9 de dezembro de 2009

Carminho : A Bia da Mouraria [Fado, 2009]

Lá vai a Bia que arranjou um par jeitoso
É vendedor como ela ali para o Bem Formoso
São dois amores, duas vidas tão singelas
Enquanto ela vende flores, o Chico vende cautelas

Na Mouraria só falam do namorico
A Bia namora o Chico e as conversas são iguais
Ai qualquer dia, Deus queira que isto não mude
A Senhora da Saúde vai ser pequena demais

O casamento já tem a data marcada
Embora qualquer dos noivos tenha pouco mais que nada
Vai ter a Bia, a festa que ela deseja
Irá toda a Mouraria ver o casório na igreja

António José / Nóbrega e Sousa

Carminho: "Sou do meu tempo, levo para o fado a minha vida"

Quando, há meia dúzia de meses, Maria do Carmo Rebelo de Andrade - a Carminho da Mesa de Frades - lançou o seu primeiro disco, "Fado", várias vozes se elevaram, dando conta da dimensão do fenómeno: "O que ela canta! E como canta!" Agora, chegou a prova de fogo: na próxima quarta-feira, na sala do Centro Cultural de Belém, a fadista, que acabou de fazer 25 anos, vai actuar a solo. Diz que está "em pulgas". No fado, sente-se sempre em casa. É a sua pele. Filha da fadista Teresa Siqueira, dona da Taberna do Empossado, Maria do Carmo experimentou o palco do Coliseu num espectáculo da mãe, tinha 12 anos.

Desse dia, lembra-se sobretudo de uma luz intensa a bater-lhe nos olhos e de uns sapatos apertados que lhe magoavam os pés. A verdade é que, desde então, nunca mais deixou de sentir o à-vontade para desafiar o público com a sua voz. No dia combinado, apareceu à hora certa num restaurante à beira-rio, em Lisboa, com o seu ar de menina bem-comportada e uma expressão ligeiramente amuada para disfarçar a timidez, que logo se desmancha numa gargalhada rouca e sonora. Trauteia o tempo inteiro. Se for apanhada distraída é, seguramente, porque está a cantar.

Uma actuação numa casa de fados não é igual a um concerto ou um espectáculo. Como classifica o que ali acontece? É um momento. Uma pausa no jantar. Ou melhor: uma pausa no jantar para sentir. Por vezes, conseguimos fazer com que as pessoas sintam coisas fortes. Podem ficar enregeladas, arrepiadas e até assustadas, mas depois as luzes acendem-se e o jantar continua. Mas também podemos considerar o que acontece numa casa de fados como uma jam session, no sentido em que não fazemos ensaios. Há noites em que canto na Mesa de Frades e não conheço nem o guitarrista, nem o baixista, nem o viola. Ninguém se conhece e cada um dá o máximo de si.

As pessoas podem ficar 'assustadas' ao ouvi-la cantar? Podem quando não estão dispostas a sentir. O fado é um momento de verdade, toca emoções muito fortes.Isso são os clichés sobre o fado... Não, não são. Percebo que diga isso, porque todos os fadistas afirmam que o fado é um momento mágico, que pode ou não acontecer. Mas as letras são de facto fortes. Falam de vida e de sentimentos que nos tocam no mais íntimo. Muitas vezes dizem-me: "Foste intrusiva. Não gostei." Há noites em que as pessoas só querem sair para beber um copo e ouvir uns fados e depois são confrontadas com aquela intensidade, e não é fácil...

Só canta o que sente? Sim. Mas claro que existe sempre uma representação dos sentimentos. Se na realidade sentisse uma grande comoção, como em alguns dias pareço sentir, a voz ficava embargada e adeus. Fisicamente, tornar-se-ia impossível cantar.

Está habituada à dimensão da casa de fados, mas hoje fará o seu primeiro espectáculo no CCB. Não tem medo dessa mudança de escala? O CCB impõe respeito. Num palco tudo é programado, no chão há marcações... Mas não tenho medo. Estou em pulgas! E não é a primeira vez que canto numa sala de espectáculos. São experiências tão diferentes que não sei qual prefiro. No palco estou mais sozinha, e às vezes é melhor. Quando consigo abstrair-me das pessoas que estão do outro lado, é uma experiência que ultrapassa a da casa de fados.

Carminho: 'Sou do meu tempo, levo para o fado a minha vida'


A Mesa de Frades transformou-se num fenómeno de moda. Uma espécie de lugar de culto na noite de Lisboa onde se vai ouvir a Carminho cantar, goste-se ou não de fado. Tornou o fado num momento cool? Acho graça a esse comentário. O meu reportório e a forma como canto é totalmente tradicional. Acontece que, apesar de ter crescido numa casa de fados, o meu meio nunca foi só esse. Sou do meu tempo e levo para o fado a minha vida: as viagens que fiz, os Bairros Altos por onde andei, os amigos que tenho... uns do fado, outros de outras músicas e outros ainda que não têm nada a ver com isto. Mas é verdade que a Mesa de Frades se tornou num fenómeno de moda e por acaso até perdeu metade da graça.

Tem orgulho em ser fadista? Continua a ser uma escolha rara na sua geração... Tenho orgulho em ser fadista, mas não gosto particularmente de me sentir mais especial do que os outros. Não gosto e não sou. Irrita-me profundamente essa coisa... "Sou tão especial! Um dia vais perceber." As pessoas que se sentam num canto do café com a sua Moleskine, o lápis velho e um ar de que são particulares... não suporto.

Referiu que escolheu o caminho mais tradicional do fado, mas a sua imagem, pelo contrário, é contemporânea. A capa do seu disco poderia ser a de uma pop star. Bem! Obrigada! Saio daqui maravilhada!... Mas, sim, fiz questão de produzir uma imagem que tem a ver com aquilo que dizíamos há pouco sobre ser diferente e parecer cool. Quis desconstruir a imagem da fadista tradicional, mais pesada, mais misteriosa... As pessoas vêm ter comigo e dizem: "Antes de te ouvir, não gostava de fado. Agora gosto porque tu realmente és diferente." Agradeço, mas penso: "Estás enganado. Não há aqui nada de diferente. Canto o fado tradicional e da forma mais tradicional de todas. Só que uso uma franja e uma roupa que tu também usarias."

Se tivesse optado pela pose da fadista tradicional, venderia menos? Não sei se venderia menos ou mais. Sei que, por ter uma imagem mais acessível, estou a ter tudo o que me está a acontecer. Tenho consciência de que o facto de não ter abdicado do meu gosto e da minha actualidade é importante. Há muitos fadistas da minha idade que ficam fechados nas colectividades, dificilmente chegam à ribalta e dificilmente vendem.

Porque optou por usar Carminho como nome artístico? Reparei que se refere a si como Carmo. Porque gosto. É próximo das pessoas. Quando escolhi ser a Carminho no fado não me quis prender a nada. Mas sei onde quer chegar. A verdade é que tanto existe no meio urbano como é usado carinhosamente no meio rural. É como a Glorinha da terra, a menina que foi ali criada. Eu sou do campo. Cresci no campo. Camané, por exemplo, hoje é nome artístico, mas quando apareceu também fazia muita confusão. Era nome de puto de bairro. Também lhe perguntavam: "Camané? Mas que nome é esse?"Mas a verdade é que Carminho é um nome que revela a tradição nos fados de um certo meio social. Ao princípio, eu era a tia dos fados, a beta. Hoje já sou só a Carminho. Conquistei esse lugar... Tudo isto é ridículo! Só em Portugal é que se faz essa distinção pela maneira como as pessoas se apresentam e se cumprimentam. Somos duros a classificar o lugar dos outros. Eu não sou da família nem do bairro. Estou a lutar para encarar a vida e os outros pelo que são, sem pensar de onde vêm. Não sou elitista e não gosto nada de ser prejudicada por algo que é exterior a mim e que não controlo.

Nunca pensou cantar outras coisas? Ainda não me apeteceu. Não estive no fado o tempo suficiente.

Seria capaz de experimentar o canto lírico? Tem corpo vocal para isso. Não. Precisamente, o meu medo do canto lírico é a voz. O lírico consegue tudo. Não tenho essa colocação, e os meus músculos não estão treinados para cantar esse registo. É uma coisa muito técnica. Se fizer uma colocação lírica não me soa bem.

Existe uma voz específica para fado? Nem toda a gente consegue? Acho que sim, que consegue. Mas tem de haver talento. Primeiro é preciso ser cantora e depois estar disposta para o fado. Existe uma linguagem própria. As palavras têm de ser ditas como são faladas e temos de saber usar os trejeitos, os rodriguinhos, como chamam àquela toada própria do fado (coloca a voz, faz a entoação e canta). Isto só se consegue quando o ouvido está educado. É difícil cantar assim para quem não foi habituado a ouvir desde pequeno. A mim, sempre me saiu naturalmente.

Tem a ver com a cultura que recebeu por a sua mãe ser fadista? Também. É um conjunto específico de várias coisas. Não posso dizer que a voz para o fado é uma voz de bagaço, porque vai dizer-me que é mais um cliché (risos). Mas posso afirmar que é uma voz sem artifícios.

Qual é o poder que sente por cantar assim? É um desgaste enorme. Liberta-se imensa adrenalina. Cantar é corpo. É preciso puxar pelos abdominais. Quando tenho de cantar uma nota muito alta, tenho de apertar o rabo para conseguir lá chegar. É mesmo gana! Mas quanto mais puxo por ela mais garra e vontade me dá. O fado é bastante físico. Há noites em que acabo de cantar e estou fora de mim. Perdi a noção, viajei. E, quando volto, preciso de uns minutos para me recuperar. Dou por mim virada de costas para o público. Nessas alturas, voltar às pessoas é difícil.

Nunca sentiu vergonha de se expor? Sim. Quando era mais nova, por volta dos 14 anos, tinha vergonha de cantar em frente aos amigos. Eles achavam que era coisa de velhos. Não estou a referir-me a essa vergonha, mas ao pudor de mostrar o que sente e quem é quando canta. No outro dia, alguém me perguntava se não tinha vergonha de cantar à frente dos meus pais. Só quando me fizeram essa pergunta é que percebi que sim. Que, afinal, às vezes tinha vergonha de cantar.

Carminho: 'Sou do meu tempo, levo para o fado a minha vida'


E quando canta sobre o amor? Aí, sim, pode ser delicado. Já me aconteceu provocar algumas confusões, porque as letras dizem coisas e eu não dou conta do poder que têm. Já vi romances acontecerem nos fados. Os fados são um lugar intenso. Pode ser viciante. Como é que acontecem esses romances? Troca de galhardetes! Alguém começa a cantar certa letra por alguma razão particular e depois chega outra pessoa e responde. Pode-se fazer muitas coisas com isso. Eu comecei o meu namoro através de poesias. Já éramos amigos, o meu namorado escreve bem e mostrava-me tudo o que escrevia. Um dia escreveu-me uns versos que percebi serem para mim. Indaguei-o, respondeu-me: "O poeta é um fingidor..." Fui para casa, picada, e escrevi-lhe um poema em resposta. Nessa noite sabia em que bar estava, fui até lá, disse ao porteiro para lhe entregar e vim embora. Respondeu-me de volta e andámos assim nesta picardia durante algumas semanas... Acho isto lindo! Gosto imenso desta história.

Ainda mora em casa dos seus pais? Moro.

Só sai de lá quando casar? Não. Casar ou viver juntos é a mesma coisa. Primeiro gostava de ter uma casa para mim. Gosto do namoro, de escolher um vestido e sair para o encontro. Estes encantos perdem a magia quando se vive com outra pessoa todos os dias. Dizia há pouco que gosta da intensidade do fado e de praticar um trabalho cuja matéria é sentir. Foi uma aprendizagem que veio com a experiência da casa de fados? É transversal em mim. Terá a ver com a minha forma de ser. Sou de extremos. Tanto vivo a alegria de uma maneira intensa como a tristeza de uma forma profundamente dorida. Às vezes, sou mesmo exagerada.

Mas também parece ser bem-comportada... E sou. Tenho respeito por certos limites. Quando alguma coisa me pode tirar de mim, não vou. Tenho medo de drogas e desse tipo de coisas. Não arrisco quando não sei se me vou conseguir controlar. Talvez por isso seja bem-comportada. No sentido em que dentro de mim comporto um determinado número de coisas até onde posso ir. Mas é largo! Também não sou nenhuma totó.

O que é que a sossega? Nada. E não há nesta afirmação nada de dramático. Talvez me sossegue sentir-me integrada. Sinto isso quando consigo estar em paz com o que há de bom e de mau. Quando reconheço o bom e estou em paz com o que há de mau esqueço-me de mim e consigo dar aos outros.

Porquê essa consciência tão clara de um lado bom e de um lado mau? Reconheço que tenho características boas. Sou extrovertida, chego-me ao pé dos outros. Não sou egoísta, gosto de partilhar e de aprender. Mas também sou extremista, quando alguma coisa me corre mal entro rapidamente em nervosismo. Posso ser desagradável. Sou bastante impulsiva. Mesmo agora... Estou aqui a falar destas coisas e de repente penso: "Devia estar mais reservada..." Porque o pudor é uma coisa importante. Nem todos compreendem exactamente quem somos.

Qual foi a crítica mais dura que ouviu? (Pausa) Tantas! A que ouço mais constantemente é dizerem-me que sou muito bruta. E sou. Não gosto disso em mim. Não gosto dessa agressividade.

Disse numa entrevista que antes de editar o seu primeiro disco, apesar das oportunidades que teve para gravar, precisou de viajar para conhecer bem o produto que ia vender... Não me vejo só como um produto, mas também me vejo como um produto. O que quis dizer quando expliquei que queria conhecer-me antes de me lançar a sério no fado, e para isso precisava de ir viajar, foi por ter a noção de que realmente não conhecia nada de mim. Estou a falar em conhecer-me em situações extremas. E queria experimentar-me. Só sabendo quem sou é que deixo de sentir insegurança. E só perdendo a insegurança é que posso olhar para a frente.

Que situações extremas? Nasci num meio privilegiado, nunca me faltou nada. Tive oportunidade de estudar, de ter educação e amigos. Nunca precisei de ser mãe de ninguém antes do tempo nem de trabalhar para me sustentar. Dei-me ao luxo de não gravar quando me propuseram, porque tinha um suporte familiar que me permitia gravar só quando eu quisesse. Senti uma grande necessidade de estar ao pé das pessoas que viviam com essas necessidades. Sabia que viver apenas da maneira como vivia era injusto. Não sei explicar isto melhor.

Carminho: 'Sou do meu tempo, levo para o fado a minha vida'


Como sentiu essa necessidade? Existem pessoas à minha volta e perto de mim que tiveram um percurso diferente do meu. Tiveram de passar por essas dificuldades sem escolha. Passaram fome, medos e experiências pesadas para a idade. Precisava de partilhar e fui despojada de tudo. Mas, atenção... Tenho consciência de que novamente estava numa situação privilegiada. À mínima coisa que corresse mal teria sempre um avião para voltar. Poderia sempre fugir.

Mas nunca o fez. E durante um ano consegui estar próxima daquilo que precisava. Cheguei a viver um mês inteiro com pessoas que estavam a morrer e já não precisavam de quase nada. A minha única função era dar-lhes um bocadinho de dignidade. Tive de encontrar no meu lado mais humano aquilo que lhes poderia dar naquele momento. E são apenas pequenas coisas: massajá-las com óleo, cantar-lhes ou trocar-lhes as fraldas de uma forma cuidada e respeitadora.

Custou-lhe fazê-lo? Custa. Tem de ser feito com verdade.

Fez esse voluntariado na Índia. Quando saiu de Lisboa já tinha o destino marcado? Só o voo: Calcutá. Quando saí do avião não sabia para onde ia dormir. Esperei que amanhecesse, para não ir no breu, apanhei um táxi e disse ao taxista: "Quero ir para a Congregação de Madre Teresa de Calcutá. Sabe onde fica?" Ele riu-se e levou-me directamente. Toda a gente sabe onde é. Quando bati à porta, cheia de cuidados, apareceu uma freira, pegou-me na mochila: "Descalça os sapatos e vai para ali..." Tinham o sistema completamente montado.

Porque escolheu ficar junto das irmãs de Madre Teresa? Tive sempre uma grande ligação a Madre Teresa e ao exemplo dela. Tomava conta dos mais pobres entre os pobres, e era aí que eu queria estar. Lá está a minha maneira de ser de extremos. Eu tenho muito fé. Quando estive em Calcutá, estive muito em oração. Cheguei ao ponto de me forçar a trabalhar com crianças, porque não gosto particularmente, mas achava que para dar tudo é preciso sofrer. Depois descobri que não é assim. Pode-se dar sem sofrimento. Voluntariado não significa masoquismo nem automutilação. Basta descobrir os skils e ir a fundo. Quando percebi isto, baixei as armas e fui tratar dos velhotes, que são as pessoas com quem realmente gosto de estar.

Por onde andou? Depois fui para a China, Vietname, Laos, Camboja, Timor, Austrália, Nova Zelândia, Estive na ilha de Páscoa, em Macau... (Pausa) Espectáculo! Só de pensar que fiz isto fico espantada! Não é incrível?

Quando regressou, voltou para casa dos seus pais? Voltei.

Foi difícil? Não. Sempre me deram espaço. Também senti que a viagem é um estado ilusório. Já sabia que, quando regressasse, voltava à minha vida anterior. Não iria viver no mesmo formato em que vivi enquanto andei a viajar.

No regresso nada muda? Muda muita coisa. Mas também não precisava de ter a mesma liberdade que tinha quando andava a viajar. Eu sabia que aquele espaço de tempo da viagem iria ter um princípio e um fim e que durante esse tempo poderia até inventar uma identidade. Mas que quando voltasse saberiam sempre quem eu era. A liberdade que se sente também tem a ver com isso.

O reconhecimento é bom? É.

Quer ser uma estrela?
Uma estrela? Hum... Não quero ser reconhecida na rua, mas claro que sonho com o palco. Com plateias cheias e grandes ovações. Essa ideia dá-me energia. Não posso mentir.

E como vai encher o palco? Se Deus quiser, e se tiver talento para isso, vou encher com o meu gosto e a minha sensibilidade. Vou cantar sem estar preocupada com o resto.

Ouvi alguém dizer que a imagem do disco que lançou não corresponde à sua atitude no fado. Que a Carminho é bem mais punk do que parece. O que diz? Também acho. Gosto dessa proximidade rock, punk, e até gosto de chocar. Mas ainda estou a crescer. Não me encontrei na imagem certa de mim própria. Este primeiro disco reflecte o que sou neste momento, mas não reflecte o que quero ser. Quero ser muito mais.

Para ir mais longe, o que tem de largar? Alguns medos. E de ver mais mundo. Não quero ser diferente à força. Tem de ser vivido. Não posso pôr uma peruca na cabeça e aí vai disto. Mas acredito que me vou camalear para outras coisas.

Tem medo deste caminho que escolheu e que para ser mais tem de dar passos cada vez maiores? Não. Mas também digo que nunca dei um passo fora de pé. Só vou direita quando sei que vou cair em terra firme. Não arrisco para um vazio quando não sei se vou saber controlar. Se calhar, é isto mesmo. É esse o medo que vou ter de largar.

Com 25 anos e tão grandes responsabilidades... É verdade. Mas a minha a avó está-me sempre a dizer que aos 18 anos já tinha dois filhos. Isso relativiza-me as coisas. É bom fazer um encontro entre estas duas realidades. Porque somos bebés cada vez até mais tarde. Não sei se somos 'nós' os portugueses ou 'nós' os meus amigos. Mas é verdade que tenho uma grande responsabilidade. Mas também tenho muita gente à minha volta e não dispenso esse apoio. Sou imensamente privilegiada. Tudo me tem sido ajudado. Tudo menos a voz.

Entrevista publicada na Revista Única, edição 5 Dezembro 2009

Katia Guerreiro lança novo CD e prepara comemorações da década

A fadista, já conhecida pelas suas arrecadas, escolheu 12 temas dos repertórios de vários fadistas e constituiu o alinhamento do novo CD, "Os fados do fado", que é editado dia 10 pela JBJ.

"Nas minhas andanças fui instintivamente escolhendo este e aquele tema e quando dei por mim tinha um álbum de fados que gosto de cantar, entre eles o primeiro que cantei, ainda nos Açores, 'Amar'", disse a fadista à Lusa.

Este tema de Florbela Espanca, criado por Teresa Silva Carvalho, foi o primeiro fado que Katia Gerreiro cantou quando integrava um grupo folclórico nos Açores.
"Há temas que se tornam referenciais, e constituem etapas pelas quais todos acabamos por passar, como são os temas que escolhi", referiu.
Além de "Amar", o novo CD, editado um ano após a saída do álbum de originais "Fado", inclui "Rosinha dos limões", "Gaivota", "Fado da sina", "Procuro e não te encontro", "O namorico da Rita" ou "Arraial".

Temas dos repertórios de Amália Rodrigues, Tony de Matos, Max, Tristão da Silva, Hermínia da Silva, João Ferreira Rosa, são outros incluídos no disco.
Antes de fazer qualquer álbum oiço muito o que se fez e no fundo este álbum reflecte isso mesmo, fui ouvir aqueles que são referências”, afirmou a fadista.

"Vira dos malmequeres", que evoca "a saudosa memória de Raul Solnado", é o tema de abertura do álbum.
"Um tema que não é do repertório fadista, é do cancioneiro popular mas que a Amália cantou, e que está ligado à saudosa memória de Raul Solnado", realçou.
A fadista é acompanhada à guitarra portuguesa por Guilherme Banza, à viola por João Mário Veiga e no contrabaixo por Rodrigo Serrão. Conta ainda com a participação especial do guitarrista António Mão-de-Ferro.
A participação de António Mão-de-Ferro, que é da área dos blues, foi por mero acaso, mas acho que são dois estilos que casam bem, o blues e o fado, gostei desta sonoridade e quis inclui-la no meu disco”, referiu.
A fadista afirmou que o CD foi concretizado "em tempo recorde", no meio das recentes viagens que realizou ao Canadá, Arábia Saudita, Bahrain e Noruega.
"Durante as minhas viagens fui digerindo a ideia e sei que as plateias reagem bem quando canto estes fados, 'Gaivota' ou 'Lisboa à noite'".

"Irei apresentar o CD ao vivo na FNAC do Chiado dia 14, pois quinta-feira irei estar a participar em Gotemburgo no Parlamento Europeu da Cultura", disse a fadista à Lusa.

O álbum gravado nos estúdios de Vale de Lobo, de Rui Veloso, inclui ainda os temas "Agora choro à vontade", "Nem às paredes confesso" e "Há festa na Mouraria". A fadista Katia Guerreiro, que dia 10 edita um novo álbum, e nas véspera dá uma conferência de imprensa em Lisboa no El Corte Inglés, inicia a 27 de Janeiro as celebrações dos dez anos de carreira na Filarmónica de Berlim, onde, além do concerto, irá realizar um "workshop" de fado.

Ora aí está, uma década que Katia Guerreiro pormete celebrar a rigor e, a menina que entrou no fado por acaso,se rfecordarmos entrevistas anetriores á imprensa, nomedamente devido a um disco de Amália que lhe foioferecido, atévai à Alemanha explicar o fado,isto é o "dar workshops de fado".

Em declarações à Lusa, a fadista afirmou que vai comemorar "muito a sério os dez anos de carreira" que se completam no próximo ano.
"Quero partilhar esta alegria com o público e todos aqueles que me têm seguido estes dez anos, que foram muito bem vividos e aproveitados por mim", disse a fadista.

Em 2010, Katia Guerreiro prevê ainda editar um novo álbum, a sair no segundo semestre.
As celebrações incluem "várias surpresas, algumas já na manga", e uma série de espectáculos, tanto em Portugal como no estrangeiro.
A fadista deverá realizar "uma grande digressão à Noruega", irá actuar em Israel, voltará aos palcos canadianos e sul-africanos, e em Junho efectua uma temporada de 12 concertos com a Orquestra da Normandia.

Katia Guerreiro editou o primeiro álbum, "Fado Maior", em Junho de 2001, um trabalho cujas vendas ultrapassaram os 10.000 exemplares em Portugal e a L´Empreinte Digitale garantiu a edição mundial em Novembro de 2002.
Em Dezembro de 2003 editou o segundo álbum, "Nas mãos do fado", e há cerca de quatro anos o álbum "Tudo ou nada", com qual se apresentou em várias salas e festivais de música, nomeadamente, o de Île de France, em Paris, o de Martigues e o Internacional da Canção do Cairo.

O ano passado, em Novembro, editou "Fado", pela Sony Music, em que interpreta temas de Florbela Espanca, Fernando Tavares Rodrigues, M.º Luísa Baptista.
fonte ~ hardmusica

8 de dezembro de 2009

Galandum Galundaina : Redondo [Ao vivo, 2006]

"Senhor Galandum": novo disco de Galandum Galundaina

Os Galandum Galundaina apresentam ao vivo o seu novo disco, “Senhor Galandum”, no próximo dia 19 de Dezembro, às 17h30, no Café Concerto da Escola Superior de Música e das Artes do Espectáculo do Porto.

Sérgio Godinho, Uxia Senlle e Luís Peixoto (Dazkarieh) são alguns dos convidados que participam no sucessor de “Modas I Anzonas”, que será editado antes do fim-do-ano.

O terceiro álbum do quarteto transmontano Galandum Galundaina, denominado “Senhor Galandum”, volta ser editado pela Açor e mantém a mesma fidelidade do grupo em recuperar e fazer evoluir o repertório em língua mirandesa, servindo-se de uma panóplia muito mais diversificada de instrumentos (alguns deles construídos por Paulo Meirinhos) e convocando a presença de variadíssimos convidados: Sérgio Godinho (voz em “Coquelhada Marralheira”), a galega Uxia Senlle (voz em “La Galhina”), Luís Peixoto (bouzouki “Heilena” e “Fraile Cornudo”), João Paulo, (rigaleijo em “Coquelhada Marralheira”), Eliodora Ventura (voz “La Galhina” e “Mi madre tenie un huorto”), Helena Ventura (voz em “Mi madre tenie un huorto”) e o Coro Infantil da EB 1 de Miranda do Douro (em “La Galhina”). “Senhor Galandum” aventura-se ainda pelos territórios da música electrónica ao incluir uma remistura de “Nabos” assinada pelo também transmontano Hugo Correia dos Fadomorse.

Sobre os convidados, Paulo Meirinhos faz questão de frisar que Eliodora Ventura “é a minha mãe que muito tem contribuído para o repertório usado em Galandum”, já que “algumas das músicas ela cantava-as para adormecermos quando éramos pequeninos.”

Os Galandum Galundaina são:

Paulo Preto – Voz, sanfona, gaita de fuolhe, gaita sanabresa, dulçaina, flauta pastoril,

Paulo Meirinhos – Voz, rabeca, bombo, gaita galhega, gaita de fuolhe, rigaleijo, garrafa, pandeiro mirandês

Alexandre Meirinhos – Voz, caixa de guerra, bombo, cântaro, almofariz, pandeiro mirandês, sineta, chacalacas,

Manuel Meirinhos – Voz, flauta pastoril, flauta de osso, flauta transversal, kaval, tamboril, bombo, pandeiro mirandês, charrascas

fonte ~ crónicas da terra

7 de dezembro de 2009

Cantigas tradicionais portuguesas de Natal e Janeiras

Este Natal, cada um à sua maneira e tradição vai cantar. Conheça "Cantigas tradicionais portuguesas de Natal e Janeiras", um cd do grupo Navegante que lhe dá a conhecer 10 das nossas melhores canções de Natal, recolhidas ao longo dos últimos anos por etnomusicólogos como Giacometti, Lopes Graça, Leite de Vasconcelos, entre outros.

A partir de 10 de Dezembro
por mais 4,90 com o Público

Assobio : Nossa Senhora do Leite [Assobio, 2009]

"Cá dentro": primeiro disco a solo de Sebastião Antunes

Sebastião Antunes, o mentor e vocalista do grupo folk português Quadrilha, apresenta o seu primeiro disco a solo "Cá dentro", com um total de 12 temas, a maior parte deles originais.

As canções deste novo projecto cruzam influências de várias culturas musicais, nomeadamente as de origem celta e mediterrânea e dos tradicionais europeus. Todas elas impregnadas da grande paixão que o músico e compositor tem manifestado pelos sons tradicionais. Por isso, em "Cá dentro" cruzam-se e envolvem-se universos diferentes que fazem indiscutivelmente parte do panorama afectivo do mentor do projecto "Quadrilha".

Este novo trabalho, em que Sebastião Antunes se faz acompanhar por Amadeu Magalhães (flautas e gaita de foles), Carlos Lopes (acordeão), Luís Peixoto (bandolim, cavaquinho) e Tiago Pereira (percussões) nasceu de uma forma muito especial como revelou o próprio músico.

"O conceito do disco foi o de nele incluir as canções que mais gostávamos. Os temas foram sendo gravados sem pressão e sem pressas. Muito deles nasceram em casa (na cave e num quinto andar, como se explica na ficha técnica) daí o "Cá dentro" que dá título ao cd".

Dos 12 temas incluídos apenas três ("A saia da Carolina", "Redondo" e "Dailadê") pertencem ao universo tradicional. Todos os outros são da responsabilidade exclusiva de Sebastião Antunes, que assina letra e música.

O Sebastião Antunes Trio, como agora designa a nova formação que dá alma a "Cá dentro", é um projecto a solo em que o autor e compositor toca algumas músicas originais e também muitos temas da tradição celta,de Trás-os-Montes, da Galiza, da Escócia, da Irlanda, da Bretanha.

Do alinhamento de "Cá dentro" fazem parte "Esquina", "Se ainda der para disfarçar" , "Turca" e a belíssima balada "Sabes eu também". Prossegue com "A saia da Carolina", "Niger", "Redondo", "As bruxas", "Por Granada", "Saharaoui" "Dailade" e termina com a "Chula da Lua" (faixa escondida).

Quadrilha : Se a vida fosse como a gente quer [Quarto crescente, 1999]

4 de dezembro de 2009

"Três cantos" em DVD

Sérgio Godinho afirmou à Lusa que o legado dos três músicos "é hoje transversal na música portuguesa" num leque que vai do fado ao hip-hop, passando pela canção de raiz tradicional, o jazz, ou o pop/rock.
"Hoje faz parte que também olhem para nós com uma vontade de conhecer e nesse sentido o nosso legado está diluído", disse.
José Mário Branco por seu turno afirmou: "o nosso legado é o que possa haver para a canção de qualidade, em que esse casamento das palavras com os sons musicais faça uma canção que possa elevar as pessoas".
"Canções que façam que as pessoas se sintam melhores e maiores, é essa a função da arte: nivelar por cima", rematou o cantautor.
Talvez por isto tenha sido "este ano de crise global" o que marca uma reunião agendada e sempre adiada desde há seis anos.
"Por razões várias da agenda de cada um nunca aconteceu juntarmo-nos, mas foi este ano de crise económica e também de valores que espoletou o desejo de mostrar a nossa música, não como exemplo, não somos nenhuns salvadores da pátria, mas a vontade de fazer um projecto artístico-cultural e que isso bata nas pessoas e as faça sentir mais fortes e portanto mais apetrechadas", disse Sérgio Godinho.
José Mário Branco e Sérgio Godinho consideram que há nas canções dos três "uma espécie de chão que as pessoas podem pisar com segurança" e em que perpassa "uma herança cultural comum que passa pelo José Afonso".
Para Sérgio Godinho, José Afonso "podia ter sido quarto canto, neste caso foi o público".
O autor de "Guerra e paz", um dos temas tocados no concerto, qualificou de "vibrante" o público com quem "houve uma partilha extraordinária" e considera que "essa emoção passa muito bem" tanto na edição em CD como em DVD.
"No caso do CD ao contrário do que é habitual não houve praticamente muito trabalho de estúdio", disse José Mário Branco.
Se houve "um público vibrante" que se sentiu "houve também o gozo de tocarmos juntos e tocarmos coisas de uns e outros", disse José Mário Branco.
Os dois músicos reafirmaram o seu "prazer" na redescoberta do seu próprio repertório e também pela "aprendizagem" do repertório de cada um, e de verem como cada um se "apropriava" das canções do outro.
Referindo-se à "partilha dos três rapazes" Sérgio Godinho referiu: "temos três universos compatíveis e às vezes complementares embora individualizados".
José Mário Branco salientando que "a canção tem sempre um contexto socioeconómico e que é sempre debate", sublinhou que "há uma panóplia de temas e de coisas da vida das pessoas nas obras dos três, além dos temas sociais e políticas".
Dia 07 de Dezembro é editado um CD duplo com 22 canções do espectáculo e uma "edição especial limitada" que inclui um livro com fotos dos ensaios e dos concertos e um texto principal, da autoria do jornalista Nuno Pacheco, dois CD com o concerto e dois DVD. Um DVD regista o concerto e o outro é o documentário "Tudo faz parte" realizado por André Godinho, que regista o trajecto dos três músicos e o processo de trabalho do "Três Cantos".
Além das duas noites no Campo Pequeno (22 e 23 de Outubro) os três músicos subiram ao palco do Coliseu do Porto dias 31 de Outubro e 01 de Novembro. No total assistiram mais de 17.000 pessoas, e "a porta fica aberta para uma nova hipótese" de se voltarem a juntar "se houver a oportunidade", disseram os dois músicos.
fonte ~ hardmusica