26 de setembro de 2010

Balltoque: Pandeireta Galega | Lisboa

BALLTOQUE
- workshops de música tradicional

"Pandeireta Galega"
por Sara Vidal (Luar na Lubre)

Domingos, 15 em 15 dias
Iniciados: 16h-17h
Intermédios:17h-18h
- Fabrica do Braço de Prata
Rua da Fábrica do Material de Guerra, nº 1, lisboa

Início a 10 Outubro 2010
Preço: 15 balls (Mensalidade)

Formas de Pagamento: No início de cada mês
inscrição aqui!

Balltoque: Concertina | Lisboa

BALLTOQUE
- workshops de música tradicional

"Concertina"
por Eva Parmenter (Caravana)

Terças, 19H45 às 21H15
- Casa da Comarca da Sertã
rua da madalena, 171 3º, lisboa

Ínicio a 12 Outubro 2010 (8 meses)
Nível Iniciado
Nº Alunos: min 3, max 5

Preço: 45 balls (Mensalidade)
Formas de Pagamento:
Totalidade: 325 balls
Cheques: 360 balls

inscrição aqui!

20 de setembro de 2010

Hermínia da Silva : Fado da Sina

Reza-te a sina, nas linhas traçadas, na palma da mão
Que duas vidas, se encontram cruzadas, no teu coração
Sinal de amargura, e dor e tortura, de esperança perdida
Indício marcado, de amor destroçado, na linha da vida

E mais te reza, na linha do amor, que terás de sofrer
O desencanto, ou breve dispor, de uma outra mulher
Já que a má sorte assim quis, a tua sina te diz
Que até morrer, terás de ser, sempre infeliz

Não podes fugir
Ao negro fado brutal
Ao teu destino fatal
Que uma má estrela domina
Tu podes mentir
Às leis do teu coração
Mas, ai, quer queiras, quer não
Tens de cumprir a tua sina

Cruzando a estrada, da linha da vida, traçada na mão
Tens uma cruz, afeição mal contida no teu coração
Amor que em segredo, nasceu quase a medo, pra teu sofrimento
E foi essa imagem, a grata miragem do teu pensamento

E mais ainda te reza o destino que tens de amargar
Que tua estrela, de brilho divino, deixou de brilhar
Estrela que Deus te marcou, mas que tão pouco brilhou
E cuja luz, aos pés da cruz, já se apagou

Amadeu do Vale

O dia em que Hermínia Silva levou um apalpão em palco

Há atrações literalmente fatais e que podem terminar numa grande confusão. Que o digam a fadista Hermínia Silva , o forcado e o estivador... ora venham daí saber porquê.

Anos 60, restaurante "Solar da Hermínia". Tal como o nome indica, esta casa de fados pertencia à saudosa Hermínia Silva (que em relação ao povo deve ter sido mais acarinhada do que a própria Amália), essa grande fadista popular, do cinema, da revista... enfim, se isto fosse medicina ela teria sido uma fabulosa médica de clínica geral. Percebia de tudo.

Numa noite ela ficou sem guitarrista e não conseguia encontrar ninguém que estivesse livre. Como último recurso, lembrou-se de um tipo que era o "Joaquim Alemão", um estivador que tocava só aos fins de semana. Era o género de guitarrista do desenrasque.

A Hermínia tinha por mania ensaiar o reportório com os guitarristas novos na cave e nesse dia cumpriu a tradição. O Joaquim tinha uma adoração secreta por ela e quando a viu já toda meio produzida engoliu em seco e manteve a calma enquanto ensaiava. Para que não restem dúvidas: A Hermínia era um verdadeiro mulherão, muito vistosa.

Com o vestido justinho, parecia uma viola...

No início da noite começaram os fados e ela era a última a cantar. Quando apareceu com um vestido justinho... parecia uma viola, com as curvas todas acentuadas. Pôs-se à frente do "Alemão", virada para o público, pronta para cantar. Ele começou a tocar, enquanto olhava insistentemente para o rabo dela. Ao fim de uns acordes não resistiu, deu-lhe um palmadão no rabo e disse: "Ah fazenda!".

O marido da Hermínia, que era o Guerreiro, forcado em Benavente, não foi de modas: Saltou da mesa e atirou-se ao guitarrista. A noite de fados acabou por ali, com um verdadeiro duelo entre um forcado e um estivador. Escusado será dizer que o Joaquim teve de meter a viola no saco e sair dali mal conseguiu.
Vital d'Assunção
fonte ~ expresso

16 de setembro de 2010

As Lisboas de Marco Rodrigues

O fadista defende “um fado imediato e ao pulsar do quotidiano” o que, segundo disse à Lusa "se reflecte neste álbum" que é editado dia 13.
Os temas da actualidade “indo ao encontro do fado como crónica do quotidiano” pautam o novo disco acentuadamente tradicional e em que escapam a este alinhamento “Valsa das paixões” (T. Torres da Silva/Tiago Machado) que interpreta com Mafalda Arnauth e “A cor do céu em mim", explicou o fadista.
“Homem do Saldanha” fala de um idoso que marca as noites entre o Saldanha e Picoas acenando a quem passa. Este é um dos temas “retintamente quotidianos” e tem letra de Boss AC que se estreia nas lides fadistas e assina ainda “Ninguém vê”, com música de Nando Araújo e Tiago Machado.
Para cantar este fado, Marco convidou Carlos do Carmo que apresentou como “um amigo, um conselheiro”.
“Passo algumas horas em sua casa para o ouvir e tentar aprender”, acrescentou.
Tiago Machado, autor de temas como “Ó gente da minha terra” e “Os anéis do meu cabelo”, assina também a música de “Homem do Saldanha” e garante a produção executiva com Tiago Palma.
“O Tiago [Machado] é um amigo e a ideia deste álbum surgiu no Festival da RTP onde defendi uma canção dele e da Inês Pedrosa [“Em água e sal”] que com um arranjo mais sóbrio integra este CD”, disse o fadista.
“Ao longo do álbum fomos trocando impressões e os temas foram surgindo. Para mim os fados têm uma urgência que implica experimentá-los logo, não se podem guardar”, argumentou.
Contrariando este argumento surge no álbum, “A cor do céu em mim” (Ernesto Leite) que estava na gaveta “mas o Tiago Machado encontrou onde lhe colocar umas cordas e gravámos”.
Referindo-se a “Água em sal”, Marco Rodrigues afirmou que “tem uma matriz de portugalidade que é quase um fado”.
“Por outro lado, a minha interpretação dá-lhe o carisma fadista”, disse entre risos.
Tiago Torres da Silva, poeta que lhe foi apresentado por Mafalda Arnauth, é o autor de quatro temas, um deles composto para uma junção de cinco fados tradicionais.
Intitulado “Rapsódia do fado que ninguém quer” integra com arranjos de Tiago Machado os fados tradicionais Alvito, Georgino, Pedro Rodrigues, Sem Pernas, e o Corrido Manuel de Almeida.
Marco Rodrigues assina os fados “O Inverno do fado” e “Onde vou”, ambos com letras de Miguel Martins, autor que incluiu já no anterior álbum.
Marco Rodrigues toca viola há seis anos e acompanha-se em quatro temas, nos restantes o instrumento é garantido por Carlos Manuel Proença.
Do grupo de músicos constam ainda José Manuel Neto na guitarra portuguesa em 11 temas, no 12.º o guitarra é Luís Guerreiro, e o baixo acústico Yami num tema apenas.
Tiago Machado garante harmónica num tema e piano em dois outros, sendo ainda de referir Sertório Calado (percussões), Bárbara Duarte Barbosa e Jeremy Lake (violoncelo), Jorge Teixeira (viola de arco) e os violinistas Vasco Broco e Pedro Pacheco.
fonte ~ hardmusica

Sextas de concertos: Candidaturas e propostas 2011 | até 30 nov 10 | Lisboa

Na prossecução dos seus objectivos de divulgar a música e os intérpretes portugueses, a Fonoteca Municipal propõe a continuação de Sextas de Concertos, um ciclo constituído por propostas dos mais diversos domínios musicais, de Janeiro a Junho e Setembro a Novembro, na última sexta-feira de cada mês, sempre às 21h30,
com entrada livre.

Datas:
28 de Janeiro / 25 de Fevereiro / 25 de Março /
29 de Abril / 27 de Maio / 24 de Junho /
30 de Setembro / 28 de Outubro / 25 de Novembro

Poderão candidatar-se todos os projectos que apresentem trabalhos originais de qualquer domínio musical (à excepção da Música Clássica). As propostas devem incluir texto de apresentação, imagem, contactos e maqueta (ou página no myspace com temas disponíveis para audição).

Os concertos devem ter uma duração de cerca de 45 minutos e ser o mais acústicos possível (os requisitos técnicos para cada concerto deverão contemplar a dimensão e condições acústicas da sala).

A promoção dos projectos participantes (imagem, texto de apresentação e contactos) far-se-á através de:
- Postal A5 de divulgação Sextas de Concertos
(trimestral, 2000 exemplares);
- Promoção do ciclo e concertos no site da Fonoteca;
- Promoção do ciclo e concertos através de e-mail
(público em geral e comunicação social);
- Promoção na AgendaLX (eventual)

Envio de propostas até 30 de Novembro (por e-mail, CTT ou entrega até às 20h na Fonoteca Municipal).

FONOTECA MUNICIPAL DE LISBOA
Praça Duque de Saldanha
Dolce Vita Monumental, Lj. 17
1050-094 Lisboa
Tel.: (+351) 21 3536231/2
E-mail: fonoteca@cm-lisboa.pt
http://fonoteca.cm-lisboa.pt

8 de setembro de 2010

A Barca dos Castiços em CD

A pluralidade cromática da Música de um Povo.
Uma mancha sonora sobre uma pintura ancestral.

A Barca dos Castiços, numa parceria com o Teatro da Cerca de São Bernardo, vai apresentar em Coimbra o seu primeiro trabalho discográfico, Mancha em Terras de Cor, registo em que as fusões da música Tradicional Portuguesa, com outras sonoridades mais universais, tentam reflectir a pluralidade cromática de um pequeno, mas culturalmente diverso país como é Portugal.
A tradição marca o porto de saída, a criatividade é a rota a percorrer…

Dia 13 de Setembro, pelas 21h30.
Entradas Gratuitas, mediante levantamento de ingresso na bilheteira do TCSB.

Uma Produção 7 Sons, Casa do Povo de Souselas, com o apoio da Escola da Noite, Teatro da Cerca de São Bernardo e Rádio Universidade de Coimbra.

+351 239 718 238

5 de setembro de 2010

Três Vozes no Fado

“O projecto procura apresentar três diferentes gerações de fado, através de intérpretes que são muito diferentes no estilo e no repertório”, disse à Lusa o produtor do grupo, Carlos Cruz.
Os fadistas são acompanhados à guitarra portuguesa por Rodolfo Godinho, à viola por José Carvalhinho, e Jorge Carreiro na viola baixo.
“Cada um de nós interpreta fados do seu repertório, e depois cantamos dois ou três temas juntos, o que resulta muito bem, pois mostra claramente que não se está no fado sempre da mesma maneira, cada um dá-lhe a sua interpretação e imprime a sua marca”, disse Ana Marta à Lusa.
A fadista apresenta neste projecto vários fados novos de autoria de António Rocha, nas músicas dos fados tradicionais Zé Negro, Margaridas e Magala.
Francisco Sobral estreou-se como actor no musical “Amália” de Filipe La Feria, encarnando Alfredo Marceneiro, participou ainda em “Canção de Lisboa”, integrou posteriormente o elenco do musical “Fado... Esse malandro vadio!”. Além fronteiras Sobral actuou já em Angola.
Anita Guerreiro tem uma carreira com mais de 50 anos, e entre os seus êxitos, muitos deles ligados ao teatro de revista, refira-se, "Cheira bem, cheira a Lisboa", "Sinos", "Calçadinha à portuguesa", “Ai, ai Lisboa”, “Boneca de trapos”, “Santo António veio a Alfama” e “ O fumo do meu cigarro”.
A fadista estreou-se em Fevereiro de 1954 no palco do Teatro Variedades, no Parque Mayer, em Lisboa, depois de um entrada no meio do espectáculo pelo concurso “Tribunal da canção”, do programa radiofónico “Comboio das seis e meia”.
“Assim que me ouviram levaram-me ao Marques Vidal e nem concorri, cantei logo. Eu ainda era menor e tive uma autorização especial do coronel Óscar de Freitas para actuar", recordou a fadista à Lusa.
Anita Guerreiro é o nome artístico de Bebiana Guerreiro, encontrado pelos produtores de "Comboio das seis e meia".
Vencedora do Prémio Estêvão Amarante (1969/70) e de uma Guitarra de Ouro, em Angola, onde chegou a residir, Anita Guerreiro tem-se tornado mais conhecida das novas gerações através dos papéis que desempenha em várias telenovelas.
Anita Guerreiro afirmou que deve à televisão a popularidade que hoje tem junto "de uma faixa etária mais nova", depois do interregno que fez na década de 1970, quando foi para os Estados Unidos.
fonte ~ hardmusica

Fados a Preto e Branco : Trago fado nos sentidos

Duarte: Fado sério, mas descontraído

O álbum é magnífico e a sua presença estonteante. Um trabalho sólido, em que "Fado Novembro" é absoluto. Toda a sua composição revela maturidade e reflexão.

O Hardmusica conversou com Duarte, e esclarecemos que as fotos foram gentilmente cedidas pelo seu agente.

Hardmusica: Lançado o CD, qual o balanço que faz nesta altura?

DUARTE: Sendo que “Aquelas Coisas da Gente” foi apresentado em finais de 2009, os meses que entretanto foram correndo, deram-me a possibilidade de poder pensar os resultados deste trabalho mediante três dimensões de análise distintas.
Numa primeira perspectiva de análise, referente a uma abordagem do objecto segundo características que se prendem com a sua natureza artística (contemporaneidade, qualidade musical, composição, letras, características contextuais mediante o estado da arte) julgo poder afirmar que este trabalho foi de encontro às minhas expectativas. Sinto que a procura da minha autenticidade artística foi significativamente conseguida neste trabalho de equipa, tendo em conta o universo musical, relacional e vivencial que lhe está adjacente.
A segunda lente de análise, focada em questões relativas ao “produto” que se pretende dar a conhecer e dar a “consumir”, será pois onde falamos do objecto enquanto objecto de consumo, do seu criador e do trabalho de promoção destes e parece ser aquela dimensão onde penso que mais coisas poderiam ter acontecido. Não que o objectivo primeiro deste trabalho tenha sido o de alcançar um produto de consumo imediato, mas não posso deixar de manifestar alguma da minha insatisfação, na medida em que terá sido difícil dar a conhecer aos outros o produto do meu trabalho.
É complicado encontrar formas de entrar nos poucos e muitas vezes diminutos espaços de apresentação e promoção para os trabalhos, quando não estamos directa ou indirectamente ligados às pessoas influentes que se movimentam nesses mesmos espaços. Vejamos por exemplo o caso de programas na televisão pública tidos como de carácter cultural (e sim, só posso mesmo falar de serviço público, uma vez que no caso de particulares, estes podem fazer as suas escolhas sem ter que prestar satisfações aos contribuintes) ou mesmo situações relativas à imprensa escrita, que recebem centenas de trabalhos discográficos todas as semanas e cujas pessoas responsáveis pela sua divulgação terão que realizar uma filtragem dos mesmos, mediante critérios, padrões e indicadores que muitas vezes não percebemos bem quais são. Acontece que muito provavelmente, ainda estou do lado daqueles que ficam sujeitos aos tão “mal fadados” critérios de exclusão!
Por fim, e numa terceira conjuntura de análise, tenho que referir as críticas e as opiniões daqueles que escolheram ouvir e/ou reflectir sobre o meu trabalho e que depois, de alguma forma, me fizeram chegar o seu sentir sobre o mesmo.
Lembro-me do José Fonseca e Costa e do seu tão assertivo texto de apresentação do CD, lembro-me da crítica da revista Blitz onde surge a ideia de um mais contemporâneo fadista, lembro-me da crítica que saiu na Grécia relativamente à minha interpretação da canção “To Tsigaro”, lembro-me das muitas pessoas que no final dos concertos vêm ter comigo e me perguntam porque é que nunca tinham ouvido falar do meu trabalho…

H: Recebeu o Prémio Amália Revelação 2006, como se sentiu e qual o significado que ainda hoje tem esse prémio?

DUARTE: Quando soube que iria receber o Prémio, o sentimento foi assim como o de ouvir alguém dizer: “Puto, para princípio de conversa não está mal… Agora vê se trabalhas, porque esta coisa de construir caminhos na arte em Portugal não é fácil!”.
Gosto de pensar que este prémio foi como que um marco inicial no meu caminho enquanto artista, quase uma cerimónia de iniciação se assim se quiser entender. Mas é claro que fiquei agradado e que de alguma forma foi gratificante para mim, não por objectivamente ter recebido o prémio, mas antes pelo reconhecimento subjectivo de outros relativamente à minha “entrada” num meio que até então me estava longe.

H: O facto do José Luís Gordo integrar o júri terá "ajudado" a ser distinguido, recordo que nesse ano do elenco do Senhor Vinho arrebataram os dois "grandes" prémios Maria da Fé e António Zambujo.

DUARTE: Agora que fala nisso, estava aqui a lembrar-me que por exemplo a Mariza, o Camané, a Ana Moura, o Jorge Fernando, o Dr. Machado Soares, a Aldina Duarte já foram (e alguns destes ainda são) fadistas residentes do Senhor Vinho e se não estou em erro, já terão sido também distinguidos com prémios Amália. Talvez um destes dias possamos vir a ter oficialmente instituídos os prémios Senhor Vinho, mas não me parece que tenha sido nesta situação!!! Já tenho ouvido falar em “lobbies” no fado, mas sinceramente, não me quer parecer que estes andem pelo Sr. Vinho!!! [Risos]
Por outro lado, se bem me lembro, fizeram parte do júri cinco elementos, sendo que um desses cinco era realmente o José Luís Gordo. É-me difícil conceber ou acreditar (e aqui estamos a falar das minhas crenças) que um elemento de entre cinco possa ter anulado, condicionado ou influenciado decisões e opiniões dos restantes elementos do júri relativamente ao mérito do meu trabalho, no sentido de me ter sido atribuído o prémio revelação.
Brincadeiras à parte, talvez possa ser interessante, a partir dos vários artistas que já passaram pelo espaço Senhor Vinho, pensar nos contributos desse mesmo espaço para a consolidação do trabalho desses artistas. Falamos sem dúvidas de um lugar por excelência da formação artística, relativamente à qualidade das interpretações, à escolha do reportório, das composições, das letras… Nesta “escola” os artistas/alunos parecem trabalhar no sentido de obter uma consolidação dos conhecimentos face às suas potencialidades e limitações, para que com esses mesmos conhecimentos possam definir o mais autenticamente possível os seus caminhos.
H: Numa altura em que o fado é planetário e fez um CD tão contemporâneo o que ainda não aconteceu para ser reconhecido como um valor a contar para o futuro do fado?
DUARTE: Desde já o meu obrigado pela caracterização do meu trabalho enquanto contemporâneo. Quanto à sua questão do que ainda não aconteceu… Está sempre tanta coisa a acontecer e há sempre tanta coisa por acontecer, que relativamente aos porquês de um não reconhecimento enquanto valor de futuro, o que posso dizer é que não me parece fazer muito sentido neste momento ter que estar preocupado com esse reconhecimento. Acredito que se o meu trabalho continuar pelo caminho da entrega genuína e autentica no meu canto, vou conseguir que cada vez mais pessoas possam conhecê-lo, manifestando-se consequentemente as suas formas de o sentirem, sejam estas boas ou menos boas.
Vendo bem, isto começou tudo há tão pouco tempo… Quem sou eu para ter que estar preocupado em assegurar o futuro de uma coisa que é muito maior que qualquer uma das suas partes (falo neste contexto do Fado)? E não podemos esquecer que este é um caminho possível… O meu caminho, a minha construção… Uma construção como qualquer outra… Que se vai fazendo com tempo e com escolhas o mais assertivas quanto possível. Por outro lado, o reconhecimento só pode acontecer depois de um conhecimento. E depois surgem-me aqui algumas questões que se prendem com as instâncias ou as pessoas que poderão fazer esse trabalho de reconhecimento e atribuição de valor: Quais serão as mais válidas? Quais serão aquelas que devemos filtrar ou até mesmo esquecer? Quem cria essas instâncias? Quem é mais ou menos capaz de avaliar ou atribuir um valor? Porque faz alguém tal trabalho? Ao reconhecimento prefiro sem dúvida o conhecimento.
H: A "raebetika" e o fado têm pontos de aproximação? E quais?
DUARTE: De um modo geral, toda a música parece ter pontos que se podem definir como de aproximação. Assim como duas pessoas que dançam, sem que nenhuma delas tenha que perder a sua identidade, dois universos musicais distintos também podem dançar. Não sou um entendido da música grega mas senti que, no breve contacto que tive com esta, a força da palavra, a importância do ritual, a carga simbólica e a entrega nas interpretações poderiam ser pontos de aproximação entre a “raebetika” e o fado.

H: Como foi o trabalho com a compositora grega e como se deu por terras helénicas; vai voltar?

DUARTE: Quanto ao trabalho com a compositora Evanthia Reboutsika e a cantora Elly Paspala, este começou num convite que em muito me honrou, por parte desta tão brilhante compositora que, depois de descobrir o meu trabalho via internet, decidiu convidar-me para, com o seu ensemble e a cantora Elly Paspala, prepararmos uma temporada de 12 espectáculos no Polis Theatre em Atenas durante os meses de Novembro e Dezembro de 2007. Foram espectáculos onde as músicas e os músicos se cruzaram naturalmente, sem que a raiz musical de cada um fosse posta em causa ou se anulasse. Por entre algumas traduções, adaptações e recriações de músicas gregas, também tive comigo nos meus fados, outros músicos e cantores gregos que se deliciaram com a nossa música portuguesa.
Foi sem dúvida uma das experiências mais enriquecedoras que tive até então para a minha música. O viver de Atenas, o descobrir da música grega, o valor que os gregos dão à sua cultura, os amigos com quem ainda hoje vou falando e que ficaram por lá, foram coisas que me marcaram e me fizeram crescer.
Posso confidenciar que senti algumas vezes mais apoio e valor face ao meu trabalho na Grécia do que em Portugal. As pessoas que não conheciam o meu trabalho de lado algum, passados alguns dias de concertos, entrevistas várias, programas de televisão e rádio já comentavam e criticavam a minha música.
Quanto à questão que me faz sobre a possibilidade de voltar, eu já voltei. Depois da temporada de concertos em Atenas durante o Inverno de 2007, no Verão de 2008 fui convidado para participar com a Evanthia e a Elly num Festival de Música na ilha de Kios.
Gostaria muito de poder retribuir o convite, bem como a hospitalidade que tive por lá, sendo que agora em Portugal, mas não me parece que seja fácil entrar no circuito dos festivais em Portugal…

H: Vai repetir a experiência com esta compositora ou com outro músico?

DUARTE: Neste momento não tenho nada projectado ou idealizado, mas estou receptivo para esta ou outras partilhas que me façam sentido. Fazer só por fazer não me iria saber bem com certeza, se tiver que ser, como em qualquer relação, terá que ser construído e terá que fazer sentido.

H: Para si, o fado é um caminho musical de futuro, ou um caminho para uma outra música?

DUARTE: Para mim o fado é muito mais que só um caminho de futuro. O (s) fado (s) são muitos caminhos. Gosto de pensar no fado como um universo do qual eu participo e para o qual tento contribuir com a minha modesta e pequena parcela. Sinceramente, não estou muito preocupado para onde vamos, desde que respeitemos o tão valioso legado que nos foi deixado por tantos e tão bons fadistas e músicos que já tivemos e continuamos a ter.

H: Choramos ainda o fado porque afinal os sentimentos são os mesmos (eu aqui devo dizer que reconheço modernidade no que escreve)?

DUARTE: Nós choramos porque somos pessoas e porque sempre chorámos… Choramos e crescemos também porque temos medo. O nosso espaço emocional é infinito e como tal vai estar sempre presente, sendo que por outro lado, o nosso tempo, sendo narrativo é que pode ir mudando. A questão não está no que sentimos, mas antes na forma que encontramos para contar isso. Defendo que o destino ou os destinos sempre foram e continuarão a ser contados e cantados, num tempo e por uma narrativa contextualizadora dos mesmos.

H: Quais os próximos espectáculos e projectos?

DUARTE: Vamos ver se um destes dias temos uma grande sala em Lisboa… Entretanto vou trabalhando para um novo disco. Ler, escrever, compor, vou também fazendo alguns concertos… Continuar “devagarinho e em passo certo” como dizem os velhos da minha terra.

H: Fado ou psicologia? Acha que vai conseguir o equilíbrio, alcançando o sucesso no meio fadista que se mostra tão competitivo?

DUARTE: A minha procura não é uma procura do sucesso enquanto conceito ligado à mediatização ou popularidade, mas antes uma procura do prazer pela criação. Interessa-me contar e cantar a vida, bem como aquilo que nela vamos fazendo todos os dias… É claro que se tiver sucesso (e não vou ser hipócrita ao ponto de afirmar que não penso neste como sendo algo que surge pelo bom desempenho nas coisas que nos propomos a fazer) este vai ser uma consequência e não uma finalidade no meu caminho. Não sinto portanto neste momento que tenha de escolher entre o fado e a psicologia, uma vez que escolhidos estão os dois. Tenho antes que continuar a trabalhar no sentido de ter prazer nestas duas áreas, que em muitas situações se podem mesmo complementar.
Quer-me parecer por outro lado, que o meio fadista de que falou não é mais nem menos competitivo que qualquer outro meio artístico ou profissional. É o que é! Não estou aqui numa corrida com ninguém… Não estou aqui numa batalha contra alguém… Eu só quero continuar a ter a possibilidade de fazer as minhas coisas, de cantar as minhas coisas, aproveitando ao máximo as partes boas que vou encontrando no caminho.

H: Quais as suas referências fadistas, em termos de intérpretes? Ou outras?

DUARTE: Não me sabe nada bem ter que fazer a distinção entre referências fadistas e outras. Sem pensar muito nisso… Jorge Palma, Fausto, José Mário Branco, Jim Morrison, Chico Buarque, Sérgio Godinho, Vitorino e Janita Salomé, Amália, Carlos do Carmo, Carlos Paredes, João Ferreira Rosa, Maria da Fé, Alfredo Marceneiro, Carlos Zel… Vão ficar uns tantos por referir!

H: Trabalhar com a Maria da Fé torna-o mais exigente de si próprio, qual a influência da grande fadista no seu trabalho?

DUARTE: Mais que poder trabalhar com a Maria da Fé, importa o poder estar, o poder crescer, o poder aprender e o poder ouvir. Sem dúvida que com a Maria da Fé me tornei mais exigente relativamente ao meu trabalho, sem dúvida que com a Maria da Fé me tornei mais capaz no domínio e na prática do meu trabalho.
Foi a Maria da Fé quem me recebeu e me foi tentando perceber em Lisboa, foi no Senhor Vinho que fui crescendo… Tenho hoje na Maria da Fé bem mais que uma grande referência, bem mais que uma “tutora” do meu trabalho. Tenho hoje com a Maria da Fé a certeza de uma amizade que foi crescendo na partilha de conversas e experiências que guardo como se de uma obra de arte única se tratasse.

H: Quando canta, quais as suas preocupações?

DUARTE: As minhas preocupações não o são quando canto… Provavelmente estão no que canto e espero sinceramente que continuem por lá. Cantar para mim nunca foi estar preocupado, embora haja muitas preocupações nas coisas que vou cantando… Seria bom se todos nós pudéssemos cada vez mais pro activamente relançar as preocupações destes nossos dias!

H: Como escolhe um fado, uma letra?

DUARTE: Comigo nunca foi uma escolha imediata, forçosamente consciente ou completamente racional, mas antes um processo construtivo e progressivo no meu tempo e no meu espaço. Já me aconteceu surgirem primeiro as letras, já me aconteceu chegarem primeiro as melodias, já me aconteceu também dispararem as duas em simultâneo. Contudo, a coisa parece ter o seu princípio na vontade de se pintar um quadro, sendo que depois vamos traçando as primeiras linhas (musicais e/ou de escrita) que nos permitem sustentar a história que queremos contar. A seguir vamos cantando para dar cor, até sentirmos que já se aprendeu… E voltamos a tentar… E voltamos a aprender… E riscamos… E arriscamos… E voltamos a escrever… Portanto, muitas vezes o quadro já é outro… E outras tantas vezes desistimos, ganhando balanço para tentar de novo. É um bocadinho como arrumar a casa!!!

H: Quando o ouviremos em Lisboa, num grande espectáculo? Por exemplo no Jardim do S. Luiz...

DUARTE: Por mim e caso assim fosse possível, era já hoje!!! Muito embora também sinta que os grandes espectáculos não o são pelas salas, mas antes pela qualidade das construções artísticas, que podem ter lugar tanto em salas de pequena como de grande dimensão.
Contudo, já foram realizadas algumas tentativas nesse sentido e ficou na maioria das vezes aquela sensação de que os senhores que programam os eventos ou que produzem os espectáculos desses espaços não parecem ainda conceber essa possibilidade.
fonte ~ hardmusica