16 de maio de 2010
O fado tem uma nova história que só se canta em português
A história que se segue, apesar de improvável, é matéria de facto. José Alberto Sardinha, advogado de Torres Vedras, investigador da música tradicional há mais de 30 anos, deu por si em nova viagem entre Beiras, de gravador ligado, à espera de aumentar a sua colecção de recolhas musicais de um Portugal tradicional. "Pela enésima vez, escutava uma velhinha entre cantos do romanceiro e encontrava neles incríveis semelhanças com o fado." Corria o ano de 1988 e, 16 anos depois de se ter iniciado nas lides da descoberta musical, o investigador regressava a casa, recuperava gravações de outros anos e consultava boa parte da sua biblioteca etnográfica. "Foi uma epifania: e se o fado não fosse de outro mundo, se tivesse nascido no meio da nossa tradição oral?"A hipótese concretizou-se, pelas contas de José Alberto Sardinha, e fez-se livro. "A Origem do Fado" abandona teorias que fixam a génese do género entre África, Brasil e terras árabes e fixa-a no Portugal medieval. O autor diz "o que nunca foi antes publicado: que o fado nasceu da tradição oral, do substrato musical presente em todo o território português", fixando-se mais tarde em Lisboa com uma convicção que não se repetiu em qualquer outra parte. Os porquês de um estudo transformado em livro: "Porque, ao ter descoberto uma parcela importante da história da cultura portuguesa, achei que deveria ser revelada."
Recuemos nos arquivos de José Alberto Sardinha para que tudo pareça lógico - o próprio nos diz "estes temas têm de ter lógica". O estudante de Direito, nascido em Angola, chegou a Lisboa em 1960. Enquanto aprendiz na Faculdade de Direito integrou o Coro da Juventude Musical Portuguesa - "onde estavam também o actual secretário de Estado da Cultura, Elísio Summavielle, o Eduardo Paes Mamede, que faz música para teatro, o Luís Pedro Faro, maestro, o João Lisboa, crítico musical do 'Expresso', ou o José Manuel David, dos Gaiteiros de Lisboa". A orientação surgia pela mão do maestro Francisco d'Orey, que revelou ao futuro advogado o valor da recolha etnomusical. "Hoje posso dizer que tenho o maior arquivo do género em Portugal", graças a esforço e investimento: "Um dos primeiros gravadores que tive foi um Nagra4S Stereo. Custava dois mil euros."
O seu objecto de estudo primeiro sempre foi a "tradição rural". O fado não fazia parte deste catálogo, até à pergunta fundamental ter surgido no caminho: "Se o fado é uma música de tradição oral, inequivocamente, porque não compará-la com a restante herança musicada dessa mesma tradição?" A explicação, em linhas condensadas (que as mais de 500 páginas do livro servem para revelar os resultados do estudo de forma fundamentada), pedimo-la a José Alberto Sardinha: "O romanceiro é o herdeiro das canções de gesta, que celebrizavam os heróis de guerra. Foram provavelmente os primeiros cantos profanos, popularizados pelos jograis nas praças das localidades. Depois das epopeias, os cantos começaram a focar-se na história dos amantes dos nobres e daí chegaram à Rosinha costureira e ao caso de ciúmes da Isaura e do Manel." Pode parecer história de pouca monta para a canção portuguesa mais popular mas a narrativa continua.
Evolução Os romances eram interpretados por cantores ambulantes, "na maioria cegos, por terem melhor ouvido, memória e pela maior necessidade de dinheiro", à guitarra, acordeão ou violino. Vêm das aldeias para as cidades, concentram-se em Lisboa "porque é onde há mais gente e recantos para tocar as canções" e gera-se um hábito. A nobreza gosta, cria a moda e leva o fado das tabernas - "onde os cegos cantavam a troco de um prato de sopa ou um copo" - para os salões. Aqui chegamos ao conde Vimioso, que se apaixona por Maria Severa, lendária fadista, e tudo o resto é fama e glória. Do século XVI ao século XIX, com a tradição oral como motor.
"Ou seja, o tal substrato comum à tradição musical nacional diz que o fado existia em toda a parte antes de 'ser lisboeta', como hoje é entendido popularmente." O fado cantava-se nas aldeias de norte a sul, ainda hoje está nas vozes de quem se passeia entre as tabernas e os campos, mas não com o mediatismo de Lisboa. "Quando se tornou moda, chegou à revista. Recebeu influências e desmultiplicou-se em fórmulas e géneros, do fado marcha ao fado tango. Já prestou atenção à "Menina das Tranças Pretas? É um tango", afirma o autor. E o fado fez-se produto exportável.
E é neste fenómeno de popularidade que reside a polémica sobre as diferentes teorias da origem do fado. José Alberto Sardinha, convicto, assegura que "se o vira fosse tão famoso, seria objecto das mesmas divergências". Sobre outras teorias, o investigador diz que lhes falta "critério e objectividade, falta-lhes esta visão global do que é comum a todo o país. A etnografia, o folclore musical, presta-se muito a fantasias. Porque não há ninguém para reclamar, o autor não vai aparecer." Recusa as explicações que falam "de uma dança tornada canção vinda do Brasil, apesar de esta ser a origem das primeiras notícias oficiais sobre o fado". Ou as contaminações árabes ou africanas "ainda que existam semelhanças em géneros como a morna". A origem do fado está na vida rural, que em Lisboa "era também muito presente ainda durante boa parte do século XX. É essa a base comum, por isso a expressão musical era coesa por todo o país."
José Alberto Sardinha explica que a palavra fado, mais que destino, quer dizer "vida, desenlace, acontecimentos, vivências". E que antes de ser a música, é "a história, o poema, a narrativa" e que o original está na "tragédia de faca e alguidar". Espera contestação, diz-nos que "esta não é uma ciência exacta", mas é o resultado de uma "experiência musical concreta".
fonte ~ jornal i
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Notícias
O fado é o coração: o corpo, as emoções e a performance no Fado.
Ensaio de Paulo Valverde.
Em 1993, no quadro da preparação da exposição Fados, Vozes e Sombras, realizou-se no Museu Nacional de Etnologia um workshop sobre o fado. (...)Etnográfica, Vol. III (1), 1999, pp. 5-20.
Na altura da sua apresentação, o ensaio impressionou muito favoravelmente os participantes no workshop e Paulo Valverde tinha também com ele uma relação muito forte.
A presente versão data de 1995 e guarda parcialmente o tom oral de uma comunicação, não contendo também referências bibliográficas detalhadas.
Excepto pequenas emendas óbvias, a Comissão Editorial publica o texto tal como Paulo Valverde o deixou.
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Memórias
Ao fado tudo se canta?
Daniel Gouveia, fadista, compositor, letrista e escritor, apresenta-nos no seu livro "Ao Fado tudo se canta?" 40 anos de reflexões, conversas e investigações sobre o tema, que aprofundou ao longo de 5 anos de trabalho, incluindo, igualmente, 3 CDs com 190 exemplos musicais.Entre outras problemáticas sobre este género musical, destacam-se:
- Análise de todas as teorias actuais para as origens do Fado.
- Revelação e publicação de pautas com fados do séc. XIX e princípio do séc. XX (tocadas nos exemplos musicais).
- Propostas para definir as fases de evolução do Fado e dos fadistas.
- Análise dos procedimentos poéticos e de classificação dos fados Tradicionais e do Fado-Canção.
- O bem cantar e o mal cantar o Fado.
- Relações do Fado com o Tango, o Bolero e o Flamenco.
- Revelação de um plágio feito por compositores argentinos de Tango a «O Cochicho».
- Fado e Canção de Coimbra em paralelo.
O lançamento do livro será no Museu do Fado, em Lisboa, pelas 19 horas, no dia 19 de Maio.
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Notícias
4 de maio de 2010
Prémios Amália Rodrigues 2009
As fadistas Ada de Castro e Joana Costa, o pianista Bernardo Sassetti e a maestrina Joana Carneiro foram distinguidos na quinta edição dos Prémios Amália Rodrigues, cuja cerimónia decorrerá em Outubro em Lisboa, foi ontem anunciado.
Ada de Castro, de 72 anos, recebe o Prémio Carreira pelos 50 anos de vida artística dedicados ao fado, tendo contribuído para a sua aproximação às marchas populares.
O Prémio Revelação 2010 foi atribuído à fadista Joana Costa, que editou no final de 2008 o álbum de estreia, Recado. De acordo com o júri desta quinta edição, Joana Costa foi eleita por unanimidade a Artista Revelação por interpretar o fado tradicional com "segurança, clareza, compasso e entrega".
A celebrar dez anos de carreira, Kátia Guerreiro recebe o prémio de Melhor Fadista.
Já Ana Sofia Varela, que tinha sido distinguida em 2006 com prémio de Melhor Fadista, recebe agora o prémio de Melhor Álbum com Fados de Amor e Pecado.
Nesta quinta edição, a organização procurou alargar o universo dos artistas distinguidos para lá do fado, numa homenagem à carreira de Amália Rodrigues, que ultrapassou as fronteiras deste género. Assim, foi criado o Prémio Música Popular, que distingue o pianista e compositor Bernardo Sassetti "pela carreira exemplar", por ter conquistado novos públicos e por ter integrado o jazz no universo nacional. Em 2010 recupera-se ainda o Prémio Música Erudita e que este ano é entregue à maestrina Joana Carneiro.
Na área do Ensaio e Divulgação, o prémio é atribuído a Jean-François Chougnet, director artístico do Museu Berardo, pelo "magnífico catálogo da exposição Amália, Coração Independente, que apresenta novas perspectivas sobre a carreira da maior artista portuguesa", justifica o júri.
Custódio Castelo foi eleito o melhor instrumentista e Manuela de Freitas, que já escreveu para Carlos do Carmo e Camané, recebe o prémio Letrista/Compositor.
Ada de Castro, de 72 anos, recebe o Prémio Carreira pelos 50 anos de vida artística dedicados ao fado, tendo contribuído para a sua aproximação às marchas populares.
O Prémio Revelação 2010 foi atribuído à fadista Joana Costa, que editou no final de 2008 o álbum de estreia, Recado. De acordo com o júri desta quinta edição, Joana Costa foi eleita por unanimidade a Artista Revelação por interpretar o fado tradicional com "segurança, clareza, compasso e entrega".
A celebrar dez anos de carreira, Kátia Guerreiro recebe o prémio de Melhor Fadista.
Já Ana Sofia Varela, que tinha sido distinguida em 2006 com prémio de Melhor Fadista, recebe agora o prémio de Melhor Álbum com Fados de Amor e Pecado.
Nesta quinta edição, a organização procurou alargar o universo dos artistas distinguidos para lá do fado, numa homenagem à carreira de Amália Rodrigues, que ultrapassou as fronteiras deste género. Assim, foi criado o Prémio Música Popular, que distingue o pianista e compositor Bernardo Sassetti "pela carreira exemplar", por ter conquistado novos públicos e por ter integrado o jazz no universo nacional. Em 2010 recupera-se ainda o Prémio Música Erudita e que este ano é entregue à maestrina Joana Carneiro.
Na área do Ensaio e Divulgação, o prémio é atribuído a Jean-François Chougnet, director artístico do Museu Berardo, pelo "magnífico catálogo da exposição Amália, Coração Independente, que apresenta novas perspectivas sobre a carreira da maior artista portuguesa", justifica o júri.
Custódio Castelo foi eleito o melhor instrumentista e Manuela de Freitas, que já escreveu para Carlos do Carmo e Camané, recebe o prémio Letrista/Compositor.
fonte ~ dn
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Notícias
26 de abril de 2010
Desafinar a Tradição
Tiago Pereira quer libertar a tradição e, provocador, lança ao ar: "Kill Giacometti!". Diz-nos: "tenho que dizer que esta memória existe, mas se quiser que seja contemporânea, tenho que a tratar de uma forma contemporânea". Algo que atravessa a sua obra, representada no IndieMusic do IndieLisboa por "Significado", o seu último filme, e "B Fachada - Tradição Oral Contemporânea""Significado" começou como encomenda da d'Orfeu, associação cultural que, em Águeda, vem trabalhando, divulgando e ensinando a música tradicional, as danças populares ou as artes de palco. Seria uma comemoração dos seus 15 anos, com os irmãos fundadores (Luís, Artur, Vítor e Rogério Fernandes) como personagens centrais, mas não ficou por aí. Transformou-se nisso e numa outra coisa. E é precisamente daquilo e disto que Tiago Pereira conversa de forma rápida e entusiasmada. Discorre sobre o seu novo filme, sucessor de "11 Burros Caem de Estômago Vazio" ou "B Fachada - Tradição Oral Contemporânea", e mais uma acha para a fogueira da discussão sobre o lugar da tradição na música popular da actualidade.
"Significado" tem por subtítulo "Como seria a música portuguesa se gostasse dela própria" e, durante a entrevista, Tiago aponta que a Banda do Casaco, em "Hoje Há Conquilhas, Amanhã Não Sabemos", ano 1977, já recorria aos samples de diversas proveniências que, anos depois, Brian Eno e David Byrne utilizariam no celebrado "My Life In The Bush Of Ghosts" - ainda assim, refere, poucos em Portugal sabem quem é a Banda do Casaco. Mais tarde, falará de João Aguardela e do seu trabalho enquanto Megafone e lança a questão: "Como teria sido Portugal, para nós da geração que assistiu ao eclodir da música de dança, se os samples de músicas e recolhas portuguesas tivessem sido usadas desde o início?" Fala-nos disto, mas aquele "como seria a música portuguesa" é primordialmente dirigido aos que, de tanto a querer preservar, a envolvem num abraço sufocante. Explica: "Há a tendência para ignorar que a tradição hoje, em 2010, não tem nada a ver com o que era há 40 anos. Continua presente o positivismo do aqui só se faz assim e só se faz desta maneira. Temos a memória afectiva do PREC que criou uma resistência. E aquilo foi tudo muito bonito, mas hoje em dia já não existe".
Afinem a velhinha!
Em "Significado", Tiago Pereira não procura sinais de um passado à beira de desaparecer. Enquanto autor, busca novos sentidos. Agitador, põe óculos de mergulhador em Adélia Garcia, cantadeira que Giacometti recolheu há cinco décadas, aponta que o deslumbramento urbano com o exótico rural representa estagnação e parolice e, ao contar-nos das recolhas que faz país fora e dos documentos vídeo que vasculha em baús esquecidos, há-de destacar: "tenho que dizer que esta memória existe, mas se eu quiser que ela seja contemporânea, tenho que a tratar de forma contemporânea". Todo o seu trabalho, de resto, aponta nesse sentido. Não por acaso, define-se como "vídeomúsico" - pormenor: nos seus filmes, a montagem do som precede sempre a da imagem.
Em 2009, na vídeo instalação "Mandrágora", pôs mezinhas e responsos a encontrar eco na música de Tó Trips ou Tiago Sousa, contrapôs gwana marroquino a curandeiros beirãos, correspondeu trip de rave moderna a alucinação da ancestral erva do diabo.
Com "Significado", monta um caleidoscópio de gentes e de suas práticas na abordagem ao tradicional para chegar a isto: "Tradição de futuro. Para mim, isso é que é importante. Ter o passado, o que é agora e o que vai ser, como na banda desenhado do Alan Moore em que todos os tempos se encontram num vértice. É essa noção que quero nos [meus] filmes".
Temos então os irmãos Fernandes, temos etnógrafos e musicólogos, a artista plástica Joana Vasconcelos, os Diabo na Cruz e o músico Vítor Rua. Temos Carlos Guerreiro, dos Gaiteiros de Lisboa, ou Júlio Pereira, pai de Tiago, e, com eles, uma genealogia da descoberta e apropriação da música tradicional desde a década de 1970. Temos o Megafone de João Aguardela e a sua dança samplada das recolhas de Michel Giacometti e José Alberto Sardinha. E os Dazkarieh que com instrumentos tradicionais e atitude rock põem metaleiros do Barreiro todos no "mosh", um Ricardo Lameiro que, com tecnologia moderna, transporta o fagote para novas dimensões, e, claro, a Banda do Casaco que, recuperando palavras de um dos fundadores, Nuno Rodrigues, em "Significado", andou nos anos 1970 e inícios de 1980 a pensar a tradição rural para "gajos que eram de Lisboa e Cascais" e a resgatar Ti Chitas a Penha Garcia para "pôr um botox nas berças". Tiago Pereira não escolhe ninguém, não aponta um caminho. "No 'Significado', interessava ver todo o tipo de práticas contemporâneas que existem na música tradicional. Não me interessa criar a narrativa de um filme, interessa-me o conceito de dar esta informação toda, lançar os ses e as interrogações". Conclui: "Não é para eu escolher, é para as pessoas irem por onde quiserem".
No caso dele, não poderia ser de outro modo. No universo da música tradicional, aquilo que mais o incomoda é sentir que se defende um caminho único, sem hipótese de desvios. É por isso que se atira "à sacralização das velhinhas e das recolhas de Giacometti". Provoca: "Afinem a velhinha!, Kill Giacometti!". E pergunta: "Para quê fazer projectos iguais à Brigada Vítor Jara? Porque é que, vinte anos depois, ainda tens gente a tentar fazer o 'Cavaquinho' que o Júlio Pereira fez nos anos 1980? Que o façam, mas percebam que isso não representa o pulsar actual, não representa a evolução". Na sua opinião, a ânsia de preservar a música de contaminações conduziu a um processo perverso: "Muitos dizem que a culpa das pessoas não ligarem à música tradicional é da folclorização do António Ferro, mas isso aconteceu há mais de quarenta anos e, entretanto, assistiu-se a um fenómeno semelhante, com toda esta espécie de 'folclotribos' que se juntam para fazer as danças europeias no Andanças com tudo muito coreografado e pouco sentido". Acentua, novamente: "O meu interesse é perceber como poderá a tradição sair do seu gueto e chegar a novos públicos, chegar realmente às pessoas".
Ponto de partida
Em "B Fachada - Tradição Oral Contemporânea", também em exibição no Indie, Tiago levou o músico de "Viola Braguesa" a Caçarelhos, pô-lo a cantar canções as cantadeiras e ouvir as canções que elas tinham para cantar. Filmou-os no mesmo plano, sobrepondo a ruralidade delas e o urbanismo dele como se emanassem de uma mesma vontade - e depois, Fachada trouxe de Caçarelhos uma "D. Filomena" com séculos de idade e, em Lisboa, ninguém suspeitou que a canção não fosse dele. "Tradição oral é transmitir o que se vive. Passá-lo de geração em geração, contaminando-se, alargando-se e atingindo combinações infinitas"- isto o que nos disse então Tiago Pereira. Em "Significado", ensaia uma conclusão. Coisa múltipla e por vezes contraditória, com as imagens e os sons, os de arquivo e os captados agora em dança neurótica ou em fusão frutuosa.
A encomenda inicial de que resultou este filme, que será também um DVD acompanhante o livro "Contexto", história da d'Orfeu assinada pelo jornalista António Pires, já continha a génese da sua estrutura. De facto, bastava a Tiago Pereira olhar os quatro irmãos que fundaram a associação. Artur, tocador de concertina que, nos Danças Ocultas, rompe com as formas canónicas de abordar o instrumento. Luís, dos Toques do Caramulo, que "pega na música da Serra e as coloca num contexto global". Rogério, "mais convencional", que "tomou conta da Orquestra Típica de Águeda". E Vítor, homem do improviso que percorre as ruas experimentando percussões e captando os sons da cidade, "inventor" de uns deliciosamente baptizados Mistérios das Vozes Vulgares que vemos a ensaiar polifonias ora na serra, ora em altar de sacristia. A partir deles, dos seus diferentes processos criativos, Tiago abriu o espectro. E, abrindo o espectro, oferece-nos um quadro múltiplo e dinâmico, mas com centro definido, denúncia da sua marca autoral.
Não o preocupa a contradição que é ter Joana Vasconcelos, olhando da cidade, dizer que em Portugal ainda há muita gente "que depende do seu burro" e, no Caramulo, o musicólogo que refere vivermos "tempos de despedida do mundo rural": "Fica a memória individual e o estudo, a museologia". Não, isso não o incomoda. Porque nesse jogo de vozes, tudo acaba por se conjugar.
Vítor Rua a referir o manifesto "Arte do Ruído", do futurista Luigi Russolo - "há que destruir o passado, os conservatórios e criar algo novo, e o ruído tem que estar ali" - e Vítor Fernandes a cantar sons de guindastes e apitos de fabrico nas suas improvisações. Carlos Guerreiro a diagnosticar que "o problema não está na fonte [nas recolhas, nas canções que subsistem na memória das pessoas], está em como tratar aquilo que ainda está no reservatório", e Jorge Cruz, dos Diabo na Cruz, a manifestar o desejo de, amalgamando tradição e a vivência de hoje, chegar a algo "único", "nosso".
"Significado" pretende discussão e presente. Pretende ser a tal memória de futuro.
"Num país fragmentado", pergunta Tiago Pereira, "como é que se partem as caixas todas, como é que se parte este mundo da tradição para criar objectos que, vindos dela, sejam uma outra coisa, encaixem noutros sítios e interessem a mais pessoas?"
"Significado", que se ensaia como conclusão das obras de Tiago Pereira que o antecedem, não fecha nada. É um ponto de partida.
fonte ~ Ípsilon
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Notícias
Deolinda : Um contra o outro [Dois selos e um carimbo, 2010]
Anda
Desliga o cabo
Que liga a vida
A esse jogo
Joga comigo
Um jogo novo
Com duas vidas
Um contra o outro
Já não basta esta luta contra o tempo
Este tempo que perdemos a tentar vencer alguém
E ao fim ao cabo
Que é dado como um ganho
Vai-se a ver desperdiçamos
Sem nada dar a ninguém
Anda
Faz uma pausa
Encosta o carro
Sai da corrida
Larga essa guerra
Que a tua meta
Está deste lado da tua vida
Muda de nível
Sai do estado invisível
Põe o modo compatível
Com a minha condição
Que a tua vida
É real e repetível
Dá-te mais que o impossível
Se me deres a tua mão
Sai de casa e vem comigo para a rua
Vem, que essa vida que tens
Por mais vidas que tu ganhes
É a tua que mais perde se não vens
Anda
Mostra o que vales
Tu nesse jogo
Vales tão pouco
Troca de vício
Por outro novo
Que o desafio
É corpo a corpo
Escolhe a alma
A estratégia que não falha
O lado forte da batalha
Põe no máximo que der
Dou-te a vantagem
Tu com tudo
E eu sem nada
Que mesmo assim desarmada
Vou-te ensinar a perder
Sai de casa e vem comigo para a rua
Vem, que essa vida que tens
Por mais vidas que tu tenhas
É a tua que mais perde se não vens
Desliga o cabo
Que liga a vida
A esse jogo
Joga comigo
Um jogo novo
Com duas vidas
Um contra o outro
Já não basta esta luta contra o tempo
Este tempo que perdemos a tentar vencer alguém
E ao fim ao cabo
Que é dado como um ganho
Vai-se a ver desperdiçamos
Sem nada dar a ninguém
Anda
Faz uma pausa
Encosta o carro
Sai da corrida
Larga essa guerra
Que a tua meta
Está deste lado da tua vida
Muda de nível
Sai do estado invisível
Põe o modo compatível
Com a minha condição
Que a tua vida
É real e repetível
Dá-te mais que o impossível
Se me deres a tua mão
Sai de casa e vem comigo para a rua
Vem, que essa vida que tens
Por mais vidas que tu ganhes
É a tua que mais perde se não vens
Anda
Mostra o que vales
Tu nesse jogo
Vales tão pouco
Troca de vício
Por outro novo
Que o desafio
É corpo a corpo
Escolhe a alma
A estratégia que não falha
O lado forte da batalha
Põe no máximo que der
Dou-te a vantagem
Tu com tudo
E eu sem nada
Que mesmo assim desarmada
Vou-te ensinar a perder
Sai de casa e vem comigo para a rua
Vem, que essa vida que tens
Por mais vidas que tu tenhas
É a tua que mais perde se não vens
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Deolinda carimbam novo disco
Os Deolinda estão de volta com novas canções em que se acentua o humor, a sátira, e também o sonho, depois do sucesso de "Canção ao lado".O novo álbum, "Dois selos e um carimbo", recupera três temas que a banda já tocava nos palcos - "Quando janto em restaurantes", "Entre Alvalade e as Portas de Benfica" e "Fado Notário" - sendo "um reforço daquilo que é a sonoridade dos Deolinda", disse à Lusa, a vocalista da banda, Ana Bacalhau.
Os Deolinda são os irmãos Pedro da Silva Martins, Luís Martins, a sua prima Ana Bacalhau (ex-Lupanar) e o amigo José Pedro Leitão.
Falam todos com grande entusiasmo e ao mesmo tempo, a frase de um é completada por outro e retomada por um terceiro. O grupo entende-se, partilha conceitos e ideais.
"A química é grande entre nós, relacionamo-nos bem, e estamos todos na mesma onda", justificam entre animadas gargalhadas.
14 novos temas
"Dois selos e um carimbo" integra 14 temas, alguns que estavam "no estaleiro", e é editado na segunda-feira pela EMI Music Portugal.
"Um novo disco é um desafio e decidimos aceitar outro desafio que foi a mudança de editora", disse Ana Bacalhau.
"Este segundo álbum pedia um reforço daquilo é a sonoridade de 'Canção ao lado' [CD de estreia]. Mudar seria não ter certeza daquilo que somos enquanto grupo, enquanto som e este disco sela a nossa a identidade", sublinhou Ana Bacalhau.
Luís Martins acrescentou: "Havia a necessidade de explorar as potencialidades do grupo até limite em termos de trabalho criativo, mas certamente, haverá muito que fazer".
Pedro Silva Martins, autor das letras da banda, referiu por seu turno: "Esta é uma sonoridade que pretendemos que chegue a muita gente, até no estrangeiro, mas que tenha um cunho próprio".
"Queremos que as canções sejam referenciais a uma cidade, a um país e a um grupo. Essa assinatura importa-nos muito", realçou.
"Dois selos e um carimbo" integra 14 temas, alguns que estavam "no estaleiro", e é editado na segunda-feira pela EMI Music Portugal.
"Um novo disco é um desafio e decidimos aceitar outro desafio que foi a mudança de editora", disse Ana Bacalhau.
"Este segundo álbum pedia um reforço daquilo é a sonoridade de 'Canção ao lado' [CD de estreia]. Mudar seria não ter certeza daquilo que somos enquanto grupo, enquanto som e este disco sela a nossa a identidade", sublinhou Ana Bacalhau.
Luís Martins acrescentou: "Havia a necessidade de explorar as potencialidades do grupo até limite em termos de trabalho criativo, mas certamente, haverá muito que fazer".
Pedro Silva Martins, autor das letras da banda, referiu por seu turno: "Esta é uma sonoridade que pretendemos que chegue a muita gente, até no estrangeiro, mas que tenha um cunho próprio".
"Queremos que as canções sejam referenciais a uma cidade, a um país e a um grupo. Essa assinatura importa-nos muito", realçou.
Apresentação no dia 22 nos jardins do Palácio de Belém
Desde a saída de "Canção ao lado" em 2008, a banda fez mais de 200 concertos em Portugal e no estrangeiro. A agenda de apresentação de "Dois selos e um carimbo" começa dia 22 em Lisboa, nos jardins do Palácio de Belém e até julho estão previstos 20 espetáculos em Portugal, Bulgária e Itália.
Referindo-se às novas canções, José Pedro Leitão afirmou: "Todas nos satisfazem, até algumas que tínhamos posto de lado no álbum anterior porque os arranjos não nos agradavam, foram aqui retomadas".
O músico salientou que "se escutarmos, todas são diferentes nos tratamentos instrumentais, entre si e relativamente às do álbum anterior".
As canções - desvendaram - partem de uma melodia trauteada pelo Pedro da Silva Martins. "A melodia está logo a dizer que tipo de canção vai ser, e a temática que quer", explicou Silva Martins e Ana Bacalhau.
Depois vêm os arranjos que, se não são do agrado do grupo, "pomos de lado e deixamos no estaleiro", disse João Pedro Leitão.
"Um contra o outro" é o primeiro single
"Um contra o outro" é o primeiro single do álbum que inclui ainda, entre outros, "Se uma onda invertesse a marcha", "Não tenho mais razões", "Sem noção", "A problemática colocação de um mastro" ou "Patinho de borracha".
Pedro da Silva Martins escreve propositadamente para a voz de Ana Bacalhau, o que a cantora afirmou ser "uma felicidade e um privilégio".
Para desenhar a capa do álbum o grupo convidou o cartoonista João Fazenda.
O grupo afirmou que "a Deolinda está mais urbana, atrevida, e com um humor mais corrosivo, mas não é cínica e sonha. Neste álbum trabalha mais sobre o real e extrapola-o", disseram Ana Bacalhau e Luís Martins.
fonte ~ expresso
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