20 de julho de 2007

Brigada Victor Jara | Ceia Louca

Brigada Victor Jara
Ceia Louca

Universal Music Portugal, 2006

A tradição já não é o que era, e recomenda-se que assim seja! Senão, tomemos como exemplo o último trabalho discográfico da Brigada Victor Jara, um dos grupos mais importantes do panorama musical português e uma referência incontornável.

Passados 30 anos de recolha, preservação e divulgação do património etnomusicológico de norte a sul de Portugal, patente numa vasta discografia, o tão aguardado Ceia Louca apresenta-se como um amadurecimento na estética musical do grupo, com um toque de modernidade e sofisticação, ao mesmo tempo que faz ressoar as batidas percutivas da tradição, como um latejar vital da cultura dum povo.

Diversidade é a palavra que melhor define este banquete servido tanto à beira-mar, como no interior dos vales e das montanhas, levando-nos a imaginar trilhos antigos ou ritos esquecidos no imaginário popular. De facto, a Brigada Victor Jara propõe-nos uma viagem musical ao resgatar temas tradicionais de vários pontos geográficos: desde as ilhas da Madeira e dos Açores, até Trás-os-Montes, passando pelas terras do Algarve e das Beiras. Esta linha da tradição só é rompida pelo único tema original e instrumental do disco: Arruada. A diversidade sonora, contrabalançando tempos e ritmos, acordes e melodias, também se faz sentir nas colaborações vocais de distintos músicos portugueses, provenientes de diferentes estilos musicais, nomeadamente o rock, o pop, o fado e a música popular. Por isso, não estranhem ouvir a voz rasgada de Jorge Palma a cantar uma Chamarrita Zaragateira açoreana, ou a doçura fadista de Cristina Branco em tom de Embalo madeirense, para não falar da imensidade vocal de Catarina Moura, intérprete do grupo e membro do projecto feminino Segue-me a capella, que, por sua vez, também colabora em Cantiga Bailada.

O manjar não podia estar melhor preparado, deixando-nos cair, loucamente, no pecado da gula de querer mais...

© Sara Louraço Vidal, 2007 | Sons Vadíos

Alinhamento

  1. Chamarrita Zaragateira
  2. Tirióni
  3. Lenga-lenga
  4. Li-la-ré
  5. Moda do pastor
  6. Cantiga bailada
  7. Embalo
  8. A vida do caracol
  9. Meninas vamos à murta
  10. Durme
  11. Romance de D. Mariana
  12. Arruada
  13. Rosinha
Produção: Ricardo J. Dias
Gravado, misturado e masterizado por Mário Barreiros no MB Estúdios em Vila Nova de Gaia

Cantiga Bailada (participação de Segue-me à Capella)

16 de julho de 2007

Arritmia

Lançamento Arritmia (DVD)

DVD, 45 min, port/ing
Bar Aguabenta, Viseu
20 Julho, 6ª feira às 22h00

A PédeXumbo edita este ano um DVD, ARRITMIA, de Tiago Pereira, composto por três partes: um filme de autor que nos dá uma viagem musical da história do Andanças e seus participantes através da desconstrução do ritmo, um pequeno filme que ensina várias danças, e um filme de animação sobre dança feito pelas crianças nas escolas do ensino básico de Évora e de Carvalhais.

"diz-se que o festival andanças é muito mais que um festival de dança... quando se viaja pelo ritmo e pelas danças tradicionais pode perceber-se que as montanhas, e as fábricas de papel, e os carros nas ruas também dançam... e que a dança está lá sempre, prestes a brotar perante qualquer som. o festival condensou tudo isso numa semana. um pulsar permanente de quem sabe e de quem não sabe os passos. mas todos dançam, disso não restam dúvidas.” Tiago Pereira

"they say the Andanças is much more than a dance festival... when the journey through the rhythm of traditional dances begins, it is clear that the mountains, the paper mills and the cars on the streets are dancing along... and that dance is relentlessly present, bursting from every sound. the festival has channelled all this in a single week. a permanent beat pulsing both in those who know the moves and in the uninitiated. one thing is sure: everybody's dancing." Tiago Pereira

15 de julho de 2007

DVD de Alfredo Marceneiro será editado esta semana

O primeiro DVD de Alfredo Marceneiro, falecido há 25 anos, 'Três gerações de fado', surge esta semana no mercado, e recupera um documentário televisivo de 1980, realizado por Luís Gaspar. Ao longo do DVD que inclui como extra o videoclip 'O lenço' (Henrique Rêgo/Alfredo Marceneiro), o fadista fala da sua história na primeira pessoa, recorda os primeiros tempos, nomeadamente como o apelido 'Marceneiro' se lhe colou ao nome. Alfredo Rodrigo Duarte de baptismo acabaria por ser Alfredo Marceneiro em virtude da profissão, o nome artístico ficou consagrado numa tarde de fados na Esplanada do Rato, em Lisboa, que do cartaz faziam parte, entre outros, Alfredo Pinto e Alfredo Correeiro. O DVD inclui a participação do seu filho, Alfredo Duarte Júnior que ficou conhecido como "o fadista bailarino", falecido em 1999, e do seu neto Vítor Duarte Marceneiro, que aliás assina a produção televisiva. Alfredo Duarte Júnior interpreta 'É loucura ser fadista' (Júlio de Sousa) e o neto interpreta com o avô 'Amor é água que corre' (Augusto de Sousa/A. Marceneiro). "Esta era uma das coroas de glória do meu avô e deu-me um grande gosto e até emoção ter interpretado isso com ele", recordou Vítor Duarte Marceneiro que editou em 1995 uma biografia de Alfredo Marceneiro. O DVD decorre em ambiente de tertúlia com Alfredo Marceneiro que foi apelidado pela imprensa como "o patriarca do fado", lembra que foi "o primeiro a cantar a meia-luz" e consciente que está a fazer um documentário para a posteridade corrige "gajos" por "fulanos". Entre 'Há festa na Mouraria' (António Amargo/A. Marceneiro) e 'Cabelo branco' (H. Rêgo/A. Marceneiro),'Ti'Alfredo' como era tratado carinhosamente pelos fadistas recorda as suas participações nas cegadas e salienta a importância de bem dizer as palavras e respeitar a pontuação. Quanto à forma de cantar, Marceneiro atesta que "cada qual canta à sua maneira" e nisso é que está "a evidência" do fadista. Alfredo Marceneiro revela também as suas raízes musicais, o avô materno, fadista e tocador no Cadaval (Concelho do Distrito de Lisboa) e o pai "tocador de trombone ou contrabaixo". O DVD é acompanhado de um mini-livro onde se referencia a biografia de Alfredo Marceneiro, os estilos que criou, as diferentes edições de discográficas, com destaque para o LP 'The fabulous Marceneiro', e sintetiza-se o historial das "três gerações dedo fado" que aliás intitula o DVD. Outros temas que Alfredo Marceneiro interpreta neste DVD são 'Eterno bailado' e 'Antes que queira não posso', ambos de H. Rêgo e A. Marceneiro, 'O Marceneiro' de Armando Neves e Casimiro de Brito, 'A minha freguesia' também de Armando Neves e Marceneiro e, de Silva Tavares e Marceneiro, os fados 'A casa da Mariquinhas' e 'Fado balada'.
Diário de Notícias

11 de julho de 2007

Lisboa Records


Chega hoje às lojas um disco que apresenta a Lisboa Records, uma nova editora que, nesta etapa de lançamento, vai trabalhar apenas projectos de música portuguesa. Lisboa é um tributo a uma cidade que continua a inspirar músicos e, salvo a participação das Danças Ocultas, é um álbum feito de gravações inéditas. A “família” Sétima Legião está presente em diversas frentes, uma vez mais chamando atenção para o muito que, em separado (ou eventualmente em colectivo) ainda tem para nos revelar. Lisboa abre a janela às muitas paisagens que aceita. Rui Reininho e Armando Teixeira assinam o “momento” do disco em O Estranho Caso do Amante Preguiçoso, canção que revela o potencial de uma parceria que justificava nova aventura posterior... Um EP... Quem sabe, um álbum. Pedro Oliveira e José Sousa fazem de Magnífica Luz outro dos grandes instantes pop de um álbum onde encontramos ainda, próximos de linguagens que lhes são habituais, Rodrigo Leão, A Naifa e os The Gift. Da herança d’Os Poetas chegam novas abordagens por música à poesia, a mais interessante de todas via BCN, sob palavras e voz de Mário Cesariny. Nota ainda para uma interessante leitura de Com Que Voz por Maria Ana Bobone e Ricardo Rocha (com Rodrigo Leão a colaborar nos arranjos), sem temer afastar-se dos paradigmas “amalianos”. Duas revelações a fechar: Novembro e André Filipe, nomes a acompanhar... Num ano de dieta na oferta musical, um álbum cheio de luz e boas sugestões, para mostrar que nem tudo está perdido...
fonte ~ Nuno Galopim

9 de julho de 2007

Marenostrum | Almadrava

Marenostrum
Almadrava
Som Livre, 2005




















Desde sempre ouvi dizer que a música algarvia se definia pelos ritmos do corridinho e do baile mandado.

Marenostrum, grupo oriundo de Tavira, desmistifica esta ideia no seu segundo trabalho discográfico, intitulado Almadrava, apresentando uma fusão bastante heterogénea entre a música tradicional e outras várias sonoridades, que vão desde Cabo Verde (Nha Rosa e Blimundo) até às raízes judaícas dos sons frenéticos Klezmer (Freylekchs fun L.A...), passando pelas sonoridades árabes do norte de África (Rasmalhada e Oxalá). Tudo isto, sem esquecer os já referidos ritmos autóctones, presentes em Cantigas das mentiras e Mandado (Vira a chata).
No entanto, apesar de tanta diversidade, há uma linha orientadora que dá consistência a este trabalho: a força inspiradora do mar, que se deixa revelar através de vários sinais: o desenho gráfico do disco, que cativa imediatamente a atenção; o próprio título "Almadrava", pois é um conceito relacionado com a pesca do atum; e as letras, que na sua maioria fazem alusão ao mar e à faina, evocando tempos antigos, quando as armações de atum e a actividade a elas inerentes ainda subsistiam no Algarve.
Partindo da tradição algarvia, podemos considerar este disco como um trabalho ao rumo do encontro de sons e de culturas, no qual destaca-se a participação da cantora cabo-verdiana Maria Alice em Nha Rosa e do guitarrista Mamadi da Guiné Conakri, que tocou em Fado da ilha e Mandado (vira a chata).
Igualmente relevante e emotiva é a homenagem que Marenostrum faz ao amigo e companheiro Sérgio Mestre, com a inclusão do tema Blimundo, que resulta da gravação de um ensaio, no qual ele participou ao tocar flauta.

Alinhamento
  1. Peru branco (cantiga das mentiras)
  2. Muxama a...
  3. Fado da ilha
  4. Rasmalhada
  5. Nha rosa
  6. Freylekchs fun L.A
  7. Mandado
  8. Oxalá...
  9. Almadrava
  10. Blimundo
  11. Roaz...
Produção: Nuno Faria, Fernando Abrantes e Marenostrum
Muxama a...
marenostrum
som livre, 2005

5 de julho de 2007

Ana Laíns | Sentidos

Ana Laíns
Sentidos
Different world, 2006

Ao ouvirmos o primeiro disco de Ana Laíns, intitulado “Sentidos”, não nos desprende a sensação de que, efectivamente, ele deixa-nos “Pouco tempo” para apreciarmos este novo talento da música portuguesa, aguçando a nossa curiosidade por mais. É, precisamente, com este tema que iniciamos a descoberta do album de estreia desta tomarense nascida em 1979. E que agradável revelação!

“Sentidos” é uma abordagem reflectida e cuidadosa ao fado contemporânea, conjugando as linhas tradicionais com a fusão de instrumentos menos usuais, como pode ser o acordeão ou o violoncelo, sem qualquer tipo de pudor ou receio a desvirtuar a sua essência.

Este não é somente um disco de fados, mas fundamentalmente de sentidos e emoções, onde a voz doce de Ana Laíns é a principal protagonista, sabendo jogar com diversas dinâmicas e estéticas de interpretação, que não se confinam ao trinar do fado. Por este motivo, não é descontextualizada a inclusão do tema popular “Pêra madura”, cujo arranjo vocal recorda a tradição musical além do Tejo.

Se a escolha musical é de louvar, sob a direcção de Diogo Clemente, não menos desmerecedora é a selecção literária, elaborada pela própria Ana Laíns, o que revela, por si só, a sensibilidade e o critério de qualidade inerentes à fadista. Neste seguimento, encontramos poemas de António Ramos Rosa, Lídia Oliveira e Florbela Espanca, entre outros, cuja musicalidade foi perfeitamente enquadrada e bem conseguida.

Não há dúvidas: esta jovem fadista tem potencial para se destacar nas novas gerações do fado, onde a originalidade e a personalidade começam a ser cada vez menos únicas.

© Sara Louraço Vidal, 2007


pouco tempo
ana laíns
difference music, 2006

2 de julho de 2007

Helder Moutinho | Luz de Lisboa

Helder Moutinho
Luz de Lisboa
Ocarina, 2004


Como o lento correr do Rio Tejo, assim desagua no nosso sentir os onze temas que compõem o último trabalho discográfico “Luz de Lisboa” de Helder Moutinho.

À primeira escuta, poderíamo-nos deixar enganar pela simplicidade das melodias e das guitarradas, mas à medida que nos deixamos levar pela voz segura e cativante desta nova referência do mundo do Fado, facilmente nos apercebemos que tranquilidade não é sinónimo de ausência de emoção, nem de beleza! Bem pelo contrário, este disco denota-se pela sua capacidade de comover o espírito e de provocar o imaginário do ouvinte: o despertar da cidade, que com a sua luz vai invadindo ruas e casas adormecidas, rompendo com a Saudade e criando nova vida, plena e absoluta.

São as palavras de Helder Moutinho, principal responsável pela força da poesia neste seu trabalho, as principais protagonistas, que dão corpo e essência à música, e nova alma a fados recreados que se deixam modernizar pela sentir renovador do fadista, tais como Fado Refúgio (Fado Cravo) ou Fado Amado (Fado Alberto). Outro tema onde a mensagem se ressalta é Parceiros das Farras, onde Moutinho faz-se acompanhar somente por uma guitarra clássica, como que um convite a concentrar-mo-nos na sua interpretação vocal e na sua expressão da alma.

Por outro lado, a contenção da voz e do seu rigoroso trinar, sem espaço a exageros ou abusos, é o fio condutor que nos embarga a alma, sem perdermos a noção de que o que estamos a ouvir é um desabafo pessoal de Moutinho, destacando-se, por este motivo, de outros fadistas da nova geração. Podemos, mesmo, considerar este trabalho como um dos mais pessoais e autênticos dos últimos tempos, sendo visível o carácter intimista, não só nos poemas, como na própria forma de expressão.

Por tudo isto, e muito mais, não é de estranhar que Helder Moutinho seja considerado como uma das referências incontornáveis do Fado Novo, aplaudido pela crítica e elogiado pelo júri do prémio Amália Rodrigues, que lhe atribuiu o prémio de Melhor Álbum 2004.

Alinhamento
  1. Ai do Vento – letra e música de Helder Moutinho
  2. Ao Trovador – letra Helder Moutinho, música Paulo Jorge Santos
  3. Lisboa das Mil Janelas - letra Helder Moutinho, música Carlos Manuel Proença
  4. Ao Velho Cantor - letra Helder Moutinho, música Fado Menor (DR)
  5. Fado Refúgio – letra Helder Moutinho, música Alfredo Duarte (Fado Cravo)
  6. Eu Lembro-me de Ti, Lisboa - letra Helder Moutinho, música Alfredo Duarte
  7. Não Guardo Saudade à Vida - letra Helder Moutinho, música Jaime Santos (Fado Alfacinha)
  8. Fado Bailado - letra Helder Moutinho, música Alfredo Duarte (Fado Bailado)
  9. Ao Redor de Um Fado Antigo - letra e música de Helder Moutinho
  10. Parceiros das Farras – letra Mascarenhas Barreto, música António dos Santos
  11. Fado Amado - letra Helder Moutinho, música Miguel Ramos (Fado Alberto)
Músicos:
Paulo Jorge Santos – Guitarra Portuguesa
José Elmiro Nunes – Guitarra Clássica (Viola)
João Penedo – Baixo e Contrabaixo

Músicos Convidados:
Carlos Manuel Proença – Guitarra Clássica (Viola) em “Lisboa das Mil Janelas”
Diogo Clemente – Guitarra Clássica (viola) em “Parceiros das Farras”

28 de junho de 2007

Mário Correia: Prémio Europeu Agapito Marazuela 2007

Mário Correia, investigador, criador e o impulsionador do centro de música tradicional Sons da Terra em Sendim, foi reconhecido com o Prémio Europeu de Folclore Agapito Marazuela, na sua 13º edição. Este galardão é convocado pela Associação Cultural Ronda Segoviana, e foi-lhe entregue no dia 9 de Junho em San Quince. Mário Correia, de nacionalidade portuguesa, é uma das figuras mais destacadas do panorama actual da música tradicional lusa. Com este prémio, o jurado quis reconhecer o grande trabalho de difusão do folclore português através da rádio e da televisão, assim como na meia centena de discos de recolhas de música tradicional portuguesa, uma dúzia de livros e centos de artigos, entre outros frutos do seu trabalho. Com base desde 2001 no centro de música tradicional Sons da Terra na localidade portuguesa de Sendim, Mário Correia procurou os pontos coincidentes que existem nas culturas de Portugal e Espanha.
Com este galardão, o prémio Agapito Marazuela adquire dimensão europeia, e incorpora ao seu nome o adjectivo de europeu em sinal de apoio à candidatura de Segovia como Capital Europeia da Cultura de 2016. Isto pressupõe uma maior presença de candidaturas europeias entre os diversos aspirantes. O jurado foi composto, entre outros, pelo catedrático de Antropologia da UNED, Honorio Velasco; o científico do Instituto de la Lengua Española, Luis Díaz-González-Viana; o folclorista Luis Martín Díez, membro de Nuevo Mester de Juglaría, e a jornalista María Luisa García. O prémio é uma representação em bronze do busto de Agapito Marazuela, realizada por García Moro.
fonte ~ interfolk, nº 33

27 de junho de 2007

Rão Kyao | Porto Alto

Rão Kyao
Porto Alto


Ouvir a música de Rão Kyao é sinónimo duma liberdade de viajar por sonoridades e paisagens, que podem ser tão distantes como a Índia ou o Oriente mais longínquo, entre outras coordenadas geográficas. O último trabalho discográfico Porto Alto não é excepção, tendo como base as nossas raízes culturais.

Apesar de ser um disco de composição própria, tem a rara qualidade de nos "ensinar" diversas morfologias musicais portuguesas, sem camuflagens pseudo-inovadoras, comprovando que a simplicidade da sonoridade tradicional também pode ser eficaz e cativante, como é o caso de Castro Verde ou Rabela de Vilarinho. No entanto, uma tradição perde o seu sentido quando estancada no tempo e na memória, sendo passível de novas formas, rumos e encontros. Por este motivo, neste último disco percebemos facilmente
que as melodias ciganas e árabes cruzam-se com a nossa tradição musical, convidando-nos a percorrer trilhos por esse Portugal profundo e a saborear os aromas do Pão, do Azeite e do Vinho.

E deixamo-nos embargar pelos sentidos, dando asas à imaginação de percorrer vales e montanhas, (re)habitar aldeias esquecidas no pulsar do tempo, sentir o suor do trabalho na terra... Tudo isto, num lento viajar à descoberta das nossas raízes culturais, juntamente com o atrevimento de saltar fronteiras, numa curiosidade de conhecer o "mais além" que nos influencia, sem qualquer tipo de receio ou constrangimento. Pelo contrário, esta viagem sensorial faz-se demasiado curta, deixando-nos sedentos de futuras sonoridades, marcadas pelo sopro da flauta e pela visão peregrina de Rão Kyao.

© Sara Louraço Vidal, 2007

Alinhamento
  1. Dança dos montes (mp3)
  2. Rodinha na Eira
  3. Saudando o Sol
  4. Castro Verde
  5. A lua e os lobos
  6. Porto de Alfama
  7. Balada do pão
  8. na apanha da azeitona
  9. Pelo vinho da alegria
  10. Lamento redentor
  11. Nas margens do Guadiana (Intro e 1º Movimento)
  12. 2º Movimento
  13. Rabela de Vilarinho
  14. Um canto transmontano
Produção: Luis Pedro Fonseca
Gravado, Misturado e Masterizado nos Estúdios Xangrilá em Dezembro de 2003 e Janeiro de 2004

26 de junho de 2007

Dulce Pontes | O coração tem três portas

Dulce Pontes
O coração tem três portas
Ondeia, 2007

Pleno de carga emocional e vocal, Dulce Pontes apresenta-nos o seu último trabalho discográfico “O coração tem três portas”, passados 4 anos sobre o seu encontro com Enio Morricone.

Enraizando-se na sonoridade tradicional portuguesa, esta reconhecida cantora a nível internacional afirma a sua faceta mais fadista, homenageando figuras tão importantes do imaginário do Fado, tais como Fernando Maurício, Amália Rodrigues e Hermínia Silva. No entanto, apesar de nos iniciar nos primeiros temas com uma interpretação mais tradicionalista, como que invocando tempos antigos, gradualmente vamos entrando num novo conceito musical sobre o Fado, muito próprio e característico de Pontes, que assume o papel de produtora, responsável pelos arranjos, pianista, compositora e directora musical deste novo disco duplo: o primeiro gravado ao vivo em tour mundial, e o segundo explorando a envolvencia acústica da Igreja de Sta Maria em Óbidos e do Convento de Cristo em Tomar (Portugal). E como se fosse pouco, somos ainda convidados a ver um DVD com imagens do concerto em Istambul, bem como uma entrevista e o making-off do CD2.

Longe do tipicismo dos bairros históricos de Lisboa, podemos ouvir a preocupação em criar novos ambientes sonoros e em inovar na estética tradicional, através de arranjos musicais mais complexos e completos, consolidando a madurez e a potencia vocal de Dulce Pontes, que não se cinge somente em recuperar a expressão do Fado, mas igualmente do Folclore lusitano em geral. De facto, o lirismo, o barroquismo ou a simplicidade conjugam-se alternadamente não só a nível musical, como também a nível instrumental, seja pelo trinar despido da guitarra portuguesa, pelo embalo do violoncelo e da harpa, ou pelo despertar da gaita e da percussão, entre outras presenças.

Não é um disco de nostalgia nem de resignação, mas antes uma declaração de vida contagiante, na qual a emoção perpassa por cada som e silêncio, e onde as portas são-nos abertas para fazer-nos comungar dos sentimentos que nos são transmitidos. É uma entrega artística e espiritual sem reservas, onde a indiferença não tem sentido.

© Sara Louraço Vidal, 2007