não sou daqui mas gosto daqui estar de aprender no lugar de outros a me encontrar de poder um lugar achar no estar aqui desejar o lugar de todos neste lugar e saber, no lugar daqui o meu lugar não sou daqui
não sou daqui mas se aqui estou é porque para mim também há aqui lugar e porque há um eu que aqui se foi achar e porque um teu gostou de mim de me encontrar
(Amélia Muge)
Não sou daqui Amélia Muge Não sou daqui Vachier & Associados, 2006
Sei de um rio, sei de um rio Em que as únicas estrelas nele sempre debruçadas São as luzes da cidade Sei de um rio, sei de um rio Onde a própria mentira tem o sabor da verdade Sei de um rio… Meu amor dá-me os teus lábios, dá-me os lábios desse rio Que nasceu na minha sede, mas o sonho continua E a minha boca até quando ao separar-se da tua Vai repetindo e lembrando Sei de um rio, sei de um rio Meu amor dá-me os teus lábios, dá-me os lábios desse rio Que nasceu na minha sede, mas o sonho continua E a minha boca até quando ao separar-se da tua Vai repetindo e lembrando Sei de um rio, sei de um rio Sei de um rio, até quando
Guimarães, 14 Ago (Lusa) - Agosto é mês de trabalho para os dois mil e duzentos grupos de folclore existentes em Portugal. Serão mais de cem mil praticantes amadores que têm como único "pagamento" os passeios e as viagens ao estrangeiro feitas em grupo.
Dois deles, Marta e Júlio, vão ter este sábado, em Viana do Castelo, a prova da entrega voluntariosa com que os praticantes se dedicam ao folclore. O seu casamento vai contar com a bênção do Rancho Folclórico das Lavradeiras de Vila Franca.
Os noivos dançam no rancho e, no dia da boda, serão os cantadores e as cantadeiras, nos seus trajes minhotos, a animar a missa e a festa do matrimónio.
"No grupo toda a gente trabalha de graça, com ensaios uma vez por semana e espectáculos três fins-de-semana por mês", disse à Lusa Rafael Rocha, presidente da associação cultural que dá nome ao rancho.
"É claro que, quando um dos cinquenta membros do grupo precisa, nós vamos todos ajudar", referiu ainda Rafael que, não sabe bem há quantos anos atrás, entrou para o rancho "para ver se conseguia namorar com uma rapariga".
O namoro não avançou, mas o "amor" pelo folclore permaneceu e são vários os casamentos entre membros do grupo, que têm como padrinhos os escritores Jorge Amado e Zélia Gattai.
"Eles vinham muitas vezes a Viana do Castelo e aceitaram apadrinhar as Lavradeiras de Vila Franca", disse, com orgulho, Rafael Rocha.
Com dois mil e duzentos grupos legalmente existentes em Portugal, o folclore é uma das áreas culturais que envolve "mais praticantes e mais adeptos".
"Em muitas aldeias e vilas, os grupos folclóricos são o motor de toda a actividade social", explicou Fernando Ferreira, presidente da Federação do Folclore Português (FFP).
"Sem as viagens dos grupos, sem as actuações no estrangeiro, havia pessoas que morriam sem sair da terra onde nasceram", frisou.
Com cerca de 50 elementos por grupo, entre músicos, dançarinos e cantadeiras, o folclore movimenta milhares de pessoas que trabalham gratuitamente.
"Os ranchos têm a vertente cultural que é muito importante, mas têm também a vertente social que é tanto ou mais importante que a recolha e divulgação de tradições", disse Fernando Ferreira.
Dos dois mil e duzentos grupos folclóricos existentes em Portugal, 600 são federados na FFP, 400 estão em processo de adesão e os restantes "não podem ou não querem fazer parte"da entidade que supervisiona o folclore.
"Somos muito exigentes com os grupos que pedem adesão à federação", salientou Fernando Ferreira.
"O folclore é um património que representa uma comunidade e se não for fiel aos usos e costumes dessa comunidade, pode ser um grupo de dança, mas não pode ser um grupo de folclore", referiu o presidente da FFP.
Para manter a fidelidade à tradição, a federação tem vindo a organizar cursos de formação sobre folclore.
A próxima acção de formação é destinada aos ensaiadores dos grupos e deverá ter início no mês de Setembro.
E para que um grupo seja considerado representante do folclore português, há coisas "simples" que têm que ser respeitadas: "Nada de maquilhagem, nada de relógios de pulso, cabelos pintados e saias curtas", exemplificou Fernando Ferreira.
O grupo folclórico de Mafamude, em Vila Nova de Gaia, tal como o de Viana do Castelo, não é federado.
Mesmo assim, em 27 anos de vida, Maria Albina, fundadora do grupo, garante que nunca faltaram convites para actuações.
Pela primeira vez, os 60 elementos do grupo estão a actuar no estrangeiro.
"Tivémos sempre medo de sair de Portugal sem ter tudo combinado e, desta vez, em Barcelona, saímos de Gaia já com o nome dos sítios onde íamos dormir e comer", disse "Bininha", a presidente do grupo.
A viagem a Espanha acaba por ser uma prenda para o grupo que ensaia uma vez por semana e tem actuações quase todos os sábados ou domingos.
"Vamos a muitos convívios sem ganhar um tostão, vamos pela festa, mas há sítios como as Caves do Vinho do Porto onde nos pagam cada actuação que fazemos", referiu Maria Albina.
A fadista Adelina Ramos, 82 anos, que foi proprietária do restaurante típico "A Tipóia", faleceu no passado sábado 26 de Julho, na Casa do Artista, informou hoje a Associação Portuguesa dos Amigos do Fado (APAF).
Na mesma nota, a APAF "lamenta o facto do falecimento de tão insigne figura não ter sido divulgado por aquela instituição".
Fonte da Casa do Artista confirmou hoje à Lusa que Adelina Ramos faleceu sábado, tendo sido realizado o funeral segunda-feira da Igreja de São João de Brito para o cemitério do Alto de S. João.
A fadista foi a criadora de "Não passes com ela à minha rua", que Fernanda Maria popularizou décadas mais tarde, e do êxito "Ouvi cantar o Ginguinhas".
"Como fadista tinha um estilo peculiar, que congregava uma legião de fãs. Além de Ginguinhas, outro fado muito apreciado era o da Agualva", disse à Lusa o poeta José Luís Gordo.
José Luís Gordo realçou que a sua casa de fados, A Tipóia, "era na década de 1960 uma das mais requisitadas, por onde passaram vários nomes e aonde se ia pelo convívio".
Teresa Tarouca, José Ferreira Rosa, Casimiro Ramos, Carlos Ramos, Francisco Stofel, Maria da Fé, Manuel de Almeida são alguns dos fadistas que cantaram n`A Tipóia.
"Na década de 1960, até antes, foi um espaço de referência do fado e de tertúlia de poeta. Nos inícios da década de 1970, era um espaço onde pontuava o poeta José Carlos Ary dos Santos", ", assinalou o estudioso de fado Vítor Duarte Marceneiro.
Na década de 1970, "todas as noites como que em romaria ia lá, com o meu avô, Alfredo Marceneiro, que gostava de ouvir declamar o Ary e apreciava aquele espírito de tertúlia, pois passava por lá toda a gente de Lisboa, como dizíamos na época", recordou ainda.
A fadista e actriz Fernanda Baptista, de 89 anos, criadora de êxitos como "Fado da carta", faleceu no dia 25 de Julho ao princípio da madrugada, no hospital de Cascais, onde se encontrava internada, disse à Lusa um familiar.
Além do "Fado da carta" (João Nobre/Amadeu do Vale) a fadista criou vários outros êxitos e foi primeira figura de várias operetas e revistas, entre elas, "Chuva de mulheres" e "Fonte luminosa".
A sua estreia na revista deu-se em 1945, em "Banhos de sol", a convite do compositor e maestro João Nobre, mas já anteriormente integrara o cartaz do Café Luso, a convite de Filipe Pinto, no início da década de 1940.
O êxito alcançado levou-a a deixar a profissão de costureira que exercia.
"Saudades de Júlia Mendes", "Fui ao baile", "Trapeiras de Lisboa", "Pedrinha da rua", "Fado toureiro" ou "Fado das sombras" foram alguns dos seus êxitos.
A sua última presença em palco foi no musical "Canção de Lisboa" de Filipe la Féria, em 2005.
A fadista foi alvo de várias homenagens, nomeadamente da Associação Portuguesa dos Amigos do Fado, da Câmara de Lisboa e, em 2003, foi condecorada com a Ordem de Mérito pelo Presidente da República, Jorge Sampaio.
Ao longo de mais de 65 anos de carreira artística, a fadista e actriz actuou em cerca de 50 revistas e operetas, gravou centenas de discos e realizou várias digressões, tendo actuado nos Estados Unidos, Brasil, Argentina e Angola.
A parceria Iplay e Valentim de Carvalho lançou no mercado uma nova série de CD, "O melhor de", que recupera êxitos da música portuguesa de nomes como Carlos Ramos, Hermínia Silva, Maria Clara ou Alberto Ribeiro.
"Esta colecção tem mais informação. Há uma melhoria de textos específicos, em português e inglês, sobre cada artista, as letras de cada canção e fado. É uma edição mais cuidada. Todavia, esta colecção não pretende substituir a colecção lançada há uns anos pela EMI Music, mas sim uma outra, a colecção Caravela", explicou à Lusa o director geral da Iplay, José Serrão.
Editados estão Hermínia Silva, Alberto Ribeiro, Frei Hermano da Câmara, Maria de Fátima Bravo, Tony de Matos, Carlos Zel, Beatriz da Conceição, Fernando Farinha, Carlos Ramos, Lucília do Carmo e Maria Clara.
Segundo Serrão, "a maioria dos temas escolhidos provêm da Valentim de Carvalho, havendo casos pontuais em que se recorreu a outras editoras".
Um desses casos pontuais é o de Carlos Zel, falecido há seis anos e de quem se escolheu, entre outros, "Restos de uma saudade" (Francisco Stofel/Carlos Manuel Lima), "Disseste que me deixavas" (Mário Martins/José Lopes) e "Neste rio vou morrer" (Alfredo Duarte/António Fontes).
A colecção integra nomes já desaparecidos como Zel ou Carlos Ramos, outros que deixaram de cantar, caso de Maria de Fátima Bravo, ou outros ainda no activo, como Beatriz da Conceição ou Frei Hermano da Câmara, que decidiu este ano regressar aos palcos.
Serrão afirmou à Lusa que o mercado está receptivo aos êxitos de outrora, "que são aliás de sempre".
"Há um certo saudosismo e temos um quadro de artistas cujos nomes, em termos discográficos, estavam desaparecidos há muito tempo", assinalou.
Todos os CD incluem 20 temas, entre eles os mais significativos da carreira de cada artista.
Assim, o CD de Fátima Bravo inclui o emblemático "Vocês sabem lá" (Carlos Sousa/Jerónimo Bragança) e o de Carlos Ramos "Não venhas tarde" (Aníbal Nazaré/João Nobre).
O CD de Alberto Ribeiro, falecido em 2000, integra a sua criação "Coimbra" (José Galhardo/Raul Ferrão), mas também os popularíssimos "Marco de Correio" (Amadeu do Vale/Alberto Ribeiro) e "Fado Hilário" (Gabriel de Oliveira/Augusto Hilário Alves).
"O melhor de Beatriz da Conceição" regista essencialmente êxitos saídos do teatro de revista nas décadas de 1960 e 1970, designadamente "Sou um fado desta idade" (Ferrer Trindade/Rogério Bracinha), "Lisboa da cor da ponte" (F. Trindade/César Oliveira/R. Bracinha), "Mini fado" (F. Trindade/C. Oliveira) ou "Santo António detective" (Artur Varatojo/Carlos Dias).
Entre os 20 temas de Hermínia Silva, outra vedeta do teatro da revista nas décadas de 1940 a 1980, o CD inclui o muito aplaudido "Gonçalo Velho" (Amadeu Santos/Raul Ferrão).
Do CD da fadista constam também "Fado da sina" (A. Santos/Jaime Mendes), e as sátiras a "Vou dar de beber à dor", de Amália Rodrigues, e ao "Fado falado", de João Villaret, respectivamente "Vou dar de beber à alegria" e "Fado mal falado".
No mercado estão já 11 títulos, projectando-se a saída, em breve, de outros seis, "sendo o previsto saírem seis títulos de três em três meses", disse José Serrão.
António Mourão, Maria José Valério, João Ferreira Rosa, José Cid, Alfredo Marceneiro e Maria Teresa de Noronha são aos próximos a serem editados, indicou Serrão.
Vítor Duarte Marceneiro, que este ano recebeu o Prémio Amália Rodrigues de Ensaio e Investigação, afirmou à Lusa que "tudo o que seja relembrar figuras antigas é bem-vindo".
O investigador espera que, "para além da edição discográfica, propriamente dita, esta seja uma hipótese de se reflectir sobre a época, se reconheça a qualidade dos poemas e também a qualidade musical".
"Há coisas de muita qualidade que estão esquecidas, e aprende-se sempre com quem chegou antes de nós e fez bom trabalho", frisou Vítor Duarte Marceneiro.
Por outro, lado, disse ainda, este "é um instrumento utilíssimo para quem investiga e procura saber mais na área da música ligeira portuguesa".
Aldina Duarte está de regresso com um terceiro disco «feminino e feminista». Ao Diário Digital, falou do seu percurso, das mulheres e do fado.
O que representou para si a saída da EMI e o consequente trabalho pelas suas mãos?
«Sair da EMI foi mais um desafio no meu percurso profissional, uma nova adversidade a combater, mais um teste à minha resistência artística, acima de tudo, reforçou esta minha realidade de andar sozinha nesta espécie de margem… e uma tomada de consciência de mais uma das manifestações do capitalismo selvagem, que nunca me surpreende na sua insensibilidade e arrogância. Paralelamente, esta situação revelou-me a competência, a generosidade e a amizade profissional duma equipa excelente em qualquer das áreas relacionadas com a produção e divulgação dum CD, todos ex-funcionários da EMI, agora cada um em locais de trabalho diversos, porém, juntos de novo neste meu terceiro disco, «Mulheres ao Espelho»!
Sente que os artistas devem ser cada vez mais do que artistas e passarem a controlar outros processos? «Ganhamos sempre todos, artistas, produtores, editores e público em geral, quanto mais cada um se envolve no conhecimento do todo em que somos parte. Isto é válido para qualquer matéria da vida!»
Pela primeira vez, um disco seu tem uma capa colorida. Porquê? «Porque as Mulheres têm uma flexibilidade afectiva e racional muito abrangente!»
«Mãe, eu quero ir-me embora - a vida não é nada». Revê-se nestas palavras? «Revejo-me em qualquer sofrimento humano, é uma coisa de sangue e pele… é um sentimento de fraternidade involuntário, é o que nos torna verdadeiramente humanos, a consciência do outro… penso eu.»
Porquê a homenagem a Maria José da Guia, Hermínia da Silva e Lucília do Carmo? «Porque são três fadistas a quem dedico muito tempo a ouvir para aprender a dizer bem as palavras, a dividir bem as frases, a saborear o ritmo e o balanço dos fados… a desvendar as melodias nas suas subtilezas… porque me dão força para avançar no meu caminho, enquanto fadista, quando as oiço, penso sempre: «obrigada por não terem desistido desta arte que seria bem mais pobre sem vocês» e «por me darem momentos de grande inspiração e comoção tão necessários na minha vida em geral».
Podemos considerar «Mulheres ao Espelho» um álbum feminino? «Feminino e feminista. Gosto muito de ser mulher e das mulheres em geral; e quis dar voz a mulheres à margem, vítimas de preconceitos arrepiantes para qualquer ser humano pensante, mesmo que pouco sensível. Qualquer homem que goste das mulheres entenderá facilmente a grandeza dos sentimentos e das atitudes das mulheres cantadas neste disco, nestas histórias a que assisti… de fiz parte directa ou indirectamente… e sinto uma gratidão por todas as mulheres e homens que lutaram anonimamente na maior parte dos casos, e publicamente também, para que eu seja sobretudo mais livre e feliz por tudo o que a liberdade têm em si de explícito e implícito.»
É conhecido o seu trabalho de pesquisa no fado. Continua a emocionar-se com o fado? «Surpreendo-me constantemente… e a minha dedicação e amor a esta arte é incondicional. Acho como todas as formas artes transcendente nos seus mistérios… emociono-me continuamente com o Fado, no meu dia-a-dia quando canto e quando oiço… e tenho a certeza que, como qualquer arte superior, é de todos e não é de ninguém… há uma vida própria na criação artística que está para além do entendimento de um só ser humano… há que ter a humildade de trabalhar, trabalhar , sem pensar nos resultados. Já ouvi falar do Fado á semelhança de Deus, cada um tem direito à sua Fé, porém, custa-me a aceitar aqueles crentes que acham sempre que estão mais perto de Deus que os outros, que eles acham que estão sempre longe ou mesmo de fora da esfera divina, neste caso fadista… eu sou pelas portas sempre abertas a todos como nas igrejas.»
Como vê este interesse súbito do grande público por alguns fadistas (Mariza, Camané, Ana Moura)? «Vejo como uma vontade dos portugueses de salvaguardar uma parte da sua identidade cultural, valorizando uma forma de arte que foi esquecida durante um certo tempo e que só existe aqui, em Portugal, e que por isso está a ter receptividade no mundo inteiro. O fado está na moda, ou melhor, continua na moda de há uns anos para cá, o que pode ser bom se a atenção for também direccionada para os muitos e brilhantes cantores, músicos, compositores e letristas que fazem a história desta Arte de tradição oral que tem graças a todos resistido e persistido desde há pelo menos 150 anos…»
Depois de vencer o Prémio Amália e estar há mais de 50 semanas no Top com 'Para Além da Saudade', a fadista culmina com dois concertos nos Coliseus. Amanhã, o Porto recebe Ana Moura, e no dia 26, será o de Lisboa.
Além dos músicos que a acompanham habitualmente, a cantora conta com as convidadas de referência Beatriz da Conceição e Maria da Fé. Ana Moura já fez parcerias com os Rolling Stones e, quando estiveram cá, convidaram-na a pisar o palco.
Os Coliseus são palcos muito esperados ou uma grande responsabilidade? As duas coisas! São palcos onde qualquer artista português, com a história que os Coliseus têm, deseja tocar. O facto de fazer estes dois concertos é um agradecimento meu a todo o público, pelo carinho que me tem dado por este último trabalho.
O que podemos esperar deste espectáculo? Estou num trabalho intensivo para poder realizar tudo o que desejo. Vão acontecer muitas surpresas ao longo do concerto, e gostava que se mantivessem surpresas... Estou a ter preocupação em todo o tipo de coisas, como o cenário, por exemplo.
Como foi estar em palco com os Rolling Stones, em Lisboa? Foi um dos momentos mais marcantes da minha vida profissional. Foi mesmo indescritível. Vieram a Portugal no ano passado e foram à Casa de Fados ouvir-me cantar, e convidaram-me para assistir ao espectáculo deles. Quando estou a chegar ao estádio, recebo um telefonema do Tim Ries, saxofonista, a convidar-me para cantar o No Expectations, no palco. Fiquei felicíssima, mas ao mesmo tempo nervosíssima, porque o Mick Jagger canta 4 tons acima do meu. Tive de improvisar uma melodia nova dentro daquela melodia. Ensaiamos a música duas vezes, mas tentei fluir no momento. Só o convite já foi um grande privilégio para mim.
Sentiu necessidade de dizer «Viva o Fado» nesse espectáculo de rock. Porquê? Fiquei tão feliz e o público estava a apoiar-me e a chamar o meu nome, que eu senti essa necessidade de dizer «Viva o Fado!». Durante alguns anos o Fado andou um bocado despercebido e sempre foi a música puríssima que temos o privilégio de ter. Agora começam a dar mais exposição e as pessoas têm oportunidade de conhecer, e de se identificar ou não. Fiquei mesmo muito feliz, por mim, mas também pelo fado.
Sente-se mais acarinhada em Portugal ou no estrangeiro? A minha carreira começou no estrangeiro, porque as pessoas com quem trabalhava eram holandesas. Neste último trabalho já comecei a trabalhar com portugueses e o meu trabalho teve mais exposição cá.
O prémio Amália foi importante para ver esse reconhecimento do público português? Sem dúvida. Para mim foi uma grande honra ter recebido este prémio, ainda por cima na categoria que foi - a de melhor intérprete.
Estar há mais de 50 semanas no top também é uma honra? Acho que sim… a música portuguesa está a atravessar uma fase tão difícil, e é bom ver que o Fado está a resistir às dificuldades. É sinónimo de sucesso para o fado essencialmente.
Há algum tema do seu álbum que queria realçar? É de destacar Os Búzios, o fado com o qual as pessoas se identificaram e O Fado da Procura, da Amélia Muge. Estes temas ligaram-me mais ao público sem dúvida.
Este tem sido o melhor ano da sua vida? Profissionalmente tem sido sim, sem dúvida. Pessoalmente não, porque não tenho tempo!
O álbum "Outro sentido", o terceiro da carreira de António Zambujo, foi considerado um dos dez melhores do mundo na área da world music no último mês pela revista britânica Songlines.
Em "Outro sentido", editado em Setembro, António Zambujo revisita os repertórios de Amália, Adriano Correia de Oliveira, Carlos Ramos e ainda os cancioneiros brasileiro e açoriano.
"Este não é assumidamente um disco de fados e antes um disco com fados, onde exploro outras sonoridades como o jazz e a bossa nova que influenciaram a minha formação musical", disse na ocasião à Lusa Zambujo.
Além do intérprete português, a tabela dos dez mais publicada na edição de Julho da Songlines inclui o senegalês Wasis Diop com o álbum "Judu Bek", a espanhola Concha Buika que segunda-feira actuou em Lisboa no concerto de Mariza, com o álbum "Niña de fuego", já editado em Portugal, Eliza Carthy com "Dreams of Breathing Underwater", e ainda os colombianos La-33 com o CD "Gonzalo".
Integram também a tabela os álbuns "Many Lessons", um CD constituído por vários artistas que interpretam temas hip-hop de carácter religioso islâmico, "Vagabond" do duo Spiers & Boden, "Calcutta Chronicles: Indian slid guitar odyssey", de Debashish Bhattacharya, "Langoni", do duo queniano da etnia Luhya Ingosi Stars, e ainda "The fountain", dos turcos Dem Trio.
A base musical de "Outro sentido" é o violão, sendo Zambujo acompanhado por Carlos Manuel Proença (guitarra clássica), José Manuel Neto e Paulo Parreira (guitarra portuguesa) e Ricardo Cruz (contrabaixo/baixo acústico), Mário Delgado (guitarra eléctrica), Paulo Guerreiro (trompas), Fernando Nunes (programação de loop), Daniela de Brito (violoncelo), além de se acompanhar a si próprio, nomeadamente em "A nossa contradição".
O produtor musical é Ricardo Cruz, que já o fora nos dois anteriores álbuns de Zambujo, "O mesmo fado" e "Por meu cante".
Entre os 13 temas que compõem "Outro sentido", destaque para o tema açoriano "Chamateia" (António Melo de Sousa/Luís Alberto Bettencourt,) que conta com a participação especial das Vozes Búlgaras Angelite.
"Foi uma feliz coincidência, o grupo estava em digressão em Portugal, ouviram o tema e gostaram e gravámos no Teatro Viriato, em Viseu", explicou o cantor, que considera este um dos temas "mais tocantes".
Todos os outros temas, alguns com arranjos seus, foram gravados nos estúdios Pé de Vento.
No ano passado, "Outro Sentido" alcançou o 14º lugar do Top World Music Charts Europe.