10 de outubro de 2010

"Achava que nunca iria cantar, que não tinha jeito nenhum. Em miúdo era fanhoso"

Foi aconselhado a fazer uma operação ao nariz e lutou contra a dependência de drogas. Hoje, é um dos maiores nomes do fado e tem novo disco: "Do Amor e dos Dias".

Geralmente tímido, Camané - Carlos Manuel Moutinho - não fez juz à fama e falou sobre tudo, enquanto desfazia uma pastilha nos dedos (que mais tarde pediu permissão para comer, Camané é um cavalheiro). A infância, o fado, a droga e os medos que ainda hoje sente. O novo álbum chama-se "Do Amor e dos Dias" e é apresentado ao público dia 7 de Outubro, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa. Disponível nas lojas a partir de segunda-feira, o fadista garante que este é um trabalho diferente de tudo o que já fez. Mas não se assuste: continua a ser fado do bom, com produção e direcção musical de José Mário Branco.

É um dos poucos fadistas homens de sucesso, com álbuns muito aguardados. Qual é o segredo?
Nunca na vida a palavra sucesso me passou pela cabeça. Tenho sempre um bocado de pudor da palavra, em relação ao que faço. Tenho tido alguma sorte, de uma forma contrária ao mercado. Quando se vendiam muitos discos em Portugal eu não vendia nada e agora que se vende menos, o mercado é mais reduzido, eu vendo mais. Tem a ver com o público que fui ganhando. As pessoas foram-me acompanhando e falando às outras. O meu primeiro disco de platina foi o anterior. Desde o primeiro disco já lá vão 16 anos. O segredo: fazer aquilo que acredito e de uma forma verdadeira.

José Mário Branco, enquanto produtor, tem um papel importante nesta matéria. É um homem exigente?
Somos os dois. Sou muito exigente, autocrítico, tenho imensa dificuldade em ouvir-me sem olhar para os defeitos. Só ouço os meus discos quando são feitos, durante bastante tempo, para me familiarizar. O Zé Mário percebeu logo a minha forma de estar no fado e criámos um ambiente musical que é para mim importantíssimo. Para este disco ele compôs um fado tradicional a que chamou fado Pombal, que tem uma terminação mais coimbrã e outra parte mais lisboeta. Ficou Pombal porque está ali a meio caminho. A forma como comunicamos no estúdio é cada vez com menos palavras. Isso para mim é óptimo, é fundamental.

Em digressão, fica com vontade de voltar a estúdio, para esse ambiente?
Quando acaba é um alívio. Este disco foi muito difícil para mim. Porque... sei lá, deixei de fumar, passei momentos extremamente difíceis. Mas consegui surpreender-me mais uma vez. Não me lembro nunca de ter tido um disco fácil. Já o disco anterior tinha sido difícil. Até os espectáculos, porque há momentos de grande aflição, medo e sofrimento. É como a vida. Para mim, cantar, é como a vida. Faz parte e acontece tudo.

Mas é difícil subir a um palco?
Era difícil nas casas de fado e é difícil no palco. Ficava muito nervoso, muito tímido, muito inseguro. Começava a cantar e na minha cabeça começava a pedir a ajuda e a pensar: "Não vou conseguir." A minha vontade era desaparecer. O que é certo é que aos poucos fui conseguindo. Hoje lido melhor com isso. Lembro-me de às vezes entrar no palco e não saber nada, ter uma branca enorme. É a coisa mais assustadora. Agora tenho uma espécie de estante, em palco, onde estão as letras. Acho que em 95% do tempo não olho para ela, mas vou espreitando o alinhamento e tal. É uma defesa.

Este disco é muito diferente dos anteriores.
Completamente diferente de tudo o que já fiz. Tem raiva, ironia, amor, ódio, coisas do dia-a-dia, do quotidiano. É um disco muito mais descritivo e muito menos introspectivo. É como um diálogo. Sempre achei que seria mais fácil para mim cantar fados mais introspectivos, falar de sentimentos. Neste disco tive de falar de ódio, de raiva de uma forma irónica e fui obrigado a sair de mim, a ter graça e uma certa ironia que se calhar há dez anos não tinha.

Até a capa deste álbum é diferente. Teve alguma influência na decisão?
Eu disse que não queria aparecer nesta capa. No disco que saiu há dois anos, que foi muito badalado, estava na capa. Depois pensei: vai sair este disco e quem é que vai ouvir? Tivemos de arranjar uma forma de interessar as pessoas por este. Como é completamente diferente dos outros, é preciso que isso seja sentido a todos os níveis. Isto foi tudo feito num painel grande, tudo posto aos bocados, com papéis rasgados a formar aminha cara. Foi tudo desconstruído e construído. Esta ideia foi uma espécie de consenso entre estar na capa e não estar.

Viveu muito na noite, no início da carreira? E hoje, continua?
Era até tardíssimo. Durante muitos anos vivi a deitar-me às 4h, 5h da manhã. Era uma vida muito boémia. Quando estava nas casas de fado havia noites em que cantava em três, quatro casas na mesma noite, três fados em cada. Era uma loucura. Mas mudei essa vida, completamente. Hoje saio só às vezes com amigos, ou depois dos meus concertos, um bocadinho. Outras vezes vou aos fados, mas raramente. E, durante a semana, fico em casa a ler, ouvir música, a ver filmes. Já não tenho aquela necessidade.

Na altura teve problemas de droga.
Tive. Depois também tive um processo longo de recuperação, que ainda se mantém, não é? Procurei sempre que não afectasse o meu trabalho, quando começou a afectar... acho que o fado me salvou disso. Eu sabia que para fazer uma carreira, para crescer artisticamente e como pessoa, a minha personalidade tinha que acompanhar a minha arte. Foi um processo de escolha. Com a ajuda de muitos amigos e pessoas que tiveram o mesmo problema, consegui ultrapassar.

Durante quanto tempo viveu assim?
Dez anos. Era tudo: álcool, comprimidos, tudo. Tudo o que pudesse alterar. Eu tinha que viver sentindo o menos possível. Era tudo muito difícil. Tinha medo, medo de crescer, de uma série de coisas. Hoje continuo com muitos medos mas aprendi a lidar com isso, a viver com os meus fantasmas. Acho que isso fez de mim uma pessoa melhor. Se tivesse continuado teria sido uma pessoa pior e seria uma pena. Toda a gente devia ter esta oportunidade, ou querer ter. Isto tem a ver com... é que é tão difícil, não é?

Ouve fado desde miúdo?
Sim, o meu bisavô e avô cantavam fado, o meu pai trauteava fados em casa, que era uma coisa que me irritava muito. Depois passei a fazer o mesmo. Aos sete anos fiquei doente em casa, durante um mês, com hepatite. Não conseguia estar quieto e a música acalmava-me. Os meus pais tinham muitos discos, quase todos de fado, menos três: Aznavour, Beatles e Sinatra. Ouvia tudo compulsivamente, incluindo os de fado e assimilei aquilo tudo.

Mas como é que uma criança de sete anos absorve isso tudo?
Naquela altura lembrava-me muito mais daqueles fados tradicionais do que me lembro agora. Os meus pais levavam-me às colectividades aos fins-de-semana, às matinés de fado ao domingo, onde havia poetas populares para eu ouvir. Eram poemas a falar do pai, da mãe, da escola, e eu pegava nisso e construía os meus próprios fados. Já fazia o que todos os fadistas fazem: o revisitar dos fados tradicionais.

Foi aí que começou a cantar?
Depois aquilo ficou tudo na minha memória, porque o fado tem uma certa lógica. Por causa das repetições era fácil decora. Um dia cantei para um amigo do meu pai, o Joaquim Valente, fadista amador, que passou a ser o meu padrinho do fado. Foi ele que me levou à casa de fados Cesária, onde cantei pela primeira vez. Tinha 8 anos e as pessoas adoraram, os meus pais nem estavam à espera que eu cantasse. Mas gostaram imenso. Cantei só dois fados: o fado Isabel, que é tradicional, com música do Fontes Rocha e letra de Jorge Rosa, e o "Puxa Avante" um fado tradicional com letra de um poeta popular a falar da mãe, aquelas coisas um bocado pirosas.

E a partir daí decidiu que era o que iria fazer?
Até aí achava que nunca ia cantar, que não tinha jeito nenhum. Tinha estado no Coro de Santo Amaro de Oeiras e aquilo não funcionava, tinha uma voz estranha... Sempre fui um bocadinho fanhoso, quando era miúdo. Mais tarde lembro-me que num programa de televisão, um senhor ligado às lides da música, disse-me que se quisesse continuar a cantar tinha de fazer uma operação. Um tipo aí... que não vou dizer o nome, ligado a editoras e tal. Mas eu sabia perfeitamente que ia cantar, ele é que tinha um problema nos ouvidos.

Foi nessa altura que concorreu à grande noite do fado? Como foi ?
A primeira vez foi em 1977, tinha 10 anos e fui considerado pela imprensa a grande revelação do ano. Depois voltei aos 12 anos. Aquilo era onde se encontravam todos os cantores, artistas e locutores portugueses. Começava às 22h e acabava às 10h. Era engraçado para mim ver as pessoas todas da televisão a cantar, como a Amália... Vê-los ao vivo, o mais engraçado era isso.

A partir daí foi sempre a cantar?
Em miúdo, gravei quatro singles e um LP. Estudava e cantava aos fins de semana. Depois parei de cantar porque tive a transição de voz, e só recomecei aos 17 anos. Foi aí que fui para as casas de fado. Parei de estudar no final do 9º ano, e pronto. Tudo o que aprendi depois foi para dignificar o meu trabalho. Comecei a ler poesia, a interessar-me por poesia clássica porque achava que podia cantar fados tradicionais, já tinha visto outros fadistas fazê-lo e fui aprendendo ao contrário.

O fado não acabou por desviá-lo de uma infância ou adolescência mais normal? O que é que os seus amigos diziam?
Não dizia aos meus amigos que cantava fado, a maior parte deles não sabia. Uma vez contei a uma professora e ela gozou comigo. Na altura o fado era considerado piroso. Era normal talvez na Mouraria ou Alfama, em Oeiras não. Os meus amigos não ouviam fado, nem nada. Mas acreditei sempre no fado, até porque apesar de ter coisas que não eram muito boas, tinha outras de uma qualidade extrema, como Amália, Carlos do Carmo, Maria Teresa de Noronha, intérpretes incríveis.

Como é que um miúdo de 17 anos, nessa situação, foi sempre acreditando?
Nunca duvidei do que queria. Houve uma altura em que surgiu um convite para gravar fados muito... foleiros, mas que supostamente seriam os que vendiam. Lembro-me que fui à editora, disse que sim a tudo mas depois nunca mais lá pus os pés. Fugi com toda a alma e graças a Deus não gravei aquelas coisas.

Há muita rivalidade no fado?
Há, mas é saudável, depende da forma como lid amos com ela. Eu sempre fiz o meu trabalho sem olhar para o lado e sem competir. Mas também há camaradagem, é engraçado. Se alguém estiver mal toda a gente ajuda. Tenho amigos que trabalham noutras áreas e é a mesma coisa, às vezes pior. A forma como me relaciono com os meus colegas é saudável e acho que não tenho muita rivalidade. Mas têm em relação a mim, e é óptimo sentir que existe essa rivalidade. Gosto tanto quando eles ficam chateados com o meu trabalho!

E com os seus irmãos, que também cantam?
Não! Somos irmãos. Quando era miúdo cantava para eles lá em casa, antes de dormir. Nessa altura eu cantava fados à noite e eles ficavam assim [abre muito os olhos]. O Pedro cantava num coro, depois nos Ministars, era lá dessas coisas e depois começou também a cantar fado. O Hélder começou tarde, também. Começou por ter uma produtora e por ser manager de uma série de fadistas. Mas como tinha trabalhado à noite no Senhor Vinho [restaurante e casa de fados na Lapa, em Lisboa], depois começou a cantar.

E é homem de ir a concertos?
Vou a muitos concertos. Ainda hoje estive a dizer que quero ir ao dos Walkmen. Também quero ver os Vampire Weekend. Fui ver o Prince, sou fã dele, gosto de muita coisa. Sempre que posso vou ver concertos.

Tocou no Sudoeste, com os Humanos. Como foi fazer parte daquele projecto?
Foi um trabalho quase de arqueologia, que aquilo estava gravado em várias cassetes. Foi um trabalho que adorei fazer, adorei a trabalhar com eles todos. Deu-me um prazer enorme cantar aquelas canções inéditas do António Variações. Achei fantástico, cantei para 60 mil pessoas, coisa que nunca tinha acontecido na minha vida. Era o único de fato, o único que não dançava e que cantava fado! Foi muito divertido.
fonte ~ i

Carlos do Carmo e Bernardo Sassetti assinam disco inédito

Carlos do Carmo e Bernardo Sassetti juntos num disco inédito de voz e piano. Este é o mote para um álbum que chega ao mercado no mês de Novembro.

Não é um disco de fado. Não é um disco de jazz. É uma fusão entre as personalidades musicais de Carlos do Carmo e Bernardo Sassetti. Um reportório único traçado entre clássicos da música portuguesa e temas eternos do cancioneiro internacional. A engenharia de som ficou a cargo de Tó Pinheiro da Silva num disco gravado sem “rede”.

A escolha de Carlos do Carmo, debatida com Bernardo Sassetti, fez sentido para ambos. Músicas nunca antes cantadas, tocadas ou gravadas por nenhum dos intervenientes. José Afonso, Sérgio Godinho, Fausto e Rui Veloso foram os compositores nacionais escolhidos. Violeta Parra, Léo Ferré e Jacques Brel surgem revisitados neste encontro inédito. Pelo meio, um original de Bernardo Sassetti com poema original de Mário Cláudio, um tradicional açoreano («Sol») e «Talvez por acaso», fruto de uma parceria de Manuela de Freitas e Carlos Manuel Proença.

Carlos do Carmo e Bernardo Sassetti já se tinham encontrado em palco em variadíssimas ocasiões, sempre com um grande mútuo prazer, e para este disco só precisaram de meia dúzia de ensaios. Depois foram directos para estúdio (Boom Studios, em Vila Nova de Gaia). A engenharia de som a cargo de Tó Pinheiro da Silva num disco gravado sem “rede”.

As edições disponíveis apresentam ainda documentário realizado por Aurélio Vasques. Este especial apresenta momentos íntimos de estúdio assim como takes de gravações do disco, bem como o making of.

O fado que virou fada

Mafalda Arnauth deixa os originais e vai buscar a alma e a raiz do fado, num novo disco ao qual chamou Fadas. Ao Destak explicou que é uma homenagem às fadistas, ao fado e à sua magia.

Este título é um trocadilho com fados ou remete só para o universo feminino?

Acaba por ser um trocadilho, mas o principal é o realce às almas fadistas e à ideia de magia que imprimem na minha vida, com as histórias e as músicas, que fizeram parte do meu crescimento enquanto pessoa e artista. Tenho vindo a compor discos de originais e finalmente revelo onde me fui inspirar há muitos anos.

É quase uma biografia contada através dos fados?

É revelar a história que há por detrás de cada um. É sempre actual, sabe-me bem e não me leva para um saudosismo excessivo. É um regresso à nossa herança. E tinha saudades de cantar estas coisas.

Foi a Mafalda que os escolheu?

A 1.ª grande selecção foi sugerida por Hélder Moutinho, e pelo próprio Luís Pontes, que faz a maior parte dos arranjos. Mas os temas que gravámos e ficaram acabaram por se impor por si próprios.

Houve temas que escolheu por eles próprios e outros pelas fadistas que os cantavam?

Escolhi uns pelo tema em si e outros pela fadista. Acho que o caso mais declarado que escolhi pela mulher foi o tema da Celeste Rodrigues, Vira da Minha Rua. A Celeste tem uma forma gentil de cantar e de estar. É uma verdadeira fada, pequenina e flutua nas palavras e nos espaços e torna-se muito grande. E alegria daquele tema era absolutamente contagiante.

Quais são as mulheres deste disco que a marcaram mais?

Quando falamos de mulheres trata-se de Amália Rodrigues, Hermínia Silva, Fernanda Baptista, Celeste Rodrigues e Beatriz da Conceição. Agora, quando entramos no universo das almas não posso ignorar os músicos que entraram neste disco, que fizeram um trabalho excepcional, o Tiago Torres da Silva que compôs um dos melhores originais de sempre para mim (E Se Não For Fado) e o Francis Hime que é um privilégio ter como compositor de uma das músicas. Também há duas almas que são Eladia Blásquez e Astor Piazolla, em Invierno Porteño. Parecendo um corpo estranho num disco destes, há qualquer coisa de fado na raíz do tango. Gosto de ir descobrir esses fados escondidos.

fonte ~ destak

8 de outubro de 2010

Escola de Música do GEFAC

Estão abertas as aulas para a escola de música do GEFAC, em Coimbra.
As aulas são dadas durante as tarde dos dias úteis de Outubro a Julho.
Os instrumentos leccionados são: cavaquinho, viola barguesa, concertina, gaita-de-foles, guitarra, bandolim, flauta e percussão. Os mestres da aulas são Alexandre Barros (Quarto Minguante) e Amadeu Magalhães (Realejo), que darão as aulas de forma individual a cada aluno.
Contactar o Gefac através do e-mail: gefac.uc@gmail.com ou coordenador da Escola de Música Dominic Cross tlm 965849714

28 de setembro de 2010

26 de setembro de 2010

Balltoque: Pandeireta Galega | Lisboa

BALLTOQUE
- workshops de música tradicional

"Pandeireta Galega"
por Sara Vidal (Luar na Lubre)

Domingos, 15 em 15 dias
Iniciados: 16h-17h
Intermédios:17h-18h
- Fabrica do Braço de Prata
Rua da Fábrica do Material de Guerra, nº 1, lisboa

Início a 10 Outubro 2010
Preço: 15 balls (Mensalidade)

Formas de Pagamento: No início de cada mês
inscrição aqui!

Balltoque: Concertina | Lisboa

BALLTOQUE
- workshops de música tradicional

"Concertina"
por Eva Parmenter (Caravana)

Terças, 19H45 às 21H15
- Casa da Comarca da Sertã
rua da madalena, 171 3º, lisboa

Ínicio a 12 Outubro 2010 (8 meses)
Nível Iniciado
Nº Alunos: min 3, max 5

Preço: 45 balls (Mensalidade)
Formas de Pagamento:
Totalidade: 325 balls
Cheques: 360 balls

inscrição aqui!

20 de setembro de 2010

Hermínia da Silva : Fado da Sina

Reza-te a sina, nas linhas traçadas, na palma da mão
Que duas vidas, se encontram cruzadas, no teu coração
Sinal de amargura, e dor e tortura, de esperança perdida
Indício marcado, de amor destroçado, na linha da vida

E mais te reza, na linha do amor, que terás de sofrer
O desencanto, ou breve dispor, de uma outra mulher
Já que a má sorte assim quis, a tua sina te diz
Que até morrer, terás de ser, sempre infeliz

Não podes fugir
Ao negro fado brutal
Ao teu destino fatal
Que uma má estrela domina
Tu podes mentir
Às leis do teu coração
Mas, ai, quer queiras, quer não
Tens de cumprir a tua sina

Cruzando a estrada, da linha da vida, traçada na mão
Tens uma cruz, afeição mal contida no teu coração
Amor que em segredo, nasceu quase a medo, pra teu sofrimento
E foi essa imagem, a grata miragem do teu pensamento

E mais ainda te reza o destino que tens de amargar
Que tua estrela, de brilho divino, deixou de brilhar
Estrela que Deus te marcou, mas que tão pouco brilhou
E cuja luz, aos pés da cruz, já se apagou

Amadeu do Vale

O dia em que Hermínia Silva levou um apalpão em palco

Há atrações literalmente fatais e que podem terminar numa grande confusão. Que o digam a fadista Hermínia Silva , o forcado e o estivador... ora venham daí saber porquê.

Anos 60, restaurante "Solar da Hermínia". Tal como o nome indica, esta casa de fados pertencia à saudosa Hermínia Silva (que em relação ao povo deve ter sido mais acarinhada do que a própria Amália), essa grande fadista popular, do cinema, da revista... enfim, se isto fosse medicina ela teria sido uma fabulosa médica de clínica geral. Percebia de tudo.

Numa noite ela ficou sem guitarrista e não conseguia encontrar ninguém que estivesse livre. Como último recurso, lembrou-se de um tipo que era o "Joaquim Alemão", um estivador que tocava só aos fins de semana. Era o género de guitarrista do desenrasque.

A Hermínia tinha por mania ensaiar o reportório com os guitarristas novos na cave e nesse dia cumpriu a tradição. O Joaquim tinha uma adoração secreta por ela e quando a viu já toda meio produzida engoliu em seco e manteve a calma enquanto ensaiava. Para que não restem dúvidas: A Hermínia era um verdadeiro mulherão, muito vistosa.

Com o vestido justinho, parecia uma viola...

No início da noite começaram os fados e ela era a última a cantar. Quando apareceu com um vestido justinho... parecia uma viola, com as curvas todas acentuadas. Pôs-se à frente do "Alemão", virada para o público, pronta para cantar. Ele começou a tocar, enquanto olhava insistentemente para o rabo dela. Ao fim de uns acordes não resistiu, deu-lhe um palmadão no rabo e disse: "Ah fazenda!".

O marido da Hermínia, que era o Guerreiro, forcado em Benavente, não foi de modas: Saltou da mesa e atirou-se ao guitarrista. A noite de fados acabou por ali, com um verdadeiro duelo entre um forcado e um estivador. Escusado será dizer que o Joaquim teve de meter a viola no saco e sair dali mal conseguiu.
Vital d'Assunção
fonte ~ expresso

16 de setembro de 2010

As Lisboas de Marco Rodrigues

O fadista defende “um fado imediato e ao pulsar do quotidiano” o que, segundo disse à Lusa "se reflecte neste álbum" que é editado dia 13.
Os temas da actualidade “indo ao encontro do fado como crónica do quotidiano” pautam o novo disco acentuadamente tradicional e em que escapam a este alinhamento “Valsa das paixões” (T. Torres da Silva/Tiago Machado) que interpreta com Mafalda Arnauth e “A cor do céu em mim", explicou o fadista.
“Homem do Saldanha” fala de um idoso que marca as noites entre o Saldanha e Picoas acenando a quem passa. Este é um dos temas “retintamente quotidianos” e tem letra de Boss AC que se estreia nas lides fadistas e assina ainda “Ninguém vê”, com música de Nando Araújo e Tiago Machado.
Para cantar este fado, Marco convidou Carlos do Carmo que apresentou como “um amigo, um conselheiro”.
“Passo algumas horas em sua casa para o ouvir e tentar aprender”, acrescentou.
Tiago Machado, autor de temas como “Ó gente da minha terra” e “Os anéis do meu cabelo”, assina também a música de “Homem do Saldanha” e garante a produção executiva com Tiago Palma.
“O Tiago [Machado] é um amigo e a ideia deste álbum surgiu no Festival da RTP onde defendi uma canção dele e da Inês Pedrosa [“Em água e sal”] que com um arranjo mais sóbrio integra este CD”, disse o fadista.
“Ao longo do álbum fomos trocando impressões e os temas foram surgindo. Para mim os fados têm uma urgência que implica experimentá-los logo, não se podem guardar”, argumentou.
Contrariando este argumento surge no álbum, “A cor do céu em mim” (Ernesto Leite) que estava na gaveta “mas o Tiago Machado encontrou onde lhe colocar umas cordas e gravámos”.
Referindo-se a “Água em sal”, Marco Rodrigues afirmou que “tem uma matriz de portugalidade que é quase um fado”.
“Por outro lado, a minha interpretação dá-lhe o carisma fadista”, disse entre risos.
Tiago Torres da Silva, poeta que lhe foi apresentado por Mafalda Arnauth, é o autor de quatro temas, um deles composto para uma junção de cinco fados tradicionais.
Intitulado “Rapsódia do fado que ninguém quer” integra com arranjos de Tiago Machado os fados tradicionais Alvito, Georgino, Pedro Rodrigues, Sem Pernas, e o Corrido Manuel de Almeida.
Marco Rodrigues assina os fados “O Inverno do fado” e “Onde vou”, ambos com letras de Miguel Martins, autor que incluiu já no anterior álbum.
Marco Rodrigues toca viola há seis anos e acompanha-se em quatro temas, nos restantes o instrumento é garantido por Carlos Manuel Proença.
Do grupo de músicos constam ainda José Manuel Neto na guitarra portuguesa em 11 temas, no 12.º o guitarra é Luís Guerreiro, e o baixo acústico Yami num tema apenas.
Tiago Machado garante harmónica num tema e piano em dois outros, sendo ainda de referir Sertório Calado (percussões), Bárbara Duarte Barbosa e Jeremy Lake (violoncelo), Jorge Teixeira (viola de arco) e os violinistas Vasco Broco e Pedro Pacheco.
fonte ~ hardmusica