29 de setembro de 2009

Aldina Duarte : Princesa prometida [Mulheres ao Espelho, 2008]

Há um véu no meu olhar
Que a brilhar dá que pensar
Nos mistérios da beleza
Espelho meu que aconteceu
Do que é teu e do que é meu
Já não temos a certeza

A moldura deste espelho
Espelho feito de oiro velho
Tem os traços de uma flor
Muitas vezes foi partido
Prometido e proibido
Aos encantos do amor

Espelho meu diz a verdade
Da idade da saudade
À mulher envelhecida
Segue em frente na memória
Mata a glória dessa história
Da princesa prometida

Aldina Duarte/José Marques

Rui Vieira Nery: "Amália não é um marciano"

"Vamos conhecer uma Amália jovem, com uma voz mais fresca e com um toque menos sofisticado, mais intuitiva que completa muito bem a imagem mais presente que temos, da Amália madura que é a das décadas de 1960 e 1970", disse à Lusa o musicólogo Rui Vieira Nery.

Nery salientou: "Esta é uma discografia absolutamente fundamental para a história do fado, que precede o seu encontro com o compositor Alain Oulman".
"Vamos ter uma visão mais completa porque estamos tão próximos da Amália da maturidade do período clássico com Oulman, daqueles grandes fados como 'Gaivota' ou 'Maria Lisboa', e aqui vamos descobrir uma grande fadista que quando tem esse encontro conta 41 anos e tem atrás de si 15 anos de gravações".
Cada CD é acompanhado por dois textos de Rui Vieira Nery e uma análise poética de Vasco Graça Moura, sendo ilustrados por jovens artistas plásticos.
"Faço um guia de audição faixa a faixa, em que comento aquela peça em particular, os compositores, a maneira dela cantar, e como os guitarristas interpretam, a que se junta um texto do Vasco [Graça Moura] sobre a poesia daquele disco".
Num outro texto, também de Vieira Nery, "discute-se determinado aspecto do repertório, designadamente o que são fados estróficos e fados-canção e os compositores que escreveram para ela".
"Irei referi-me a Armandinho, [Alfredo] Marceneiro, Jaime Santos, Britinho [Frederico de Brito], Joaquim Campos, Frederico Valério, Fernando Carvalho, Raul Portela ou Frederico de Freitas".
Os 12 CD/Livros correspondem a outros tantos temas, entre eles, "Paixão", "Ciúme", "Abandono", "Sina", "Ao vivo", "Salero", "Mundo" e "Lisboa".
O musicólogo fez questão de salientar que "ao refresco dos ilustradores" corresponde "um olhar diferente da ladainha ritual: ‘que bem cantava a Amália’, ‘ai que génio’, ‘a alma do povo português’", tanto mais que "nos textos é relacionada com os grandes fadistas do seu tempo".
Um destaque que Nery dá nos seus textos é aos guitarristas que a acompanharam, e nesta primeira fase, à excepção do episódico Fernando Freitas (1945), Amália foi acompanhada primeiro por Jaime Santos, a que se segue Raul Nery e depois por Domingos Camarinha, com quem foi a primeira vez ao Olympia, em Paris.

Conhecedor da carreira da fadista com quem conviveu, Rui Vieira Nery afirmou ao voltar a escutar todos os temas não deixou de se surpreender "com a Amália castiça a cantar o fado Mouraria, o Menor, a marcha do Marceneiro ou fado Tango com uma garra juvenil, mas ao mesmo tempo com uma noção da tradição".
Por outro lado, realça ainda "a forma como se integrava nas tradições musicais de outros países, da copla espanhola, ou da ranchera mexicana, a ponto de ser considerada por eles, entre os melhores".

fonte ~ hardmusica

27 de setembro de 2009

Rão Kyao : Fado das Canas [Viva o Fado, 1996]

Rão Kyao: "Nunca perco o fado de vista"

Rão Kyao, músico, lança segunda-feira um novo disco, ‘Em Cantado’, um trabalho em formato de duplo CD que faz o retrato da sua vida enquanto compositor.

Correio da Manhã – Oito anos depois volta a pegar no fado. Tinha saudades?

Rão Kyao – Sim... mas nunca me tinha cruzado com ele desta maneira. Eu nunca perco o fado de vista, mas aqui surjo como compositor de fados que são apresentados em cantado por vários fadistas. Tentei arranjar uma série de fatos e de estilos que servissem aos intérpretes e acho que ficaram bem à emoção de cada um. Parecem feitos por medida. E é a primeira vez em que a flauta aparece a servir os fadistas, como mais uma voz, e não como solista.

– Foi esse o desafio para o disco?

– Sim. Este é o meu quarto disco objectivamente ligado ao fado, depois do ‘Fado Bailado’, (1983) ‘Viva o Fado (1996) e ‘Fado Virado a Nascente’ (2001), e desta vez tive de imaginar como é que flauta poderia desafiar o fadista, que está a cantar uma letra que tem de ser respeitada.

– ‘Em Cantado’ tem um segundo disco, um ‘Lado B’ que não é fado...

– São temas também ‘Em Cantado’ mas em que a flauta surge a solo, são temas cantados pela flauta.

– Mas esse poderia ser um disco autónomo. Porque os juntou?

– Podia sim, mas há um tipo de cantar que passa pelo fado e não só. Tem a ver comigo. É aquilo que sou como músico. É verdade que tenho uma ligação ao fado, mas também tenho uma outra vivência como músico. Se fizesse só um disco iria ficar com a sensação de incompleto. E o Lado B também tem um carácter intimista.

– É então uma espécie de retrato de Rão Kyao...

– Exactamente, é um retrato deste momento da minha vida. Muitas vezes sou chamado a fazer coisas para fado, faz parte da minha realidade, mas, por outro lado, também tenho o meu grupo. É um álbum de um compositor que põe o seu canto ao serviço de cantores e ao serviço da flauta também.

– No Lado A há uma série de gente nova do fado, a Carminho, a Tânia Oleiro, o Ricardo Ribeiro...

– Foi a voz deles que me cativou. São do melhor que há, todos eles enraizados na tradição fadista. Mas ao mesmo tempo todos querem somar algo ao legado fadista e isso seduz-me. Dou muito valor a isso.

24 de setembro de 2009

"Vida" de Jorge Fernando

O fado atravessa dias dourados, já o sabemos: novas vozes, novos poetas, novos compositores e até novas maneiras de o entender. Mas o que fica do tempo - o que mais importa - é o milagre desta música e destas palavras se poderem colar a isso que chamamos de alma, de forma linda e irreversível.

É isso que o trio de Jorge Fernando traz. A começar pelos nomes. Primeiro, Jorge Fernando, músico, compositor, poeta, cantor. Um dos homens mais cantados na actual música portuguesa. Seja através da nova geração de estrelas - Mariza, Ana Moura, Filipa Cardoso - seja no testemunho que as lendas do fado nos deixaram: Fernando Maurício, o rei do fado, foi o seu mentor e intéprete de grandes temas. Amália teve-o como viola de fado durante 20 anos e como autor de alguns fados que a diva cantou.

Mas agora é a altura de Jorge Fernando falar em nome próprio. E a acompanhá-lo estão dois amigos e cúmplices, que representam bem a herança e a mudança que faz o fado viver. Custódio Castelo é um dos melhores executantes de guitarra portuguesa da actualidade. A isso alia um talento enorme como compositor. A sua forma de tocar e os seus arranjos - que por vezes evocam a música erudita - é original e já começa a fazer escola. Além de vários projectos próprios (como o recente Encore Fado, com Margarida Guerreiro), Custódio Castelo foi o responsável musical pela afirmação de Cristina Branco, com quem trabalhou muito tempo. É dos instrumentistas e compositores mais solicitados internacionalmente.

Fábia Rebordão é o novo que vem de trás. A sua extraordinária voz deu-se a conhecer no programa televisivo Operação Triunfo, onde chegou a finalista. Palmilhou territórios musicais aparentemente distantes, como os blues ou o gospel. Mas foi no fado que se encontrou, desde há dois anos para cá. Quem a ouvir, no entanto, perceberá que o fado nasceu com ela.

É este trio que vai oferecer a riqueza da música e palavras, fados de raiva e de amor que inquietam a alma e nos fazem agradecer.

Apresentação do disco
Parque Mayer | Lisboa
25 de Setembro
21h30

22 de setembro de 2009

Velha Gaiteira : Lá Nuoba

"Amália nossa" recupera os primeiros anos de gravações da fadista

"Amália nossa" é um "mega projecto" que revisita os primeiros 15 anos de gravações da fadista com a edição de 12 CD/Livros e uma biografia em banda desenhada de Nuno Saraiva.

"Amália nossa" pretende "trazer ao público, de uma forma inovadora, o legado extraordinário" da fadista, explicou João Pinto de Sousa, da Tugaland, que chancela o projecto.

Pinto de Sousa sublinhou à Lusa que se trata de uma "aposta forte e ousada", quando passam dez anos sobre a morte da "maior referência do Fado de sempre e para sempre".

O projecto que inclui a edição de 12 CD/Livros "a preços democráticos", com textos de Rui Vieira Nery e Vasco Graça Moura, uma antologia poética, uma exposição, uma edição limitada em vinil, e a biografia em três álbuns de Banda Desenhada, é apresentado quarta-feira no Museu do Fado, um dos parceiros do projecto, tal como o Museu Berardo, a Fundação Amália, a Rádio Amália e a RTP.

O projecto discográfico de 12 CD/Livros refere-se aos primeiros 15 anos de gravações de Amália, que o musicólogo Rui Vieira Nery intitulou "a primeira era de ouro".

"Na prática é a Amália pré [Alain] Oulman", sintetizou Pinto de Sousa.

Os textos de Rui Vieira Nery "fazem o guia de audição, e análise musicológica, e de carreira da artista", e os de Vasco Graça Moura "uma análise poética".

Os 12 CD/Livro correspondem a outros tantos temas, entre eles, "Paixão", "Ciúme", "Abandono", "Sina", "Ao vivo", "Salero", "Mundo", "Lisboa". Cada capa é ilustrada por um artista que a partir dos textos do poeta e do musicólogo e da audição dos temas, "criaram dando um cunho contemporâneo".

Os ilustradores escolhidos são Pedro Brito, Inês Casais, Jimi, João Moreno, Daniel Lima, Fernando Martins, João Fazenda, André Carrilho, Maria João Worm, Nuno Saraiva, Vasco Gargalo, e Patricia Romão.

"Seduzir as novas gerações e novos públicos" é uma das apostas da Tugaland, que irá explorar "novas redes de distribuição" ao colocar os CD/Livro à venda através de um jornal diário, a partir de 29 de Setembro, e também em lojas dos CTT e em alguns postos de combustíveis.

Doze outros artistas plásticos criaram peças a partir dos 12 temas que titulam os CD, e a partir das quais a designer Maria João Ribeiro, também da Tugaland, fez a ilustração das capas para uma colecção limitada dos 12 títulos em vinil, que estará disponível apenas na FNAC.

"Os doze olhares contemporâneos sobre Amália" integrarão a exposição patente no Museu Berardo, "Coração independente". "Teremos um núcleo dentro dessa exposição que se intitulará, precisamente, 'Amália nossa'", explicou Pinto de Sousa.

Os artistas convidados são João Pedro Vale, Ana Rito, Catarina Saraiva, Adriana dos Molder, Bruno Pacheco, Sofia Leitão, Pedro Barateiro, João Onofre, Gabriel Abrantes, Rita GT, Pedro Gomes e Isabel Simões, abrindo a exposição ao público dia 06 de Outubro.

Também com saída prevista em Outubro estão três álbuns em Banda Desenhada de Nuno Saraiva que "se apaixonou pelo fado" e faz uma biografia da fadista "com uma introdução ficcionada, mas com a consultadoria histórica da directora do Museu do Fado, Sara Pereira, e de Rui Vieira Nery".

"Há no Nuno Saraiva aquele cunho interessante de ficção e de humor, mas seguindo um trajecto sociológico e político, além do toque sensualidade/erotismo habitual no seu traço", explicou Pinto de Sousa.

Também para Outubro está prevista "a antologia completa com todos os poemas que Amália cantou", organizada por Américo Lourenço, administrador da Fundação Amália, e pela antiga secretária da fadista Estrela Carvas, que recentemente editou as suas memórias de convivência com a criadora de "Ai, Mouraria".

fonte ~ lusa

21 de setembro de 2009

Stockholm Lisboa Project : Mentiras [Sol, 2007]

Nunca andes com mentiras
que é um caso perigoso
que eu já tive um namorado
deixei-o por mentiroso

Vais dizendo pelas ruas
que tu já me tens deixado
bem sabe já toda a gente
que tu andas enganado

Vais dizendo pelas ruas
que tu me tens esquecido
bem sabe já toda a gente
que eu nunca te tenho querido

Tenho-te dito mil vezes
não venhas aonde estou
se é para estares a rir para mim
aonde tu estás não vou


Amália FM arranca em Outubro

É uma rádio temática dedicada ao fado que emitirá na zona da grande Lisboa em 92.0, a antiga frequência da RNA (Rádio Nova Antena). O início das emissões está marcado para as 12h00 de 6 de Outubro, a data em que se assinalam os dez anos sobre o desaparecimento de Amália Rodrigues.

Luís Montez, proprietário de rádios como a Radar e Oxigénio e da promotora de espectáculos Música no Coração, é um dos administradores deste novo projecto, que conta com Augusto Madaleno como director de programas.

"A nova rádio tem raça. É lisboeta, boémia, bairrista, atrevida e namoradeira, faz do fado a sua alma", anuncia o texto de apresentação, que refere que a rádio surgirá como "a justa homenagem" a Amália. De onde não será de estranhar que a denominação da nova estação radiofónica tenha por base o nome da grande voz do fado.

fonte ~ expresso