14 de agosto de 2009

Dulce Pontes : Mãe Preta [Caminhos, 1996]

Pele encarquilhada carapinha branca
Gandôla de renda caindo na anca
Embalando o berço do filho do sinhô
Que há pouco tempo a sinhá ganhou

Era assim que mãe preta fazia
criava todo o branco com muita alegria
Porém lá na sanzala o seu pretinho apanhava
Mãe preta mais uma lágrima enxugava

Mãe preta, mãe preta

Enquanto a chibata batia no seu amor
Mãe preta embalava o filho branco do sinhô

Caco Velho / Piratini

Recuperados para digital 12 temas de Maria da Conceição, "criadora" de "Mãe preta"

A Fundação Manuel Simões, através da Estoril Discos, edita pela primeira vez em CD um conjunto de fados interpretados por Maria da Conceição, considerada a criadora em Portugal do tema "Mãe preta".

"Mãe preta", de Caco Velho e Piratini, tornar-se-ia mundialmente célebre pela voz de Amália com um poema novo de David Mourão-Ferreira, "Barco negro".

"Este não foi aliás o único êxito de Maria da Conceição que a grande Amália recriou e tornou seu pelo mundo inteiro. Também a célebre `Casa portuguesa` é uma criação sua", recordou à Lusa a fadista Julieta Estrela, membro do conselho consultivo do Museu do Fado.
fonte ~ lusa

13 de agosto de 2009

Augusto Canário : Vira de Nª Srª da Agonia

Espólio do fado comprado por 910 mil euros pelo Estado e Câmara de Lisboa

O espólio do fado, como ficou conhecida a colecção de cerca de oito mil registos fonográficos do britânico Bruce Bastin, ficou mais barato ao Estado e à Câmara de Lisboa: o acordo final permitiu a compra dos discos de 78 rotações por 910 mil euros, menos cem mil do que os 1,1 milhões de euros contratualizados em 2007 pela então ministra da Cultura Isabel Pires de Lima. E um novo arquivo sonoro irá unir o Ministério da Cultura e a EGEAC em parceria.

Cinco ministros da Cultura e cerca de oito anos depois de ter vindo a público a existência deste espólio, a transacção da última tranche da colecção conclui-se no dia 21, com a celebração final do acordo entre o coleccionador, o Ministério da Cultura e a EGEAC/Câmara de Lisboa. Nessa altura, de acordo com Lucinda Lopes, vogal da administração da EGEAC, serão entregues os três mil registos em falta (que incluem discos portugueses adquiridos por Bastin no Brasil), tendo os primeiros cinco mil discos de 78 rotações sido entregues ao Museu do Fado no final de Janeiro de 2008.

Mas em Maio de 2008, a comissão designada pelo Estado para avaliar o acervo considerou que este tinha sido sobreavaliado, o que levou a uma renegociação. Em Dezembro, o ministro da Cultura ainda tinha dúvidas sobre “a quantidade e a qualidade” do acervo - se seriam apenas discos ou também gravações secundárias, sem os originais.

Agora, Manuel Bairrão Oleiro, director do Instituto de Museus e Conservação (ao qual a colecção ficará afecta), explicou ao PÚBLICO que os registos que agora chegarão “ficarão no Museu do Fado para inventariação e catalogação”, cabendo à tutela e à EGEAC decidir o seu destino final. Lucinda Lopes revelou ao PÚBLICO que a EGEAC e o Ministério da Cultura vão constituir um Arquivo Sonoro - que o Governo chegou a indicar como destino para o espólio do fado - para receber registos de privados e de organismos públicos. O musicólogo Rui Vieira Nery sublinha que o Estado deve ser o gestor e o garante inequívoco da “preservação de um património imaterial da cultura portuguesa”, assumindo “essa responsabilidade no essencial”,

O coleccionador chegou a pedir 1,249 milhões pelo acervo, que inclui registos até então desconhecidos ou dados como perdidos que remontam a 1904. Vieira Nery, que analisou a listagem deste “fundo muito importante” que urge “reintegrar no património português”, congratulou-se por saber que o acordo está ultimado. Quanto ao preço, “quanto mais vantajoso para o Estado português, melhor para todos nós”, disse. Os custos serão divididos pela autarquia e pela tutela - há ainda um mecenas não identificado.
O disco mais antigo da colecção de Bruce Bastin remonta a 1904, embora se teorize que as primeiras gravações de fado em Portugal remontam a 1900. A valiosa colecção de fado de Bastin nasce entre as décadas de 1970 e 80, quando o coleccionador se interessa por este género musical português e, depois, quando um investigador seu amigo visitou os arquivos da Valentim de Carvalho. Daí começa a procura de mais de mais discos. Do Porto ao Brasil, reuniu um acervo hoje considerado essencial para melhor perceber a história da gravação género musical através de registos da Grammophone, da HMV, Columbia, Homokord e Victor – a meio das negociações com Bastin foi revelado que a então Casa do Fado (actual Museu do Fado) possuía apenas 50 discos no seu arquivo.

Entra em cena o musicólogo e editor José Moças, que conheceu Bastin (que possui milhares de registos de vários géneros musicais, dos blues ao ragtime) em 1992 em Londres e encetou as negociações para que os registos fonográficos de fado que possui ficassem em Portugal. Em 2002 vem a público a existência da colecção e os sucessivos governos portugueses foram negociando a sua vinda para Portugal.
Da colecção fazem parte títulos como "Fado Robles" (1904), de Luís Petroline, "Fado do Porto" (1904) de Manassés de Lacerda ou "Fado Rey Colaço" (1908) de Tomaz Ribeiro, entre muitos outros nomes populares mas cujos registos fonográficos não se sabia sequer se existiam. Até ao surgimento da colecção Bastin. J.A.C.

fonte ~ público

11 de agosto de 2009

Toques do Caramulo : Olha para a água

Olha para a água
Ri-te para mim
Põe o pé na areia
Faz assim, assim

Meu amor não anda
Nada satisfeito
Põe o pé na areia
Faz assim a eito

Candidatura do Fado apresentada à UNESCO em 2010

A candidatura do fado à convenção da UNESCO para a salvaguarda do Património Cultural Imaterial "deverá ser apresentada durante o primeiro semestre de 2010".

A afirmação foi apresentada hoje à Lusa pela gestora do Museu do Fado, Dr.ª Sara Pereira.

"Desde 2005 que estamos a trabalhar na preparação da candidatura, aguardando agora a publicação pelo Governo da portaria que regulamenta a apresentação e formalização do processo.

Saída esta portaria apresentaremos a candidatura à UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura)", explicou.

Em declarações à Lusa, a gestora do Museu do Fado afirmou que a partir de Outubro inicia-se um plano editorial que inclui a reedição "de algumas das fontes fundamentais para a história do fado".
fonte ~ Lusa

Primeiro álbum de Amália reeditado em vinil e CD

O primeiro álbum de Amália Rodrigues, editado nos Estados Unidos em 1954, será reeditado em vinil, numa edição limitada de 500 exemplares, pela Companhia Nacional de Música (CNM).

O LP, gravado em 78 rotações, intitula-se "Amália Rodrigues sings fado from Portugal and flamenco from Spain", e é composto por quatro faixas cantadas em português e outras tantas em espanhol.

Nuno Rodrigues da CNM afirmou à Lusa que "a edição deste primeiro LP confirma em definitivo o estatuto de Amália, colocando-a ao nível das maiores vedetas internacionais da época".

fonte ~ rtp

3 de agosto de 2009

Encontros da Eira : Baile da Meia Volta [Meia Volta, 2008]

Documentário "Raízes de um Povo", de Eduardo Costa.

Fado Nosso

Após nove anos sem gravar, João Braga regressou aos discos com "Fado nosso", em que canta Manuel Alegre e um "não-fado" - um poema de David Mourão Ferreira- e faz "uma síntese" de "Babel e Sião" de Camões. Em declarações à Lusa, o fadista afirmou que esta oportunidade de gravar lhe permite "prestar homenagem a um dos grandes vultos do fado, Alfredo Marceneiro, que nos últimos tempos tem sido muito maltratado", e também a João Ferro Velho de quem canta "Não terás salvação".
O fadista conheceu João Ferro Velho nas tertúlias de Cascais, onde "cantava este fado como se fosse a última coisa que fazia, tal era o sentimento, mas nunca o gravou". "Quando o João cantava, lembro-me, aí por volta de 1963, tinha eu 18 anos, quem o ouvia, ficava tão compenetrado e em silêncio que parecia que se assistia a uma missa", recordou. O poema de "Não terás a salvação" é de João de Freitas que glosa uma quadra de Henrique Silva, com música de Georgino de Sousa. "É um fado que gosto muito, pois é na linha mais tradicional, é puro e duro, como dizemos, mas tem um toque de picardia", acrescentou.
"O último faia" é o fado de homenagem a Marceneiro da autoria de António Tavares-Teles, que João Braga canta na melodia do fado Versículo de autoria de Alfredo Marceneiro. "Para mim resolvo a situação. Não tenho dúvidas que a paternidade do fado é de Alfredo Marceneiro, e é um fado em tom menor, como tantos outros, mas não é o fado menor. Eu provo isso nesta interpretação", declarou.
João Braga referia-se à polémica levantada há dois anos quando Carlos do Carmo com "Fado da Saudade" (letra de Fernando Pinto do Amaral) recebeu o Prémio Goya para a Melhor Canção Original, e que o interpreta no fado menor em versículo. "O Fado Versículo é do Marceneiro e acabou-se a conversa", afirmou peremptório João Braga que conviveu com o criador de "Bêbedo pintor".
"O Fernando [Tavares-Teles] intitulou-o 'O mestre' mas eu pedi-lhe para lhe chamar 'O último faia' que é para mim o que foi o Marceneiro. Era um refilão de primeira, mas não o ignorante que muitos tristemente quiseram fazer passar quando houve essa polémica", argumentou Braga. O fado faz referência aos vários fados que celebrizaram Alfredo Marceneiro e à sua obra de marcenaria "A casa da Mariquinhas", actualmente exposta no Museu do Fado, em Lisboa.
"Babel e Sião", que João Braga musicou, é para o fadista "o essencial da ideia de Camões". É o poema que o "deslumbra" e que relê, por o "considerar o que há de melhor na lírica camoniana".
"Elegia do ciúme", de David Mourão-Ferreira, é o "único não-fado do CD, é um balada feita pelo Nuno Rodrigues, e em que nem entram as guitarras portuguesas", explicou Braga.
Manuel Alegre "amigo de longa data" de João Braga assina dois poemas e recita uma parte de "Soneto da separação" de Vinicius de Moraes e a quem se deve o título do álbum. "Depois de pensar em 'fado inteiro e reunido', tirei o 'reunido'. Ficava pomposo. Também não gostei e mudei para 'fado meu' mas lembrou-me logo uma coisa brasileira, 'sonho meu'. Foi então que o Manel [Alegre] descobriu este 'fado nosso'", esclareceu. "Fado nosso", também pelas ideias que partilham sobre o fado, reconheceu fadista que abre o CD com um poema Alegre, em que se reivindica a matriz portuguesa do fado.
Em "A origem do fado", com música de José Fontes Rocha e João Braga, defende-se que "a origem do fado pouco importa" e segundo o fadista "a sua matriz é portuguesa, senão outros já o tinham reivindicado".
Braga interpreta ainda poemas de João Linhares Barbosa, o seu poeta popular preferido, e dois poemas de Vinicius de Moraes.
O fadista destacou a participação "afinada" de Cuca Roseta em "Apelo" e a forma como os instrumentos foram "brilhantemente captados, com uma nitidez única" por Rui Guerreiro.
João Braga é acompanhado por José Luís Nobre Costa e Pedro Castro (guitarra portuguesa), Jaime Santos Jr. (viola), e Joel Pina (viola-baixo).
fonte ~ hardmúsica

30 de julho de 2009

José Afonso : Vampiros [Dr. José Afonso em Baladas de Coimbra, 1963]

No céu cinzento
Sob o astro mudo
Batendo as asas
Pela noite calada
Vem em bandos
Com pés veludo
Chupar o sangue
Fresco da manada

Se alguém se engana
Com seu ar sisudo
E lhes franqueia
As portas à chegada
Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada
A toda a parte
Chegam os vampiros
Poisam nos prédios
Poisam nas calçadas
Trazem no ventre
Despojos antigos
Mas nada os prende
Às vidas acabadas

São os mordomos
Do universo todo
Senhores à força
Mandadores sem lei
Enchem as tulhas
Bebem vinho novo
Dançam a ronda
No pinhal do rei

Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada
No chão do medo
Tombam os vencidos
Ouvem-se os gritos
Na noite abafada
Jazem nos fossos
Vítimas dum credo
E não se esgota
O sangue da manada

Se alguém se engana
Com seu ar sisudo
E lhes franqueia
As portas à chegada
Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada

Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada