6 de outubro de 2009

E depois de Amália?

Se, como opina a cantora e actriz Simone de Oliveira, "o trono do fado é e será da Amália", Tozé Brito - editor, músico e produtor - destoa da maioria das opiniões colhidas pelo JN junto da comunidade fadística e de outras áreas artísticas, ao defender que nada invalida o aparecimento de uma artista que possa "rivalizar" no futuro com o prestígio da autora de "Foi Deus". Ana Moura foi o nome mais vezes referido entre os interlocutores.

"Temos uma geração de gente nova - como Ana Moura, Mariza e Carminho - que já começa a actuar em todo o Mundo. Daqui a dez ou 20 anos, podemos estar a olhar para a Amália de forma diferente. É evidente que ela foi uma intérprete fantástica, mas daí a dizer que o trono será eterno...", defende, relembrando ainda que Amália só atingiu a maturidade artística já depois dos 40 anos, quando cantou Alain Oulman e os poemas de Mourão-Ferreira e O'Neill.

Fadista mais citada pelas personalidades inquiridas pelo JN, Ana Moura é também elogiada por Lenita Gentil, embora de forma contida: "Não tem uma grande voz, mas o timbre é agradável". Com uma carreira que já vai nas quatro décadas, Lenita não é propriamente uma fã devota das revelações do fado - "se aproveitarmos uma pessoa ou duas dessa gente toda, já é muito", garante -, mas destaca ainda o nome de Raquel Tavares, cuja "voz fadistona" apresenta "semelhanças com a de Beatriz da Conceição".

"Ter uma grande voz não chega e a Amália tinha tudo. Uma entrega total. Quando a ouvíamos, sentíamos mesmo o que ela cantava", declara Lenita Gentil.

Opinião distinta tem o fadista António Zambujo, que professa "admiração por Mariza, devido à brilhante carreira que tem construído ao longo dos anos". Mesmo com um percurso internacional amplo, a autora de "Fado curvo" não gera consenso entre os seus pares. Simone de Oliveira (que também refere Ana Moura), por exemplo, acredita que Mariza é, mais do que a voz, "um 'boneco extraordinário".

O musicólogo Rui Vieira Nery prefere destacar "Mariza, Carminho e Ricardo Ribeiro". Na geração imediatamente anterior, elege "Aldina Duarte e Camané" como principais fadistas a reter.

Pela revelação contínua de novos valores, Vieira Nery é da opinião que o momento áureo por que passa o fado está longe de ser uma simples moda. "Há uma onda de fundo que já não pode ser mudada", assume, ao mesmo tempo que justifica o eclipse de carreiras longas com "a lei da vida": "O que é perene e tem vitalidade própria dura, o resto desaparece".

Já para Tozé Brito, a presente moda é "apenas a expressão do mediatismo do fado", porquanto "ao vivo, em casas de fado e não só, sempre houve dinamismo, mesmo quando as músicas não passavam na rádio e na TV". Qualquer que seja o grau de protagonismo atingido pelas vedetas actuais do fado, o futuro, em seu entender, está assegurado, ou não fosse o fado "uma das últimas músicas do Mundo que continuam a ser puras na sua essência, estrutura e estética, ao lado do flamenco e do tango".

Há ainda outro ponto em relação ao qual a comunidade artística, pouco dada a consensos por natureza, está de acordo: o pior que se pode fazer a um novo artista é estabelecer comparações com Amália. Por isso, quando o assunto é a sucessão da primeira grande embaixadora do fado, todos convergem na necessidade de a nova geração trilhar outros caminhos, sob pena de ficar refém de um percurso inatingível. "É um terreno que ficou esgotado pela própria. Felizmente, há outros talhões ao lado em que vão nascendo plantas novas", sublinha ainda Rui Vieira Nery, para quem a questão da sucessão não se coloca "porque Amália era uma personalidade única e irrepetível".

Sérgio Almeida

A voz de Deus não morreu e ainda se eleva bem alta

Para quem acredita que o talento não lhe pertencia, mas era dádiva divina, dizer que Amália Rodrigues morreu há dez anos pode ser uma imprecisão biográfica. O corpo desapareceu, mas a voz e o legado mantêm a fadista viva e notada entre os vivos. Foram 79 anos de presença física, já são 89 de mito - o que quer dizer que o corpo foi sepultado há dez anos.

Amália, a voz do mistério, viveu mais ou menos 79 anos. Morreu, é certo, a 6 de Outubro de 1999. E nasceu em 1920, também é certo (a própria não tinha dúvidas disso). Em que mês? "A minha avó dizia-me que eu nasci com as cerejas. Registaram-me a 23 de Julho. Mas, ao certo, ao certo, não sei o dia em que nasci. Cá por mim, optei pelo dia 1 de Julho, que é logo o princípio do mês", contava Amália da Piedade Rodrigues à jornalista Maria Augusta Silva há 24 anos (Revista do DN, 25 de Agosto de 1985). Um mito sem mistério nunca seria um mito - Amália não queria ser uma lenda como a Severa, e não é.

Nascida num qualquer mês de 1920, talvez Maio, mês das cerejas, andou "três anos e três meses na escola" (lamentou-se sempre da falta de estudos, mas diz que o fado a educou - insistiu nessa tónica numa entrevista simbólica a Baptista-Bastos, publicada no Diário Popular, em Abril de 1987). Em Lisboa: viu a luz na Rua Martim Vaz, freguesia da Pena, viveu sempre na capital - primeiro do império colonial de Salazar ("nós somos o que nos ensinam, na escola ensinaram-me isso"); depois na de um país que lhe atirou à cara uma relação privilegiada com o Estado Novo ("tudo calúnias", protestou vezes sem conta - há quem diga que a única benesse foi uma viagem a Paris autorizada por António Ferro).

Dizia-se que sempre em Lisboa: com os pais, depois com os avós (quando os pais regressaram à Beira Baixa), depois novamente com os pais. Como bordadeira, depois a vender bolos, finalmente a vender fruta com a irmã Celeste e a mãe (o pai era sapateiro mas "não sapateava", como glosou a fadista mais tarde). Nenhum mistério aqui: um Portugal paupérrimo, uma família pobre, uma menina a fazer-se mulher muito cedo. Mas nos três anos e três meses de escola ficava o sinal do destino: Amália brilhara a cantar numa festa da escola. Aos 15 anos, o segundo sinal público do que viria aí - e o que viria aí não era qualquer coisa, era Amália. A fadista exibe-se numa festa de beneficência, com o tio João Rebordão à guitarra. Três anos depois, a fama popular de Amália restringia-se aos bairros: desiste do concurso para Rainha do Fado dos Bairros, face às ameaças de desistência das outras concorrentes, mas conhece o primeiro marido (Francisco da Cruz) e é recomendada a Jorge Soriano, que a leva ao Retiro da Severa. O mito ia ao encontro da lenda - o fado começava aqui a rescrever-se, em Portugal. Data a fixar: 1938 (embora Amália ainda cantasse em casas amadoras com outro apelido da família, Rebordão - o irmão Filipe, pugilista, singrava com esse nome).

"Na minha estreia, em 1939, no Retiro da Severa, levava um vestido amarelo às riscas verdes, com um peitilho. (...) Recordo-me perfeitamente do medo que senti nessa noite, porque ainda é igual ao medo que sinto hoje, sempre que vou actuar." O medo acompanhou--a toda a vida, e foi combustível desse mistério que Amália alimentava ainda a misticismo: "Eu não fiz nada para ter esta voz. Então, por que é que a tenho? Alguém ma deu. Acredito em Deus mesmo que não haja Céu", confessaria a Maria Augusta Silva em 1985, revisitando uma vida cheia. "Uma mulher feliz com momentos de infelicidade. Sou como toda a gente, não acha?", perguntava ela a Baptista-Bastos, 22 anos depois de um outra entrevista ao jornalista/escritor que, pelo tom polémico, tinha dado brado no Portugal profundo de 1965.

Aí, já Amália era o mito que hoje continua vivo: tinha passado e deixado os palcos com as revistas (de Ora vai tu!, em 1940, até Se Aquilo que a Gente Sente, em 1947), tinha passado pelo cinema, tinha dominado os grandes palcos do mundo. Em 1952, chegou a Nova Iorque, em 1956 estreou-se no mítico Olympia (e na despedida de Josephine Baker) para semanas depois ser já cabeça-de-cartaz. Tinha-se já divorciado de Francisco da Cruz (em 1949) e casado com César Seabra (no Rio de Janeiro, em 1961, união que durou até à morte do engenheiro, em 1997), tinha deixado aquele que será o seu maior contributo, além da voz (mas essa, já se viu, não era dela: "foi Deus"): o cruzamento da música popular com a erudição dos grandes poetas, começando por outro imortal, Camões.

Foi precisamente em 1965 que a Amália lhe aconteceu mudar o fado. "Cantar Camões? Pois canto Camões. Sou totalmente dependente do que acontece. Sempre fui", explicou numa deliciosa entrevista concedida a Paulo Portas e Miguel Esteves Cardoso em 1988, que O Independente reproduziu logo depois da morte da fadista. E na qual o agora político e o comentador/escritor lhe chamaram tão-somente "A voz de Deus em português".

Amália Rodrigues : Estranha forma de vida [Busto, 1962]

Foi por vontade de Deus
que eu vivo nesta ansiedade.
Que todos os ais são meus,
Que é toda a minha saudade.
Foi por vontade de Deus.

Que estranha forma de vida
tem este meu coração:
vive de forma perdida;
Quem lhe daria o condão?
Que estranha forma de vida.

Coração independente,
coração que não comando:
vive perdido entre a gente,
teimosamente sangrando,
coração independente.

Eu não te acompanho mais:
para, deixa de bater.
Se não sabes onde vais,
porque teimas em correr,
eu não te acompanho mais.

Amália Rodrigues / Alfredo Marceneiro

Portugal candidata Fado a Património da Humanidade

O anúncio foi feito por Manuel Maria Carrilho à margem da inauguração da exposição "Amália, Coração Independente", dedicada à fadista Amália Rodrigues, no Museu Colecção Berardo, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa.
O embaixador português na UNESCO - Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura - referiu que numa altura em que se assinalam dez anos da morte de Amália Rodrigues, a fadista que mais projecção deu ao Fado internacionalmente, podemos recordá-la "com os olhos postos na consagração mundial do Fado" e esse "será um grande momento" para os portugueses.
Questionado sobre se o ano de intervalo previsto entre a apresentação da candidatura e a aceitação do Fado como Património Imaterial da Humanidade é tempo suficiente para a apreciação da candidatura, Manuel Maria Carrilho sublinhou que "é preciso fazer candidaturas rápidas" e recordou o processo da elevação a Património da Humanidade das gravuras rupestres de Foz Côa em apenas dois anos e no qual também esteve envolvido, na altura como ministro da Cultura.
"Temos uma estratégia forte na Unesco para apresentar e batalhar por esta candidatura e penso que se pode conseguir. Não é fácil, porque o património imaterial que a Unesco procura salvaguardar é aquele que está em risco. Felizmente não temos o Fado em risco. Nesse item as coisas não são muito fáceis, mas felizmente há outros", afirmou Manuel Maria Carrilho.
O embaixador de Portugal na Unesco destacou o "bom dossier" que tem vindo a ser preparado em Lisboa desde 2004, altura em que se começou a preparar a candidatura, e adiantou que a partir de agora terá que ser dado início a "muito trabalho de 'lobbying' e sensibilização", num trabalho "muito intenso" que permita "avançar uma candidatura no meio de tantas pretensões".
Entre as vantagens da elevação do Fado a Património Imaterial da Humanidade, Manuel Maria Carrilho referiu a maior facilidade para a protecção do património, em questões como arquivos e conservação, mas destacou os benefícios inerentes ao reconhecimento internacional.
"É uma projecção a nível global deste bem local que é o Fado", concluiu.
fonte ~ hardmusica

5 de outubro de 2009

Tradisom prepara edição de registos sonoros da Primeira República

O livro "Os sons da República" que inclui um CD com reproduções de discos do tempo da Primeira República vai ser editado em 2010 disse à Lusa o musicólogo José Moças, responsável pela obra.

José Moças, editor da Tradisom e estudioso da música portuguesa, nomeadamente do período entre 1900 e 1945, adiantou que o livro vai ser acompanhado de um CD com reproduções de fados e de obras sonoras de teatro declamado, gravados no período final da monarquia e no começo da Primeira República, cujos 100 anos se comemoram em 2010.

"Além de temas de discos da época conterá uma contextualização histórica e depoimentos actuais de várias personalidades sobre o conteúdo dos discos", salientou.

José Moças tem uma colecção de mais de quatro mil discos daquele período, gravados para gramofone. Dois deles são discos de fado gravados no Porto em 1900, ano em que, assegura, se fizeram pela primeira vez gravações do género em Portugal.

Entre esses discos estão títulos como "A Implantação da República" e "A Proclamação da República", gravado em 1911, "Sessão tumultuosa nas Cortes" gravado em 1908, "A última ceia de D. Manuel", "Comício Republicano na aldeia", "Fado de Afonso Costa, ou "Hino de Manuel de Arriaga".

"São sons curiosos que registam situações e acontecimentos da época - sérias ou humorísticas - e também tentativas de reprodução de certos acontecimentos como o da luta pela implantação da República", sublinhou.

José Moças vai ainda recorrer a um arquivo no estrangeiro - cuja localização se escusa a revelar por razões profissionais - e que contém obras do mesmo período.

Os discos vão ser remasterizados pelo autor, com recurso a um especialista da Galiza, Espanha, de modo a que fiquem sem ruídos e com um som próximo do original.

Além da edição do livro "Os sons da República", José Moças vai participar na concepção e produção de uma ópera sobre a Primeira República, que, entre outras vertentes, também vai incluir a reprodução de sons retirados dos discos da época.

A ópera, que vai chamar-se "Cinco" está a ser preparada pelo dramaturgo Carlos Clara Gomes e encenada pela Companhia De Mente, de Viseu.

"A ópera terá um texto fantástico", garante o editor, que acrescentou que em cada cidade ou vila onde vai ser representada vai haver um elenco próprio e uma referência a uma personalidade local.

"Por exemplo, em Portimão pode-se introduzir o personagem de Manuel Teixeira Gomes, que era da terra e que foi Presidente da República", assinalou o editor.
fonte ~ lusa

29 de setembro de 2009

Aldina Duarte : Princesa prometida [Mulheres ao Espelho, 2008]

Há um véu no meu olhar
Que a brilhar dá que pensar
Nos mistérios da beleza
Espelho meu que aconteceu
Do que é teu e do que é meu
Já não temos a certeza

A moldura deste espelho
Espelho feito de oiro velho
Tem os traços de uma flor
Muitas vezes foi partido
Prometido e proibido
Aos encantos do amor

Espelho meu diz a verdade
Da idade da saudade
À mulher envelhecida
Segue em frente na memória
Mata a glória dessa história
Da princesa prometida

Aldina Duarte/José Marques

Rui Vieira Nery: "Amália não é um marciano"

"Vamos conhecer uma Amália jovem, com uma voz mais fresca e com um toque menos sofisticado, mais intuitiva que completa muito bem a imagem mais presente que temos, da Amália madura que é a das décadas de 1960 e 1970", disse à Lusa o musicólogo Rui Vieira Nery.

Nery salientou: "Esta é uma discografia absolutamente fundamental para a história do fado, que precede o seu encontro com o compositor Alain Oulman".
"Vamos ter uma visão mais completa porque estamos tão próximos da Amália da maturidade do período clássico com Oulman, daqueles grandes fados como 'Gaivota' ou 'Maria Lisboa', e aqui vamos descobrir uma grande fadista que quando tem esse encontro conta 41 anos e tem atrás de si 15 anos de gravações".
Cada CD é acompanhado por dois textos de Rui Vieira Nery e uma análise poética de Vasco Graça Moura, sendo ilustrados por jovens artistas plásticos.
"Faço um guia de audição faixa a faixa, em que comento aquela peça em particular, os compositores, a maneira dela cantar, e como os guitarristas interpretam, a que se junta um texto do Vasco [Graça Moura] sobre a poesia daquele disco".
Num outro texto, também de Vieira Nery, "discute-se determinado aspecto do repertório, designadamente o que são fados estróficos e fados-canção e os compositores que escreveram para ela".
"Irei referi-me a Armandinho, [Alfredo] Marceneiro, Jaime Santos, Britinho [Frederico de Brito], Joaquim Campos, Frederico Valério, Fernando Carvalho, Raul Portela ou Frederico de Freitas".
Os 12 CD/Livros correspondem a outros tantos temas, entre eles, "Paixão", "Ciúme", "Abandono", "Sina", "Ao vivo", "Salero", "Mundo" e "Lisboa".
O musicólogo fez questão de salientar que "ao refresco dos ilustradores" corresponde "um olhar diferente da ladainha ritual: ‘que bem cantava a Amália’, ‘ai que génio’, ‘a alma do povo português’", tanto mais que "nos textos é relacionada com os grandes fadistas do seu tempo".
Um destaque que Nery dá nos seus textos é aos guitarristas que a acompanharam, e nesta primeira fase, à excepção do episódico Fernando Freitas (1945), Amália foi acompanhada primeiro por Jaime Santos, a que se segue Raul Nery e depois por Domingos Camarinha, com quem foi a primeira vez ao Olympia, em Paris.

Conhecedor da carreira da fadista com quem conviveu, Rui Vieira Nery afirmou ao voltar a escutar todos os temas não deixou de se surpreender "com a Amália castiça a cantar o fado Mouraria, o Menor, a marcha do Marceneiro ou fado Tango com uma garra juvenil, mas ao mesmo tempo com uma noção da tradição".
Por outro lado, realça ainda "a forma como se integrava nas tradições musicais de outros países, da copla espanhola, ou da ranchera mexicana, a ponto de ser considerada por eles, entre os melhores".

fonte ~ hardmusica

27 de setembro de 2009

Rão Kyao : Fado das Canas [Viva o Fado, 1996]

Rão Kyao: "Nunca perco o fado de vista"

Rão Kyao, músico, lança segunda-feira um novo disco, ‘Em Cantado’, um trabalho em formato de duplo CD que faz o retrato da sua vida enquanto compositor.

Correio da Manhã – Oito anos depois volta a pegar no fado. Tinha saudades?

Rão Kyao – Sim... mas nunca me tinha cruzado com ele desta maneira. Eu nunca perco o fado de vista, mas aqui surjo como compositor de fados que são apresentados em cantado por vários fadistas. Tentei arranjar uma série de fatos e de estilos que servissem aos intérpretes e acho que ficaram bem à emoção de cada um. Parecem feitos por medida. E é a primeira vez em que a flauta aparece a servir os fadistas, como mais uma voz, e não como solista.

– Foi esse o desafio para o disco?

– Sim. Este é o meu quarto disco objectivamente ligado ao fado, depois do ‘Fado Bailado’, (1983) ‘Viva o Fado (1996) e ‘Fado Virado a Nascente’ (2001), e desta vez tive de imaginar como é que flauta poderia desafiar o fadista, que está a cantar uma letra que tem de ser respeitada.

– ‘Em Cantado’ tem um segundo disco, um ‘Lado B’ que não é fado...

– São temas também ‘Em Cantado’ mas em que a flauta surge a solo, são temas cantados pela flauta.

– Mas esse poderia ser um disco autónomo. Porque os juntou?

– Podia sim, mas há um tipo de cantar que passa pelo fado e não só. Tem a ver comigo. É aquilo que sou como músico. É verdade que tenho uma ligação ao fado, mas também tenho uma outra vivência como músico. Se fizesse só um disco iria ficar com a sensação de incompleto. E o Lado B também tem um carácter intimista.

– É então uma espécie de retrato de Rão Kyao...

– Exactamente, é um retrato deste momento da minha vida. Muitas vezes sou chamado a fazer coisas para fado, faz parte da minha realidade, mas, por outro lado, também tenho o meu grupo. É um álbum de um compositor que põe o seu canto ao serviço de cantores e ao serviço da flauta também.

– No Lado A há uma série de gente nova do fado, a Carminho, a Tânia Oleiro, o Ricardo Ribeiro...

– Foi a voz deles que me cativou. São do melhor que há, todos eles enraizados na tradição fadista. Mas ao mesmo tempo todos querem somar algo ao legado fadista e isso seduz-me. Dou muito valor a isso.