David Broza e Jorge Drexer, (de Cándida), e Pequeño Paria, de Daniel Melingo (de El niño de barro).

Camané, outro fadista presente no elenco de Fados, comentou a vitória de Carlos do Carmo afirmando que esta "representa que o fado está a chegar a sítios difíceis e onde a música portuguesa habitualmente não chega". Para Camané, a vitória do Fado da Saudade é também "uma prova e um reconhecimento do grande intérprete que é o Carlos do Carmo e da forma como ele toca as pessoas", acrescentou.

O filme Fados, estava ainda nomeado para uma outra categoria: a de Melhor Documentário. Aí, contudo, o filme perdeu para Invisibles, produzido por Javier Bardem.

Em Portugal, Fados foi visto em 2007 por perto de 28 mil espectadores.- N.G.